PESQUISA

“Uma Breve História do Mundo”

por Carlos Orsi (15/02/2011)

A publicação deste bom livro de Wells é importante, mas a edição poderia ter sido melhor

-- "Uma breve história do mundo", de H. G Wells --

por Carlos Orsi

Confesso que tive uma reação ambígua à leitura de Uma Breve História do Mundo, de H. G. Wells, em edição da L&PM Pocket. Se por um lado Wells é um de meus autores favoritos e sua prosa, nesse trabalho de divulgação científica, não deixa de mostrar o brilho que é tão evidente em obras de ficção como A Guerra dos Mundos ou O Homem Invisível, o anacronismo de certas passagens da Breve História chega a ser, por vezes, doloroso.

Wells especula que a Terra tem 2 bilhões de anos — hoje, sabemos que tem 4,5 bilhões; pressupõe que Terra e Lua surgiram juntas — hoje, as melhores evidências disponíveis mostram que a Lua surgiu milhões de anos após a Terra ter começado a ganhar forma; Wells diz que os astrônomos supõem que as nebulosas espirais avistadas por meio de telescópios são sistemas solares em formação — hoje, sabemos que são outras galáxias, contendo centenas de bilhões de estrelas.

É óbvio que não se pode culpar o autor por nada disso. Foi apenas em 1924, dois anos após a publicação original do livro, que Edwin Hubble apresentou a prova definitiva de que as “nebulosas espirais” eram aglomerados de estrelas incrivelmente distantes de nós.

Se não se pode exigir de Wells um conhecimento de astronomia, astrofísica, antropologia, história e geologia que não existia quando o livro foi escrito, fica difícil isentar a L&PM de responsabilidade no caso: a edição moderna efetivamente implora por notas explicativas ou, no mínimo, por um prefácio ou posfácio que ponha o corpo principal da obra em contexto e, assim, evite deseducar o leitor que chegue desarmado à saborosa prosa wellsiana que, quase um século depois, ainda é capaz de usar as palavras para pintar quadros de tirar o fôlego.

As dificuldades reaparecem no capítulo sobre a origem da vida, onde o leitor é informado de que não existem registros fósseis de seres vivos na Terra anteriores a 800.000 anos. Hoje em dia, dispomos de vestígios fósseis de colônias de bactérias de 3,4 bilhões de anos, os chamados estromatólitos.

Escrito décadas antes da descoberta do DNA, o livro – numa apresentação rápida, mas competente, do princípio da evolução por seleção natural – também diz ao leitor incauto que os cientistas ignoram por que os filhos se parecem com os pais. E o pobre leitor que investir os cobres necessários para comprar o livro da L&PM também ficará sem saber que o Homem de Piltdown, que em 1922 era tratado pela ciência (e apresentado por Wells) como um importante e intrigante fóssil hominídeo, foi denunciado como uma escandalosa fraude em 1953.

Ao discutir os mais antigos vestígios humanos descobertos na Europa, Wells endossa a distinção racista entre o “Homem de Cro-magnon” – branco e superior – e o “Homem de Grimaldi” – negro e inferior. Hoje em dia, tanto o Cro-magnon quanto o Grimaldi são classificados como “Humanos Europeus Anatomicamente Modernos”, sem nenhuma distinção hierárquica – se alguma das variedades leva “vantagem”, é o Grimaldi de pele escura, que possivelmente foi o primeiro ser humano moderno a chegar à Europa.

A arqueologia e a história que Wells tinha à sua disposição em 1922 já ofereciam um retrato razoavelmente adequado da ascensão das civilizações da Mesopotâmia, da Ilha de Creta e do Nilo, mas a antropologia racista da época vendeu ao autor – que dedica quase dois capítulos inteiros do livro ao tema – a ideia de “raça ariana”.

Entre o fim do século 19 e o início do 20, alguns estudiosos passaram a sugerir que o parentesco existente entre diversas línguas da Ásia Central, do subcontinente indiano e da Europa – sânscrito, latim (e seus derivados, como o francês e o português), persa, grego, inglês, alemão e russo, entre outros idiomas têm, todos, raízes comuns – era indicador de que, na aurora da história, um povo louro e de olhos azuis, a “raça ariana”, havia conquistado a maioria dos demais povos desses territórios e imposto sua língua a eles.

Hoje em dia, sabemos que a história da penetração da língua indo-europeia (o termo “ariano” acumulou uma carga ideológica pesada demais para que continuasse a ser usado) no Velho Mundo é muito mais nuançada, com várias teorias em competição. Mais importante, a ideia de que os povos proto-indo-europeus, responsáveis pela disseminação, tivessem mantido uma identidade étnica, tribal e ideológica comum, ao longo de todo o processo, não é mais levada a sério.

