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A letra morta de nosso conservadorismo

por Fabrício de Moraes (02/12/2016)

Elenca-se um conjunto de regras, características, letras mortas e “catecismos”, e condena-se aqueles que não os subscrevem.

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A inclinação brasileira à farsa revela uma aparente necessidade (metamorfoseada em princípio metafísico na ideia oswaldiana de Antropofagia) de muletas ou próteses culturais provenientes de outras sociedades. Dito de outro modo, a intelligentsia brasileira, convulsionada pela ansiedade do amadorismo, sente a inevitável compulsão de, como já disse Eliot, escorar suas ruínas em alguns fragmentos.

Para perceber isto, basta, por exemplo, a mínima atenção sobre a maneira como a esquerda brasileira – no afã de restaurar sua respeitabilidade e de balancear seu afamado espírito crítico que em geral despreza a leitura atenta, vagarosa e meditativa em prol de uma iconoclastia tão mais aplaudida quanto maior sejam os estragos dela resultantes – devora as traduções produzidas em escala industrial das obras de um Zizek ou de qualquer pós-estruturalista francês.

O fato é que o questionamento e a problematização (conceitos elásticos ao ponto de abarcarem não somente uma caricatura da metodologia cartesiana, mas também o niilismo racionalista de Monsieur Teste) atuaram por fim de modo análogo ao suco gástrico que dissolve não o alimento, mas as próprias paredes estomacais. Se Montaigne, tratando sobre a educação das crianças, dizia que aquele que regurgita o alimento intacto demonstra não tê-lo digerido corretamente, a nova busca de alguns progressistas por uma aparente erudição é prova clara de que o senso crítico tão presente em nossos universitários, justamente por ter atuado logo tempo no vazio, foi uma das principais causas das ulcerações na nossa produção intelectual contemporânea.

Porém, mais um artigo eivado de condenações veementes contra o marxismo cultural constitui-se como abuso do tempo de qualquer um que, sabiamente, já tenha programado suas leituras e formado seu cânone particular. Até porque qualquer condenação aos disparates do pensamento esquerdista brasileiro revela algum tipo de obsessão tanatológica, à qual o único conselho cabível é a ironia da frase inglesa: drop the stick and back slowly away from the horse carcass¹. Com efeito, grande parte dos conceitos produzidos nos centros filosóficos e literários universitários, imensos cemitérios de ideias, não são mais do que exumações. Entretanto, são justamente esses rituais necromânticos, com sua repetição ad nauseam, que possibilitam a subsistência da cosmovisão esquerdista em símbolos, imagens e narrativas veiculadas por todos os meios possíveis, os quais se manifestam no furor estudantil ou nos coletivos impulsionados por vindicações cada vez mais insubstanciais.

Nosso interesse, contudo, é uma sucinta análise de um fenômeno semelhante nos novos grupos conservadores e think tanks religiosos brasileiros. A esquerda proclama, a todo momento, e de modo histriônico, o “avanço do conservadorismo”. Entretanto, numa perspectiva antípoda ao verdadeiro pensamento conservador, grande parte dos grupos que encarnam, ou pensam encarnar, o amor pelas coisas permanentes, se lançam, talvez devido à empolgação da novidade ou pelo até então recente exotismo de suas posições, ao proselitismo, com o mesmo ardor dos progressistas. Ignorando ou desprezando o fato de que o pensamento conservador é fruto de laboriosa reflexão, prudência, pequenos avanços e grandes recuos e, acima de tudo, da felicidade de contentamento que já disse o apóstolo São Paulo (isto é, o amor e satisfação para com as pequenas vitórias), alguns delineiam, vociferantes, que as atuais calamidades nacionais somente persistem por causa da tibieza de muitos que: 1) não promovem um governo pautado em determinada tradição religiosa (em geral cristão: protestante ou católica); 2) ou não sublevam os já falidos centros intelectuais brasileiros, substituindo-os por grupos de estudos independentes; 3) não atuam pública e/ou midiaticamente para reverter a situação.

Evidentemente há uma parcela de verdade nessas alegações, e alguns de seus pressupostos são, em última instância, essenciais, caso desejemos a ressurreição da alta cultura ocidental no Brasil. Contudo, elencá-los como meio salvíficos é somente um mascaramento da soteriologia política. Grande parte de nossos supostos conservadores são, portanto, indivíduos que querem somente a autoridade, ou mais especificamente uma suposta legitimidade intelectual para realizar seus pronunciamentos, sem, no entanto, se submeterem às dores e dificuldades inerentes ao processo de reflexão e análise do real. Querem a inexorabilidade da lei sem serem participantes de seu espírito. O resultado, como nos tempos dos antigos profetas de Israel, é que, nos lábios desses indivíduos, a justiça se converte em letra morta.

