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A maior força da novela de Dag Solstad situa-se no olhar retroativo franco e desprovido de ilusões que o protagonista lança sobre si mesmo.

“Pudor e dignidade”, de Dag Solstad (Numa Editora, 2020, 158 páginas)

Sem alarde e com tímida divulgação, o mercado editorial brasileiro recebe pela segunda vez uma obra de Dag Solstad (nascido em 1941), considerado um dos mais notáveis ficcionistas noruegueses da atualidade: Pudor e Dignidade (“Genanse og verdighet”, tradução direto do norueguês por Grete Skevik), publicado originalmente em 1994. Suas cerca de 150 páginas podem ser lidas de uma só vez, graças à prosa fluida e percuciente, embora a assimilação pelo leitor não seja tão fácil e ligeira; é com a inquietação, o desconsolo e o amargor de uma crise do protagonista que veremos toda a sua vida ser revista e reavaliada a partir de um momento que parecia ser, a princípio, de iluminação e epifania, para logo se precipitar num abismo de ira, frustração e impotência.

Cativando o interesse do leitor de imediato, o estopim da epifania que se converte em crise se dá no início da narrativa, fazendo do primeiro terço do livro a sua parte mais vigorosa. Quando o professor de literatura Elias Rukla, acostumado com a rotina diária da sala de aula e com os hábitos dos seus mais de cinquenta anos de idade, tem uma súbita e inédita compreensão de um trecho inúmeras vezes relido da peça O pato selvagem, de Ibsen, o momento de rara alegria do professor sucumbe diante da incapacidade de compartilhar o seu entusiasmo com os jovens alunos, completamente alheios ao universo da literatura clássica e totalmente indiferentes ao sentido captado por Rukla nas páginas da obra. Derrotado, o professor deambula pelas ruas de Oslo, iniciando um longo mergulho na memória que recua até os anos 1960, repassando sobretudo a sua amizade com Johan, brilhante estudante de filosofia, e seu casamento com a bela Eva.

Com um leve tremor

Entremeada por reflexões sobre literatura e filosofia, bem como por avaliações críticas sobre a sociedade contemporânea, a maior força da novela situa-se, contudo, no olhar retroativo franco e desprovido de ilusões que o protagonista lança sobre si mesmo, num tour de force interior que expõe a sua profunda solidão existencial e que busca algo que ainda o ligue aos outros, num movimento que faz lembrar A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, a mais clássica novela nesses moldes. Se em Pudor e Dignidade não há o bafo gélido da morte à espreita, há, por sua vez, a perspectiva de uma velhice melancólica, desgastada por um incontornável tédio existencial e pelo descompasso geracional.

A dupla de substantivos que empresta ao título do livro uns ares de Jane Austen – embora a prosa febril de Solstad não guarde semelhança com a sutileza irônica da britânica – faz pensar no esforço de compreensão empreendido pelo personagem, que procura entender a si mesmo e aos outros sondando as entrelinhas e as palavras não-ditas que perfazem as relações pessoais, e que podem ser mais reveladoras do que o sentido manifesto, expediente que Austen manipula com maestria. A epifania literária de Rukla diante do texto teatral de Ibsen ocorre justamente ao ler uma indicação de cena (ou didascália, para usar o jargão), em que Ibsen registra que a fala do personagem Relling deve ser dita “com um leve tremor na voz”. O sentido desse sutil vacilo, que insufla Relling com a vulnerabilidade de uma vida interior oculta, descortina para Rukla novas camadas de interpretação, que vão surgindo febrilmente em suas reflexões a partir do seu entusiasmo renovado diante de um texto que já parecia exaurido após tantas leituras, ao longo de 25 anos de magistério.

À medida que vai se cristalizando um laço de compreensão, de empatia e de reconhecimento de Rukla com Relling – personagem secundário da peça de Ibsen, que se mostra desagradável e cético, mas lúcido, genuíno e com uma vida interior insuspeita – vai ganhando vida a caracterização do próprio Rukla, um velho e supostamente irrelevante professor a caminho de uma melancólica aposentadoria, tributário de um passado repleto de promessas de felicidade frustradas, “aferrado ao próprio destino amargo”. A relação íntima e existencial que o velho professor estabelece com a literatura, tão comovente e significativa para todo leitor que sabe o quanto de frustração e de derrota anda a par com o entusiasmo e a beleza proporcionados pelos livros – trazendo à lembrança os professores Stoner, do romance homônimo de John Williams, e Kepesh, de O Professor do Desejo (Philip Roth) – é o maior triunfo de Solstad e de sua vigorosa demonstração de que a literatura contemporânea mantém vivo o desafio que os livros colocam à vida.

