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É singular que um texto de 180 anos de idade seja mais engraçado do que muitos arremedos de comédia atuais.

“A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, de Charles Dickens (Amarilys, 2017, 928 páginas)

No material de divulgação que acompanha A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby encontra-se uma informação cronológica relevante: há mais de 60 anos que o mercado brasileiro não tinha uma nova tradução dessa obra. Em comparação com outros livros do escritor inglês, tais como Grandes esperanças, As aventuras do Sr. Pickwick, David Copperfield e Oliver Twist, ou mesmo o onipresente Um conto de Natal, lembrança inevitável em cada final de ano, impossível não notar que Nicholas Nickleby ocupa uma posição periférica no interesse editorial do país, o que deixa a iniciativa da editora Amarilys ainda mais meritória. Entre os muitos motivos que podem ser alegados para tal fato, estão desde a extensão do livro (908 páginas de linhas simples) até a trama difusa e com muitos conflitos simultâneos, típica de uma obra literária que nasceu como folhetim publicado em jornal, seguindo os humores e veleidades do público à medida que ia sendo publicada.

Resumido de uma maneira muito reducionista, A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby conta a história de um ano na vida do rapaz cujo nome se encontra no título, sendo que começa com a morte do seu pai e a ida para Londres com o intuito de ganhar dinheiro para sustentar a sua família. No coração do Império Britânico, Nicholas conhecerá uma vasta gama de personagens (em torno de 56), todos com interesses próprios, deparando-se com a hipocrisia das relações sociais, com a selvageria que se esconde dentro dos ternos da civilização, com pequenos lapsos de bondade em meio aos pântanos da crueldade, e – podemos dizer que esse é o mote principal do romance – terá que se transformar em um adulto não por uma questão natural, mas para sobreviver. A obra mostra a fase em que o rapaz se transformou em um homem, e o quanto isso foi afetado pela sociedade que o cercava, deixando o seu coração ingênuo não insensível, mas mais resistente.

O próprio resumo não revela uma história de demasiadas complexidades, e é possível que alguns leitores tenham suspirado pensando que é um livro igual a outros já lidos, com a diferença de que A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby é grande, pesado e paquidérmico, um anacronismo para os tempos em que vivemos. Pensando por esse ângulo, poderíamos perguntar: em pleno século XXI, que se notabiliza por um mercado amante de textos rápidos e diretos, que existe toda uma disposição de agradar ao leitor ou leitora fazendo com que a sua atenção não se disperse com a multiplicidade de tramas ou de personagens, que um livro pode ser tachado de difícil simplesmente por usar um pouco mais de vocábulos do que a média, ainda existe espaço para apreciarmos Charles Dickens? Podemos ampliar a pergunta e incluir Leon Tolstói, Marcel Proust, Honoré de Balzac ou outros escritores de escrita mais vagarosa, com uma construção de trama mais intrincada e que abusavam de descrições e de diálogos – eles ainda são capazes de nos cativar, ou a nossa mente foi devorada por um mundo repleto de distrações em alta velocidade, que insistem em nos tirar de dentro do livro para outras tarefas consideradas mais “divertidas”?

A única maneira de saber é testando, e ler esse livro de Dickens, originalmente escrito em 1838 e recebido agora pelo público brasileiro quase como um original redescoberto no fundo de uma gaveta, foi uma experiência mais prazerosa do que imaginei. Em primeiro lugar, por que Charles Dickens é engraçado. Existe uma constante graça na forma com que ele se dirige ao leitor, em um misto de enfado e de espirituosidade, tanto que Woody Allen sempre afirmou que aprendeu a escrever diálogos com Dickens e com Dostoiévski. Isso é algo que se perde um pouco em uma leitura apressada ou em uma tradução malfeita (o que não é o caso deste trabalho de Mariluce Filizola Carneiro Pessoa). Ultrapassada a estranheza inicial de um texto cujas ideias se esticam um pouco além da planura de pensamentos a que a literatura contemporânea nos condenou, quando mergulhamos nos meandros da narrativa e na beleza das imagens evocadas por palavras, percebe-se uma vistosa ironia que subjaz ao narrado e que realiza com ele uma relação de espelhamento. O autor parece estar falando sério, toda a sua disposição é no sentido de uma narrativa circunspecta, mas a forma com que ele dispõe as palavras faz com que a ironia surja, invencível, e o leitor sorri sem saber o motivo. Não foram poucas as ocasiões em que me surpreendi rindo, seja pelo grotesco da situação contida em breves traços, seja por uma reflexão ferina colocada em meio a uma descrição que se pretendia isenta, e é singular que um texto de 180 anos de idade seja mais engraçado do que muitos arremedos de comédia atuais. Isso só demonstra que, para fazer humor, o mais importante é ter cultura geral, algo que faz falta em tempos de imediatismo e de memes preguiçosos.