Não obstante, no tempo de Wells a história da humanidade era muitas vezes vista como a história do conflito entre o “modo de vida” ariano e o das outras “raças”. E todo mundo sabe o que Hitler fez a partir daí. (Em que pese a dependência de Wells em relação à antropologia racista da época, é apenas justo destacar que, nos capítulos finais do livro, ele profere duros ataques à arrogância colonialista européia.)

E aqui surge outro problema de como o livro foi editado: informação essencialmente correta sobre a aurora da civilização no Oriente Médio e no Mediterrâneo é usada para introduzir teorias desacreditadas de invasões bárbaras e superioridade racial sem que, em nenhum momento, o leitor seja advertido das fronteiras entre a ciência válida e a especulação desacreditada.

Os efeitos deletérios desse problema se reduzem a partir do momento em que a narrativa chega ao Império Romano. A partir daí, os trechos que se pretendem de narrativa histórica objetiva tornam-se cada vez mais curtos, e Wells passa a expor suas opiniões – sobre as causas da queda de Roma, sobre o papel do cristianismo na história mundial, etc. Essa virada opinativa descola o livro dos erros factuais a que o autor estava preso, em virtude das limitações da ciência de sua época: agora o que Wells oferece são crenças, ideias, argumentos com que o leitor pode ou não concordar, mas que não são mais apresentados como pontos pacíficos do conhecimento humano.

O talento do escritor ganha cada vez mais evidência à medida que a narrativa se aproxima do presente, embora prejudicado, aqui e ali, por alguns escorregões da tradução – por exemplo, num dado momento a expressão “temporal prince” (isto é, um príncipe temporal, dedicado aos assuntos terrenos, administrativos, e não religiosos ou espirituais) transforma-se, diante dos olhos estupefatos do pobre leitor, em “príncipe temporário”.

Os esboços biográficos que Wells traça dos imperadores do Sacro Império Romano-Germânico e do rei-sol da França, Luis XIV, são finas combinações de informação histórica, olhar arguto e doce ironia.

A história do Brasil é resumida, pelo criador da Máquina do Tempo, em um parágrafo:

O Brasil seguiu uma linha um tanto diferente no rumo da separação inevitável. Em 1807, os exércitos franceses de Napoleão haviam ocupado Portugal, e a monarquia fugira para o Brasil. Daí em diante, até o momento da separação, Portugal dependeu mais do Brasil que o Brasil de Portugal. Em 1822, o Brasil se declarou império independente sob o comando de Pedro I, filho do rei português. Mas o novo mundo nunca foi muito favorável à monarquia. Em 1889, o imperador do Brasil foi embarcado sem alarde para a Europa, e os Estado Unidos do Brasil se alinharam com o resto da América republicana.

Imagino se “sem alarde” não ficaria melhor na nossa bandeira do que “ordem e progresso”, mas estou divagando.

Escritor de ficção científica, Wells dá especial atenção ao desenvolvimento tecnológico – seja a domesticação do cavalo, a disseminação do papel, o surgimento da máquina a vapor e do motor a gasolina. Refere-se às pessoas que consideravam que um grande transatlântico a vapor não passava de um veleiro gigante como “intelectualmente limitadas”, e elogia os alemães do século XIX por fazerem de químicos e físicos professores universitários, enquanto França e Inglaterra insistiam em tratar as universidades como lugares para “aprender grego e latim”.

A história mundial de Wells termina em 1921, com a morte de milhões de russos, vítimas da fome causada pelo que o autor chama de “fé perfeita e inexperiência absoluta” do governo comunista instalado em 1917. Em seu capítulo final, uma breve dissertação sobre a cena européia após a Grande Guerra de 1914-1918, Wells profetiza:

Ela (a guerra) certamente regressará, em vinte ou trinta anos, numa escala ainda mais desastrosa, se não houver uma unificação política que a previna. Estados organizados para a guerra farão guerras tão certo como as galinhas botarão ovos.

O escritor, que morreu em 1946, ainda viveria para assistir ao cumprimento de sua profecia, sob a forma da II Guerra Mundial, de 1939-1945. Misturano severidade e esperança, é assim que ele fecha seu livro de 1922: “O que o homem já fez, os pequenos triunfos de sua condição atual, toda essa história que contamos, tudo é apenas o prelúdio das coisas que o homem precisa fazer”.

::: Uma Breve História do Mundo ::: H. G. Weels (trad. Rodrigo Breunig) ::: L&PM, 2010, 384 páginas :::
::: Compre na Livraria Cultura :::

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.