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De Rushdie a Charlie

por Carlos Orsi (07/01/2015)

O massacre do "Charlie Hebdo" reforça a tese de que a religião é uma fonte autônoma de violência

atentato-paris

Religion is an insult to human dignity. With or without it you would
have good people doing good things and evil people doing evil things.
But for good people to do evil things, that takes religion.

Steven Weinberg, ganhador do Nobel de Física de 1979

I am the Lord thy God, King of the Universe,
the omniscient and omnipotent Creator of Space
and Time, and I can take a fucking joke.

@TheTweetOfGod

Se, como bem argumentam feministas de ambos os sexos, o que causa estupro não é a mulher, mas o estuprador, e a melhor forma de evitar estupros não é regular a vestimenta feminina, mas educar os homens para que não estuprem, por que diabos tem gente dizendo que o que causa terrorismo contra cartunistas são os cartuns, e que a melhor forma de evitar atentados é regular o humor?

No resto do mundo, intelectuais, inclusive os de esquerda, parecem estar reagindo ao ataque criminoso à redação da revista humorística francesa Charlie Hebdo com mais sensatez e firmeza — cerrando fileiras em torno do direito humano fundamental da liberdade de sátira — do que uma geração atrás, quando a sentença de morte emitida pelo Irã contra Salman Rushdie foi recebida com uma espécie de “bem-feito” coletivo, pois como esse autor ocidental-colonizador-opressor ousava troçar da cultura dos povos oprimidos do Oriente?

No Brasil, porém, parte significativa da intelectualidade ainda parece estar presa na década de 80. Professores de Humanidades desfilam na TV por assinatura dizendo, fundamentalmente, que os cartunistas franceses “estavam pedindo” para serem fuzilados, porque desrespeitaram “o outro”, enquanto que o geralmente lamentável Latuff não desaponta, produzindo um cartum onde a “verdadeira vítima” do atentado é uma mesquita.

Felizmente, neste mundo de redes sociais, podemos ver que há uma maioria de muçulmanos que se ressente desse tratamento condescendente dispensado pelos “ocidentais iluminados”, que, imbuídos de um bom-mocismo terceiromundista, parecem ver o mundo islâmico, esse tal de “outro”, como formado por idiotas indefesos, de um lado, e oligofrênicos armados prontos a explodir em violência, do outro.

O jornal britânico The Spectator produziu uma bela página com manifestações de muçulmanos lamentando as verdadeiras vítimas dos atentados: os humoristas franceses. Destaco a manifestação da jornalista e quadrinista Zainab Akhtar: “Como muçulmana, considero o assassinato de inocentes mais ofensivo do que qualquer cartum jamais poderia ser”.

Ao lado da tentativa de culpar a vítima ou minimizar sua tragédia, vem a de relativizar o papel da religião no ocorrido. O que me faz lembrar do trabalho do filósofo e especialista em Estudos da Religião Hector Avalos. Ele é autor de um livro, chamado Fighting Words, onde defende a tese de que a religião é uma fonte autônoma de violência — em outras palavras, ele contesta a ideia, sempre muito popular, de que a chamada “violência religiosa” constitui, na verdade, violência sobre alguma outra coisa; que a religião apenas mascara a verdadeira causa do conflito (imperialismo, colonialismo, ganância etc.); que a “verdadeira religião”, corretamente entendida, na verdade, mantém-se inocente de sangue.

Avalos argumenta que seres humanos travam conflitos violentos motivados por escassez: de água, de terras, de mercados, de mão-de-obra, de sexo, de ouro. Quase sempre, essas são formas de escassez dadas pela natureza. São condições materiais, físicas, em jogo.

Ele nota, em seguida, que as religiões criam formas imaginárias, ou metafísicas, de escassez. E essa escassez metafísica logo se reflete no mundo físico — pedaços indiferentes de deserto viram Solo Sagrado, retalhos de tecido convertem-se em relíquias — e, não demora muito, as pessoas estão lutando, não mais por fome ou ganância, mas por bens intangíveis (como a salvação) ou por bens materiais revestidos de glória intangível (o Santo Sepulcro, a Terra Santa).

O massacre do Charlie Hebdo parece ter vindo sob encomenda para reforçar a tese de Avalos. Não me parece possível construir uma motivação geopolítica para o assassinato em massa de cartunistas famosos por satirizar, exatamente, religião. Se a Honra do Profeta não é um bem escasso imaginário, não imagino o que mais seria.

Alguém já disse que, para cada verso da Bíblia pregando amor ao próximo, há pelo menos um promovendo ódio e intolerância. O mesmo vale para o Alcorão. O fato de a maioria dos seguidores de ambos os livros geralmente preferir fingir levar a parte sobre amor a sério e inventar desculpas para “contextualizar” as seguidas exortações ao genocídio é muito mais um mérito intrínseco da natureza humana do que dos sistemas construídos em torno dessas obras. No fim, a epígrafe de Weinberg continua mais válida que a do Todo-Poderoso.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.