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Opinião na blogosfera

por Amálgama (15/02/2009)

por Jota Alves * – Temos público para qualquer produto, qualquer tipo de show, de dança, de esporte, de partido político. Temos público para seguir e aplaudir fenômenos, heróis, gênios, demagogos, mentirosos oficiais, aloprados, sanguessugas, corruptores e corrompidos, mas não temos opinião pública, ou seja, aquele consenso em torno dos grandes problemas nacionais que fazia […]

por Jota Alves * – Temos público para qualquer produto, qualquer tipo de show, de dança, de esporte, de partido político. Temos público para seguir e aplaudir fenômenos, heróis, gênios, demagogos, mentirosos oficiais, aloprados, sanguessugas, corruptores e corrompidos, mas não temos opinião pública, ou seja, aquele consenso em torno dos grandes problemas nacionais que fazia os intelectuais “esclarecidos” se manifestarem, criticar, sugerir e protestar. Que fazia sindicatos e suas centrais (CUT, Força Sindical) e os estudantes e suas organizações, como a UNE (União Nacional dos Estudantes), saírem às ruas e enfrentarem o establishment.

Hoje, se quisermos opinião, ponto-de-vista, crítica fundamentada, temos que viajar pela internet em busca de blogs, que estão substituindo os editoriais e os chamados artigos de fundo dos grandes jornais, cada vez menos lidos. Uma pequena e ilustrada parcela da população acessa os blogs, que ainda não formam opinião pública. A totalidade das massas é educada pela TV, que substituiu a Escola, a Igreja e o Exército como formadores morais e de opinião pública. E a TV brasileira não forma, não ensina e nem tem opinião. Mesmo sendo concessão pública, a nossa TV é um lucrativo negócio familiar ou de políticos que se perpetuam no poder exatamente porque comandam e ditam a informação, criam a “opinião pública” nacional, regional e local. As retransmissoras estaduais dos canais nacionais pertencem a políticos, seus familiares e laranjas. A opinião deles é a opinião dos patrões: prefeitos, governadores, deputados que pagam comerciais, que patrocinam programas e shows “sociais” e estão sempre de mãos dadas com o patrão maior, o poderoso chefão, o governo federal e suas estatais cheias de verbas publicitárias e mais o BNDES para socorrer as TVs em “dificuldades” – muitas das quais sonegam impostos e surrupiam a previdência social.

As TVs e seus noticiários criticam no micro e apóiam no macro. Criticam e até desbancam empregados, mas não os patrões. Mostram-se independentes nos detalhes, mas se calam diante dos graves problemas nacionais. Raramente apontam culpados, como no caso da galopante destruição da floresta amazônica, que vai continuar, porque comandada ou acobertada por governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores, policiais e donos de retransmissoras de TV, jornais e rádios. É a ditadura da mídia oficializada.

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Quer saber alguma inside story? Quer ler e aprender o que acontece ao redor e fora do poderzão brasileiro? Use a internet. Acesse os milhares de blogs e sites e vá filtrando, filtrando, até encontrar os que noticiam com transparência, que dão a informação completa: começo, meio e fim, que são o contrapeso para os noticiários de TV. O uso da internet faz-se cada vez mais necessário à medida que as TVs brasileiras se internacionalizam, adquirem retransmissoras locais e lutam para conquistar esse suculento filé do consumo e da audiência que é o brasileiro “morrendo de saudade” e que ao mandar dólares para o Brasil contribui para debelar a “crise” financeira (da especulação e da bandidagem) que, segundo o presidente Lula, não passa de uma marola. Mas quem manda dinheiro engrossando o caldo de quase três bilhões de dólares anuais deve também observar, ler, se informar e se interessar pelos grandes e visíveis problemas brasileiros. Saudade só não basta.

A saudade da praia, do mar, do Flamengo, do Atlético, do Palmeiras, da comida caseira, das namoradas, dos parentes, dos amigos, as pressões da vida no exterior, levará o brasileiro a ver e se interessar cada vez mais por novelas, pelos eternos carnavais fora de época, os shows com fartura de bundas descendo em cima de garrafas, mulheres de ancas largas batizadas com nomes de frutas: melancia, melão, morango, abacate. Amenidades, superficialidades, crimes hediondos, violência, sangue, cosméticos, cirurgias plásticas, fofocas, milagres, casais lavando suas roupas sujas para audiências hipnotizadas e crentes, psicólogos, psiquiatras, “formadores de opinião”, exorcistas, é o que mais temos na TV brasileira e é isso que ela mostra para o brasileiro saudoso e distante. Ruim aqui, ruim aí. Opinião aqui? Opinião aí?