Ora, não negamos que a impulsividade e imediatismo são próprios da natureza humana. Porém, hoje no Brasil, há um apego a fórmulas cristalizadas que se dá mediante a indiferença para com a massa de experiências a eles (aos conceitos) subjacentes. Curiosamente os grandes nomes do conservadorismo do século XIX e XX foram escritores de imaginação mítica ou espiritual – desde Benjamim Disraeli com seus romances, passando por Flannery O’Connor com seu Sangue Sábio até o Faulkner de Absalão, Absalão! Para não mencionar os que imediatamente vêm à mente quando se trata de imaginação moral: Chesterton, Belloc, Coleridge, T.S. Eliot, C.S. Lewis, George MacDonald ou Tolkien.

Não é possível adotar os pronunciamentos políticos e morais desses autores ignorando simultaneamente suas mitologias particulares condensadas em suas obras. Com efeito, há uma unidade orgânica entre seus valores e axiomas relativos à ordem moral e seus projetos literários. De maneira que, para o caso brasileiro, talvez seja mais pertinente o naufrágio em seus mundos imaginativos do que a edificação de baluartes a partir de suas sentenças. A escassez simbólica de vários grupos conservadores depõe contra a própria tradição conservadora que busca se ater à concretude da experiência individual e coletiva. Ora, a literatura, mais do que qualquer outra, é a técnica mais competente para subsumir, numa estrutura linguístico-imagética, as circunstâncias e valores de uma sociedade. Seus símbolos tornam-se, ao longo do tempo e por meio da manutenção e permanência do cânone, as próprias lentes, ou na metáfora de Stendhal, o espelho que reflete o caminho de um povo.

Devido em grande parte à simbologia maniqueísta dos progressistas, a literatura brasileira se degenerou consideravelmente em cartilhas ou representações zoroastristas da realidade; embora lastimável, esse fato, todavia, demonstra a consciência, por parte das políticas progressistas, do poder social dos símbolos, diferentemente de alguns dos nossos neoconservadores.

Sem estruturas narrativas ou referenciais simbólicos, a única identidade possível se dá por meio da contraposição aos demais grupos, gerando uma simbiose histriônica, quando não um parasitismo mútuo. E quanto ao modo de ação do conservadorismo tacanho? Elenca-se um conjunto de regras, características, letras mortas e “catecismos”, e daí, de maneira ex cathedra, condena-se aqueles que, ao menos superficialmente, não os subscrevem. São pedregulhos que se querem monólitos autofundantes, os quais reduzem a complexidade do real aos núcleos duros de seus pronunciamentos. Assim, acusando-se mutuamente de revolucionários, hereges ou ideólogos, tornam-se tão ou mais impertinentes do que os indivíduos que promovem abertamente a agenda progressista.

Edmund Burke já dizia que a política deve ser feita com base não na razão, mas na natureza humana. A elevação de programas políticos, cartilhas e estatutos à categoria de lei divina ou de livro-matriz é a evidência mais candente de que, no atual contexto cultural brasileiro, somos regidos por abstrações – por uma redução da concretude humana a uma de suas funções. Pelo fato de não recorrem às obras de imaginação para, a partir delas, fundarem sua própria mitologia ou narrativa explanatória, alguns setores conservadores também não são capazes de compreenderem seus textos fundantes como, em última análise, expressões cristalizadas do drama humano e de sua inquietude perante a constante desarmonia entre indivíduo, sociedade, cosmos e Deus (segundo o quaternário de Voegelin).

Em suma, há não somente uma ausência de leitura das obras de imaginação, mas também uma incapacidade de leitura imaginativa de quaisquer obras. Os resultados disso são políticas e filosofias que, partindo de uma imagem bidimensional e funcional do homem, e pautando-se em estruturas racionais destituídas do complemento da imaginação, produzem criaturas desumanizadas que, perante as arestas da vida, oferecem-nos apenas platitudes ou resoluções pré-fabricadas.

Nas condições culturais extremas da atualidade brasileira, acrescente-se ainda mais duas ameaças às quais todos estamos suscetíveis: um farisaísmo que entroniza o código, ignorando o substrato narrativo subjacente; ou o filiteísmo, que chafurda na indistinção e indiferenciação das narrativas, incapaz de ascender à formalização cristalina da lei. Portanto, farisaísmo e filiteísmo – os piores inimigos de toda religião.

Fabrício de Moraes

Tradutor, doutor em Literatura (UFJF/Queen Mary University of London).