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O fenômeno editorial orwelliano se dá por uma dupla detratação.

Caso desejasse, alguém poderia atravessar o ano de 2021 comparando as novíssimas traduções para o um dos principais “lançamentos” editoriais do ano: George Orwell. Não é mau. Trata-se, afinal, de uma obra prolífica que, neste repentino boom comercial, todavia parece concentrar-se em apenas dois de seus títulos, Animal Farm e Nineteen Eighty-Four. É bem natural que seja assim. Ambos são romances que atravessam o tempo pela alegoria que fazem em relação ao temor totalitário de todos os tempos e foram escritos e publicados logo do apogeu da era mais sombria do séc. XX, quando os titãs autocratas de então se batiam, por meio dos seus soldados e maquinário, na ânsia de colonizar o mundo e garantir nele a preservação dessa espécie de governo.

Comparando-se aos títulos que costumam frequentar as listas de mais vendidos, realmente não é mau que Orwell (pseudônimo de Arthur Eric Blair) venha a confirmar-se como um habitué do rol de títulos mais cobiçado do sistema literário. Normalmente, há pouca literatura (ainda mais de boa qualidade) em evidência nessas apurações e o mero interesse num autor fundamental para a compreensão histórica da crise mundial dos anos mil e novecentos deveria representar um alento a todos aqueles devotos à leitura enquanto hábito positivo.

Longe de ser uma casualidade, o fenômeno editorial orwelliano se dá por uma dupla detratação. Por um lado, sua obra teria muito em comum com o gênero distópico tão em evidência nos meios audiovisuais e, por outro, a liberação dos direitos de autoria (vencido o prazo de setenta anos de morte do autor) minoraria os custos editoriais. Pode ser. Isso explicaria a blitzkrieg comercial dos múltiplos “lançamentos” das mais recentes traduções de seus dois principais romances.

Essencialmente, não há nada de errado e nem de mau nisso. Sempre que decaem os direitos de um autor cujo interesse popular é grande, isso costuma acontecer. Recentemente, o poeta português Fernando Pessoa passou por um boom semelhante, com muitas edições paralelas de suas obras sendo publicadas e comercializadas, desde o paperback mais acessível até edições acartonadas em boxes com um trabalho mais meticuloso. Em sã consciência, num país que amarga índices de leitura literária muito fracos, alguém poderia dizer que há algum problema nisso? Bem, pode e não é um problema sem sentido, dado que um dos sintomas mais visíveis desse súbito fenômeno poderia indicar que, por evidente, seriam os direitos autorais os responsáveis pelo encarecimento do livro nacional. Isso é o mesmo que afirmar que bastaria, portanto, suprimir tais direitos para que se tivessem finalmente livros mais acessíveis? Evidentemente, não.

Em primeiro lugar, há pouquíssima notícia de que autores (célebres ou desconhecidos) recebam valores significativos de direitos de venda e que tais dividendos sejam contabilizados com alguma transparência; em segundo, apenas idealmente o custo final com direitos representaria em torno de 10% da arrecadação; na prática, os últimos autores nacionais a sobreviverem com essa espécie de renda ainda remontam aos anos 60 e 70 do séc. XX. Como é sabido, escritores costumam exercer outras atividades comerciais a fim de perceberem ganhos monetários, tais como palestras, cursos, oficinas, etc. E também não é desconhecido que o metiér literário é também exercido por pessoas com outras fontes de renda mais seguras e que, inclusive, o mercado de livros pré-pagos (pelos autores) é bastante expressivo.

Esse cenário supracitado ao mesmo tempo evidencia a fragilidade do ramo e do sistema que o sustém. Isso, todavia, não explica a forma pela qual se desperta o mercado e o interesse aquisitivo das pessoas em condições de investir no objeto livro. Por meio da quinta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, por exemplo, pode-se saber muito acerca das motivações predominantes no acesso ao livro e, pasme-se ou não, critérios religiosos preponderam em relação aos do gosto literário. Dessa forma, ainda que se subtraiam os improváveis custos com direitos de autor (e seus respectivos espólios e gestores), trata-se invariavelmente de um boom com hora de acabar. Isto é, na dinâmica comercial, conta-se inclusive com o encalhe de títulos e o respectivo destino final das obras: a conversão em aparas que tanto chocou o mundo letrado há alguns anos no caso Cosac Naify.

Ao fim e ao cabo do fenômeno Orwell, restará que apenas seus títulos “bons de venda” receberão a momentânea benção multiplicadora dos livros. É de duvidar que títulos menos glamorosos do autor, como Na pior em Paris e Londres, recebam ao menos novas reimpressões. De resto, o ramo permanecerá dependente do seu setor menos célebre e do gosto predominante, livros religiosos e psicografados além da infalível autoajuda. É daí que não há milagres operando no caso Orwell, apenas que se pode ver que, dos míseros percentuais que se destinariam aos autores, ainda se consegue fazer uma indústria.

Lúcio Carvalho

Editor da revista digital Inclusive. Lançou em 2015 os livros Inclusão em pauta e A aposta (contos).