Forçar adolescentes a ler Ibsen

Por outro lado, o lapso geracional entre o professor e seus alunos expõe o esboroamento da literatura como pilar da sociedade e força modeladora dos desejos humanos, pulverizada pela massiva cultura do entretenimento e pela consequente postura imatura e imediatista diante do tédio.

Os jovens que agora estavam sentados ali em toda a sua imaturidade, entediados por seu interesse exultante na função do dr. Relling na peça O pato selvagem, não viam seu tédio como uma consequência natural de serem alunos; pelo contrário, estavam indignados por passarem aquela manhã de segunda-feira se entediando numa aula de norueguês na Escola Secundária de Fagerborg, (…) com suas vidas interiores confusas e inadequadas, provavelmente cheias de devaneios novelescos, sentindo-se ofendidos por ficarem entediados, e esse sentimento era dirigido a ele, o professor, porque era ele que os entediava. (…) numa sala de aula em que uma das maiores obras dramáticas da nossa literatura estava sendo estudada. Sentiam-se simplesmente vitimados, e não havia razão nenhuma para se zombar disso. Para eles, estar entediado era uma experiência tão insuportável que seus corpos, os corpos de todos eles, sem exceção, e seus rostos, de meninos e meninas, espertos ou nem tanto, os bons na escola ou os que só estavam sentados (ou deitados) ali para passar o tempo, expressavam uma raiva reprimida. Por que deviam aturar aquilo? Será que ele tem o direito de nos tratar desse jeito? Ele podia ver que era assim que pensavam. (pág. 26-27)

Somente quando os alunos saem para o intervalo e o narrador registra que carregavam seus walkmans é que nos damos conta de que estamos nos anos 1990, o que nos deixa pensativos quanto ao impacto que a internet móvel e as redes sociais tiveram na geração seguinte. O quanto da raiva reprimida de outrora não terá dado espaço a um cansaço generalizado ou a um puro solipsismo, na esteira dos hábitos de entretenimento móvel e de distração em banda larga? Por outro lado, o quanto do profundo isolamento do professor Rukla não poderia ser atenuado pelas possibilidades da internet, encontrando textos ou publicando as suas próprias reflexões sobre O pato selvagem, por exemplo?

É curioso notar os paralelos do tipo de tédio que Rukla sente diante da televisão, dos jornais e das conversas banais, aos quais ele resignadamente se submete, embora criticamente, e a hostilidade velada que ele identifica na classe entediada, a ponto de imaginar um possível levante irado dos alunos, exigindo seus direitos de consumidores contra um professor ultrapassado e suas aulas irrelevantes e tediosas. Estamos a um passo da atual polêmica do youtuber que não quer Machado de Assis nas escolas brasileiras, e embora a ficção de Solstad possa iluminar o debate, sobretudo do ponto de vista do professor conservador, é bom deixar claro que em Pudor e Dignidade o buraco é bem mais embaixo, pois trata-se sobretudo da profunda dificuldade de compartilhar as nossas alegrias e tristezas mais íntimas com os outros – de compartilhar verdadeiramente, seja com os alunos, com os colegas, com a esposa, com o amigo ou com quem quer que seja. A solidão de Rukla confronta a máxima poética de Donne, nos fazendo pensar na possibilidade de um homem ser uma ilha – o que aproxima Dag Solstad de Michel Houellebecq, cujo romance de estreia é de 1994, o mesmo ano de Pudor e Dignidade – ao mesmo tempo em que demonstra a capacidade que tem a literatura de penetrar nos recintos mais recônditos do nosso ser, e de nos preencher com uma presença real e inescrutável.

Se a dificuldade de Rukla diante do guarda-chuva que não se abre é o retrato da sua incapacidade de mobilizar o interesse dos jovens alunos, também o seu naufrágio existencial ganha termo no seu fracasso em realizar-se como professor, prefigurado na vida pregressa passada em revista, em que percebe que nunca chegou a compreender seu melhor amigo e sua esposa, que continuam essencialmente como mistérios (independente disso, o maior problema da narrativa está na frágil caracterização da amizade, que carece de elementos mais vivos, bem como na inconsistência das personagens da esposa e da filha, que passam longos trechos ausentes, sendo resgatadas apenas quando conveniente). Parte da sua função profissional como professor de literatura, e também da sua condição existencial como leitor devotado, é justamente de desvendar ou, pelo menos, sondar os mistérios dos livros, esforçando-se por abrir passagem à compreensão dos alunos através do texto. O que os jovens não se mostram capazes de compreender – e não apenas os jovens, vide os colegas professores, e não apenas dentro do universo ficcional, vide a realidade à nossa volta – é que a dimensão do ato de ler e de refletir esteticamente, como Rukla faz espontaneamente diante do texto de Ibsen, transcende os limites do diletantismo, do academicismo e do didatismo, convertendo-se em um exercício visceralmente existencial, simultaneamente de cunho muito pessoal e de grande abrangência cultural, na medida em que integra um diálogo que atravessa gerações, inclusive as já extintas e as que estão por vir.