Em segundo lugar, Charles Dickens é um escritor que se posiciona em relação ao que imagina estar errado na sociedade, e não estou dizendo que A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby é panfletário. Existe uma confusão frequente nos tempos atuais, em que mesmo metáforas ou outras figuras de linguagem são interpretadas de maneira rasa, no sentido de que todo escritor precisa colocar uma reflexão pessoal na sua obra, ou seja, deve exibir uma posição de forma clara. A riqueza da literatura é justamente a sua capacidade de permitir ao leitor escolher ou ponderar sobre condutas e/ou pensamentos dos personagens, ao invés de ler um texto em que o autor tenta “doutriná-lo” de forma grosseira. Dickens executa essa tarefa de forma magistral: mesmo abusando da ironia, ele não mostra os personagens de forma binária (herói e vilão, mocinho e mocinha), mas como um prisma repleto de nuances. Não só se entende a situação da maneira mais ampla possível como inclusive podemos formar um convencimento a respeito dos motivos de cada personagem. Quando o tio de Nicholas aceita o sobrinho como funcionário da sua empresa que “providenciava empréstimos para pessoas necessitadas” – as descrições de Dickens nos permitem ver Ralph Nickleby como um homem que se aproveitava das fraquezas financeiras alheias para auferir lucros por meio de juros abusivos, sem com isso estar agindo contra a lei, apesar de todo seu comportamento ser típico de um agiota –, podemos entender o motivo pelo qual o tio, sentindo culpa por ter se afastado do irmão, recebe o familiar na sua empresa. No entanto, podemos igualmente entender como, tão logo esse fato acontece, Ralph Nickleby tem medo do sobrinho tomar os seus clientes, passando a sabotá-lo com o intuito de lhe afastar e, assim, ficar com a consciência limpa de que “tentou ajudar”. Não existe nada de inesperado nesse fato, e nada mais humano do que fazer de conta que está ajudando alguém para aplacar a própria consciência culpada.

Em terceiro lugar, a leitura de A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby é revigorante pela atualidade dos assuntos tratados por Dickens. Imaginem um mundo em que os trabalhadores estão tendo a sua mão de obra substituída por máquinas, em que escolas viraram fábricas de arrecadar dinheiro despreocupadas com a educação transmitida aos alunos, em que políticos e empresários do mercado financeiro convencem o povo a financiar causas inúteis para se locupletar indevidamente, e fica difícil imaginar que isso acontecia na Inglaterra do século XIX e não no Brasil do século XXI. No prefácio, Dickens reforça a sua intenção de capturar um retrato da sociedade em que vivia, e disse que entrevistou diretores de escola, agiotas e outros profissionais para construir os personagens descritos no romance com a maior fidedignidade possível. Menciona o seu contentamento por ver vários diretores de escola irritados ao se imaginarem descritos como o Sr. Squeers, um dos personagens mais abjetos que criou, e revela que a sua intenção maior era forçar uma mudança do sistema educacional do país por meio de um livro que funcionasse também como constatação e denúncia. Nesse sentido, Dickens falhou: A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby vai além de um objetivo imediato, pois é uma obra literária que atravessou os anos mantendo frescor quase juvenil. Realmente serviu para mudar o sistema educacional da Inglaterra ainda durante o período de vida de Dickens, mas também pode ser aplicada para muitas situações atuais, desvendando os mecanismos que regem as relações humanas. Assim, a descrição que o escritor inglês fez do surgimento de um projeto de lei inócuo (a criação da “Companhia Panificadora Metropolitana Unida de Melhoria dos Pãezinhos e Muffins Quentes e de Entregas Pontuais”, que, como o próprio nome indica, parece ser uma brincadeira, mas é levada a sério) por políticos inescrupulosos que pensavam mais em seus ganhos é praticamente uma aula de como funciona o populismo.

Em todos os sentidos, a leitura de A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby demonstra que a força literária de Charles Dickens se mantém, mesmo depois de 180 anos do seu lançamento. Para os leitores dispostos a se aventurarem por uma obra muito bem escrita – e quase desconhecida no Brasil –, escrita por um expoente da literatura ocidental, existe a possibilidade de ler um texto que encanta pelo seu misto de fluidez e beleza. Para os leitores dispostos a conhecerem mais da natureza humana e a escaparem de reflexões superficiais, eis um livro sedutor pela forma com que concede um sopro de vida para personagens e que conduz a novos pensamentos. Quem está disposto a se divertir com um interlocutor inteligente e provocador como Charles Dickens, pode considerar esse livro como a oportunidade de experimentar aquilo que a literatura tem de melhor: a suspensão da realidade por alguns momentos e o mergulho em um universo repleto de elegância e perversidade, de medos e glórias, de risadas e lágrimas. A única certeza garantida ao leitor é que, ao final do livro, ele entenderá aquilo que Chesterton afirmou sobre Dickens: ele era um homem grande não por deixar os leitores pequenos, mas por transformá-los em pessoas maiores.

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.