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Homeopatia é feita de nada

por Carlos Orsi (24/01/2011)

O sucesso da homeopatia é um fenômeno cultural, não médico-biológico

por Carlos Orsi

Você talvez já tenha notado que anualmente, em alguns países do mundo, grupos de pessoas se dirigem a locais públicos e se submetem voluntariamente a “overdoses” de homeopatia — emborcando de uma vez o conteúdo de frascos inteiros de medicamentos homeopáticos.

Pois bem: neste ano, quem quiser brincar no Brasil também vai poder. O website brasileiro do movimento 10²³: Homeopatia é Feita de Nada entrou oficialmente no ar neste domingo, e a manifestação está marcada para o fim de semana de 5 e 6 de fevereiro. A “overdose” coletiva deve ocorrer às 10h23 da manhã, claro.

O objetivo da campanha é conscientizar as pessoas de que a esmagadora maioria das fórmulas homeopáticas não passa de puro veículo — água, álcool ou, no caso das pílulas, lactose — sem absolutamente nenhuma molécula de princípio ativo.

Esse fato deriva diretamente da “Lei dos Infinitesimais” inventada (os homeopatas preferem “descoberta”) pelo criador da homeopatia, Samuel Hahnemann. Segundo esse princípio, quanto mais diluída uma substância, mais potente se torna o preparado. Hahnemann acreditava que soluções extremamente diluídas de substâncias capazes de causar os sintomas de uma determinada doença tinham o poder de combater a doença.

(Se a ideia lhe parece um pouco com a psicologia do feiticeiro vodu, para quem machucar um bonequinho que simboliza o inimigo machuca o inimigo — com a substância causadora do sintoma no lugar do boneco e a doença, no lugar do inimigo — não se trata de coincidência: ambos são exemplos de “magia simpática”, onde uma semelhança, real ou simbólica, entre duas entidades é vista como sinal de que uma é capaz de afetar a outra. É um tipo de pensamento muito comum, que está na base de toneladas de superstições.)

Em defesa de Hahnemann, é preciso dizer que quando ele teve sua iluminação, a existência de átomos e moléculas ainda não havia sido comprovada, e a doutrina do vitalismo — a ideia de que as coisas, principalmente seres vivos, têm essências que podem estar presentes mesmo na ausência de qualquer vestígio material — ainda era cientificamente respeitável.

Hoje em dia, no entanto, sabemos que as substâncias da natureza são feitas de moléculas e que a partir de um certo nível de diluição simplesmente não há como restar nenhuma molécula de material em meio ao volume de solvente. Já o vitalismo virou nota de rodapé nos livros de história da ciência, junto com o geocentrismo e outras ideias que pareciam boas mas acabaram não funcionando.

Se você fez ensino médio (ou colegial ou segundo grau, que é como esse negócio se chamava na minha época), é possível que se lembre de que a concentração de soluções costuma ser medida em moles por litro. Um litro é isso mesmo, um litro, e um mol é uma quantidade de moléculas: 6,022×10²³, para ser exato. (Essa notação representa o número 6.022 seguido de 20 zeros).

É do 10²³ do mol que vem o nome da campanha, por falar nisso.

Diluições homeopáticas costumam ser medidas numa escala denotada pelo numeral romano “C”, de 100, onde cada ponto a mais — 1C, 2C, 3C, etc. — representa uma redução da concentração anterior a 1%. Assim, por exemplo, 5C tem 1% da concentração de 4C, que por sua vez já era apenas 1% de 3C. Uma diluição bastante comum é 30C.

O problema é que, começando com uma solução 1mol/litro, assim que atingimos uma diluição de 12C, o número de moléculas por litro cai a 0,6 — menos de uma! — e continua a cair cada vez mais, nas diluições subsequentes.

É por isso que a campanha diz que “homeopatia é feita de nada” e que a “overdose” é segura (desde que o remédio usado tenha uma diluição superior a 12C e o manifestante não sofra de nenhum problema de saúde que possa ser agravado pela lactose, é claro). Simplesmente, não há nada ali.

A reação de muita gente a esses fatos é dizer, “Ok, homeopatia não deveria funcionar, porque não contém nenhuma molécula ativa, mas o fato é que funciona. Certo?”. O objetivo da manifestação é desmistificar isso. Se funcionasse, as overdoses deveriam causar algum efeito. Mas não causam.

O sucesso da homeopatia é um fenômeno cultural, não médico-biológico. O paciente reage à atenção especial dedicada pelo homeopata, ao ritual do tratamento, às expectativas positivas criadas, não à droga.

Isso é medicina à moda antiga: como escreveu Voltaire no século XVIII — e Voltaire morreu em 1779, mesmo ano em que Hahnemann inventou a homeopatia –, o papel do médico na época limitava-se a manter o doente confortável enquanto a natureza tratava de curá-lo. Em comparação com outras distrações médicas do período, como sangrias e purgantes à base de metais pesados, como mércúrio, a homeopatia causava surpreendentemente pouco dano.

Com exceção de algumas intervenções cirúrgicas e umas poucas drogas realmente eficazes, essa função primordial da medicina — distrair o paciente — só mudou, de fato, a partir da descoberta dos antibióticos, no século passado.

No Brasil, onde os homeopatas também são médicos, a maioria é responsável o suficiente para notar quando o tratamento à moda do século XVIII não é suficiente e a ciência moderna precisa intervir. Outras nações não têm a mesma sorte, e não são raros os relatos vindos da Europa, EUA, Ásia e da Oceania de “morte por homeopatia“.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.