Os pouquíssimos programas de talk show em horários noturnos que se arriscam a levantar problemas nacionais não devem chegar a meio por cento da audiência geral. Quando Alexandre Garcia faz suas criticas e comentários contundentes no Bom Dia Brasil, por exemplo, a sua audiência é aquela de privilegiados que ainda estão em casa tomando o café da manhã. A grande massa já está nas fábricas, nas escolas, nos campos, nas estradas. Quando Arnaldo Jabor manda brasa no noticiário noturno da TV Globo, a massa juvenil brasileira (que deveria se interessar por assuntos relevantes ao país) está saindo das escolas noturnas, ainda está trabalhando em seus “bicos”, está nos milhões de bares e barzinhos tomando choppinho, cervejinha, está nas discotecas, boates e bailes funk, ou nas igrejas.

Público nós temos pra dar, vender e consumir. Não temos mais é opinião pública, e o que mais precisamos é de formadores de caráter e não de opinião, pois esta sumiu, escondeu-se, está com os rabos entre as pernas. O país está, literalmente, nas mãos da malandragem política, dos donos de castelos. Os movimentos “sociais” calaram-se ou foram calados por benesses, empregos, vantagens, delírios e saudosismo ideológico. As elites criticadas ontem ditam regras, mandam no Congresso, dominam as finanças e os negócios, estão no poder e o controlam. Um exemplo da confusão ideológica e moral que se abateu sobre o Brasil: índios, jovens, intelectuais, lideranças sindicais, ambientalistas, cientistas, se reuniram no nono Fórum Social Mundial em Belém, “onde os oprimidos têm vez”, com agenda de preservação da Amazônia e contra o modelo neoliberal. Mesmo rejeitado por alguns setores, Lula se fez presente com doze ministros e uns duzentos funcionários públicos que fizeram arrastão nas tendas temáticas. Os astros do Fórum: Hugo Chávez comemorando dez anos de poder na Venezuela; Evo Morales da Bolívia, Lugo do Paraguai e Correa do Equador.

Queimaram a bandeira dos Estados Unidos, pois não interessa a historia de vida do presidente Barak Obama e o que sua eleição representa. “Um novo mundo é possível”, para isso é preciso derrotar o capitalismo. A solução é o socialismo tropical. Falaram do geral, do global, de sonhos desfeitos, buscam o tempo e as idéias perdidas, se esqueceram ou, propositadamente, não protestaram e nem tiraram uma resolução condenando o governo petista do Pará, estado líder em assassinatos de ambientalistas, sindicalistas, onde reina a impunidade em todos os setores da sociedade. A destruição da floresta continua acelerada; a prostituição infanto-juvenil é alarmante; um irmão da governadora é acusado de abuso sexual com crianças (deu na Record News); na mesma linha, deputados, empresários, gente graúda; desmatamento e contrabando são praticados na cara de todo mundo. Falaram em socialismo, mas não condenaram o banditismo político que manda no Pará. E o modelo econômico vigente hoje no Brasil? É ou não é neoliberalismo com jeitinho brasileiro? É ou não é malandragem político-ideológica ficar babando discurso contra os Estados Unidos, pregar o fim do capitalismo enquanto mantemos o nosso capitalismo selvagem, corrupto e destruidor de nossos imensos recursos naturais?

Os que pregam o fim do neoliberalismo e novas práticas políticas estão no poder, como é o caso de Lula, e por que se juntaram a seus “inimigos” de ontem, as sempre criticadas elites? E por que não fizeram nenhuma mudança estrutural, essencial e moral no poder e na política brasileira? Pesque na internet blogs brasileiros e estrangeiros que opinam. Ainda há gente lúcida não contaminada pela malandragem política, ainda temos quem vê e enxerga o que está acontecendo no Brasil.

 
* Jota Alves criou o Dia do Brasil em Nova York, que teve edições em setembro de 2008 em Xangai e em Moscou. Foi Secretário de Governo em Mato Grosso. Este artigo será posteriormente publicado no Brazilian Gazeta News da Florida e no The Brasilians de Nova York.

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