Não é pouco o que está em disputa na vida e no trabalho do professor Rukla, convergindo para a terrível indiferença da classe entediada. Mais do que o desenvolvimento de um julgamento crítico lúcido; mais do que a ênfase no próprio ato de aprender, já que a condição de aprendiz nunca se esgota ao longo da vida, e a apreciação estética requer que se aprenda continuamente a ler, a ver, a ouvir, a usar os sentidos (inclusive a ler com renovada atenção o que já foi lido tantas vezes); não bastasse isso, há a constatação (sintetizada por T.S. Eliot em O uso da poesia e o uso da crítica) de que o prazer de ler um mau poema pensando se tratar de um bom poema é muito diferente do prazer de ler um realmente bom (e aqui a ênfase está no prazer, independente de ser poema, prosa, filme, ou outra forma artística); há, ainda, o testemunho da alegria, como a que Rukla sente ao perceber num texto já conhecido um novo aspecto, o que dá um caráter de epifania à descoberta; e, da união desse prazer com essa alegria, há a compreensão do rosto que damos ao mundo, do modo com que habitamos a realidade como o nosso lar (vide Roger Scruton, sobretudo em A alma do mundo), nem sempre doce, nem sempre amargo, mas sempre clamando por sentido e defrontando-se com o nada. Como persuadir os jovens de que o tédio será redimido? Como despertá-los para o drama vivo que está ocorrendo diante dos seus olhos embotados, seja no texto de Ibsen, seja na vida do professor? Por outro lado, como conformar-se com o fato de que nada disso garante sucesso, felicidade, sabedoria, dignidade, nem sequer um rumo seguro?

Para onde quer que nos voltemos

Em dado momento, Rukla fantasia que a sua história poderia ser contada por Thomas Mann, ainda que ele pudesse ser um personagem secundário, pois o autor alemão faria uso da ironia sem a erigir como defesa contra a realidade, e saberia reconhecer que o destino de qualquer homem, por mais insignificante que seja, é um destino que revela a luta de uma alma. Penso que Gustav von Aschenbach, de Morte em Veneza, tenha algo a acrescentar, a seu modo recalcitrante e delirante:

Vês agora que nós, poetas, não podemos ser nem sábios nem dignos? Que fatalmente incorremos em erro, que fatalmente permanecemos devassos e aventureiros do sentimento? A maestria de nosso estilo é mentira e estupidez; nossa fama e respeitabilidade, uma farsa; a confiança depositada em nós pela multidão, altamente ridícula; a educação do povo e da juventude pela arte, um empreendimento temerário que deveria ser proibido. Pois, como pode servir de educador quem traz em si um pendor inato e incorrigível para o abismo? Bem que gostaríamos de renegá-lo e adquirir dignidade, mas para onde quer que nos voltemos, lá está ele a nos atrair. (trad. Eloísa Ferreira Araújo Silva)

Ainda que o professor Elias Rukla não seja propriamente poeta ou criador, sua vida está dedicada à compreensão desse ofício, como está, em maior ou menor grau, a vida de todo leitor devotado, repercutindo o mesmo chamado do abismo – o abismo que faz lembrar de uma das falas imortais do dr. Relling em O pato selvagem: “Se privar uma pessoa comum da sua mentira vital, você também a privará da felicidade”, cuja variação aparece no filme Fanny e Alexander, de Bergman: “Tire a ilusão de um homem e ele será um tolo morto de tédio”. (Por falar no cineasta sueco, há algo em Rukla do professor Borg, de Morangos Silvestres, na confrontação da lembrança das expectativas do passado com o aviltamento sorrateiro das reduzidas perspectivas da velhice). Difícil saber ao certo até que ponto Rukla está destruindo mentiras vitais, e até que ponto está sendo vitimado por elas. O fato é que, por fim, somos deixados ao seu lado na rua, desiludidos, desamparados, desnorteados – mas com uma estranha vitalidade renascida. E se nos perguntarem qual o caminho para casa, haveremos de responder com um significativo tremor na voz.

Lucas Petry Bender

Servidor público, nascido em 1985, vive em Porto Alegre. Escreve sobre cinema em personacinema.com.br e no estadodaarte.estadao.com.br.