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Trump, Sanders e o fim da Democracia na América

por Caio Vioto (11/02/2016)

O sucesso de um autoritário xenófobo e de um socialista declarado reflete uma sociedade que relaxou na defesa da liberdade.

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Em 1835, Alexis de Tocqueville escreveu Da Democracia na América, uma das obras mais importantes da História e da Ciência política e também uma das principais referências do pensamento liberal e conservador.

Na obra, Tocqueville faz uma análise de como a democracia, considerada por ele um processo inevitável e irreversível, foi construída nos EUA. Para o autor, a democracia seria um processo de igualização, ou seja, do fim dos privilégios do Antigo Regime, que conduziria a sociedade, cada vez mais, à igualdade perante a lei. No entanto, ressaltava que a democracia poderia ocorrer ou não com liberdade e que os EUA, principalmente em comparação com a França revolucionária, eram o maior exemplo disso. Entre as características da democracia americana estavam a Constituição, que resguardava as liberdades individuais, a descentralização de poder, a existência de associações voluntárias e de leis garantidoras da liberdade. Porém, o que dava origem e mantinha todos estes princípios eram os hábitos e costumes dos indivíduos, sua ação política cotidiana em defesa da liberdade, que evitava a tirania e a massificação, “efeitos colaterais” do processo de igualização inerente à democracia.

Ao longo de século XX, porém, esta situação começou a mudar paulatinamente nos EUA. O país passou a se envolver cada vez mais em guerras, a intervir mais na economia e o Estado passou a ser mais centralizado. O historiador Robert Higgs, no livro Crisis and Leviathan: Critical episodes in the growth of American government, coloca que este processo ocorreu numa espécie de “efeito catraca”, ou seja, as intervenções e o crescimento do Estado, nas diversas esferas (militar, política, econômica, jurídica, social, etc.) nos momentos de crise foram se acumulando de modo que, mesmo passadas as fases de maior instabilidade, o Estado nunca voltava ao tamanho e ao escopo de atuação que tinha anteriormente. Além disso, este processo condicionou a população a aceitar a maior presença do Estado, muitas vezes justificada pela ideia de “segurança nacional” ou pela existência de um “inimigo externo” a ser combatido.

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Dessa forma, a política dos EUA, antes uma democracia garantidora e respeitadora das liberdades individuais e com um Estado limitado, passou a ficar dividida entre nacionalistas, muitas vezes com viés reacionário e autoritário, e social-democratas, intervencionistas na economia e “construtivistas” em relação às ideias ditas progressistas, com cada vez menos espaço para políticos genuinamente liberais ou conservadores. Assim, uma sociedade antes marcada pela autonomia e pelas relações privadas entre os indivíduos se tornou cada vez mais dependente do Estado e das decisões políticas de gabinete.

Atualmente, este cenário parece ter chegado ao seu “auge”, com a possibilidade de uma eleição presidencial entre Donald Trump, um candidato com perfil xenófobo, belicoso, intervencionista e autoritário, e Bernie Sanders, declaradamente socialista. Ainda que outros candidatos, e mesmo presidentes, se aproximassem destas mesmas características, nenhum as encarnava de maneira tão radical. Entre os republicanos, nenhum outro candidato, e nem mesmo o último presidente do partido, George W. Bush, se posicionava de maneira tão caricatural quanto Trump. Por seu lado, ainda que intervencionistas na economia e “progressistas”, nenhum democrata se colocava como genuinamente socialista.

Ainda que não sejam candidatos, a possibilidade real de uma disputa presidencial entre Trump e Sanders tem um grande peso simbólico em relação ao que a “democracia na América” se tornou, ou melhor, em relação ao que deixou de ser.

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publicado na revista A Agorista.

Caio Vioto

Mestre e Doutorando em História pela UNESP.