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O chilique da semana na lacrosfera

por Lucas Baqueiro (10/02/2019)

Donata Meirelles pacientemente explicou que não se tratava de uma festa temática.

Donata Meirelles, editora da Vogue Brasil, é a mais nova vítima de linchamentos da esquerda lacradora pequeno-burguesa. Ao celebrar seu cinquentenário no imponente Palácio da Aclamação, em Salvador, resolveu fazer uso da cultura baiana como temática da festa, que contou com um pequeno show de Caetano Veloso para convidados. Foi o suficiente para que fosse aclamada como a mais nova racista da estação.

O que mais chamou a atenção foi a ostensiva presença de baianas — quituteiras tradicionais, típicas da Bahia, vestidas em indumentária própria da profissão. Ora sentadas em cadeirões longos de espaldar, ora ladeando os convidados, davam um toque um tanto cafona, mas não racista, à festa.

Quem já foi à Bahia alguma vez bem sabe quem é e o que exatamente faz a baiana.

Todavia, não há limites para a ignorância da lacrosfera. Obter um mínimo de informação sobre o assunto — o que bem poderia ter sido feito no Google, para não precisar recorrer à pesquisa antropológica e histórica mais refinada — é impensável diante da ululante oportunidade de lacrar. O primeiro tiro de festim foi disparado pela rapper Preta Rara, pseudônimo de Joyce Fernandes, que publicou o seguinte texto, que viralizou na internet:

Uma diretora de uma famosa revista fez 50 anos ontem 08/02 e comemorou com seus amigos num hotel luxuoso na Bahia com vários artistas famosos,até aqui tudo bem! A decoração da sua festa foi Brasil Colônia Escravocrata, com direito a mulheres pretas vestidas de mucama ambientando a festa e recebendo os convidados, como vimos na foto até o trono da sinhá tinha. (…) A branquitude ama vivenciar o ranço da escravidão, pq a final de contas eles gostariam que não tivesse acabado mas, será que acabou? Vivemos na tal escravidão moderna, onde nossas dores viram fantasias, decoração de festas pra beneficiar o mal gosto das sinhás e sinhóres. (sic).

Apesar da alfabetização primorosa da inclícita rapper, que bem pode dificultar a compreensão do que está transcrito integralmente da forma como publicou, podemos depreender que dela partiu a redefinição da baiana em veste típica de festa como mucama. Não tardou para que a revista Fórum, publicação comumente inigualável em honestidade e fidedignidade, publicasse reportagem acusando Donata Meirelles de racismo e fazendo uma compilação das melhores lacradas sobre o tema.

Stephanie Ribeiro — aquela que é meu compasso sobre o certo e errado: se ela diz que algo está errado, invariavelmente está certo — também passou horas a fio do sábado se manifestando sobre o tema. Dentre outras coisas, revoltou-se com o suposto uso do candomblé como decoração; com o suposto uso de pessoas negras como objetos; e, claro, com a suposta naturalização do racismo que teria representado a festa como um todo.

Assaz interessante, também, foram as ilações feitas por Djamila Ribeiro, filósofa e papisa do feminismo negro brasileiro. De acordo com Djamila, “se a gente chega num lugar desse, onde meus antepassados foram torturados, e as pessoas insistem em romantizar isso como se fosse algo banal e a gente não fala nada, a gente está compactuando, não tem desculpas”. Foi um comentário, aliás, parecido com o da historiadora Lilia Schwarcz, que também fez referência ao local da festa, que supostamente teria sido um ambiente colonial do Brasil escravocrata. Incompreensível, todavia, como o Palácio da Aclamação, construção edificada no ano de 1916, 28 anos depois da abolição da escravatura, poderia se qualificar como ambiente de torturas e de um passado escravocrata. Tampouco é inteligível como duas pessoas superqualificadas academicamente podem, a tiro livre, cravar tais sugestões sem fazer ao menos uma pesquisa básica na Wikipédia.

A representação literal da festa como uma espécie de celebração da nata da Ku Klux Klan brasileira talvez fosse suficiente para desconfiar. A opinião de Stephanies e sorores imitadoras, sempre desinteressadas em fama e ganhos financeiros, servir-nos-ia como balizador da certeza de que as coisas não seriam bem assim. Contudo, há gente sempre muito bem intencionada que ainda cai no conto da lacrosfera, sempre no mais legítimo interesse intrínseco de rever privilégios e iniquidades. Ainda mais, não é dado a todos o privilégio de conhecer qualquer coisa sobre a rica cultura baiana e suas peculiaridades.

Chamar de mucamas àquelas senhoras, crendo que aquelas roupas se tratavam de trajes coloniais e reencenação de baile em uma casa grande, é algo que queda no limiar entre a ignorância e o racismo. A indumentária não era performática, ao contrário do que o engano pretende fazer crer. Qualquer pessoa nascida, radicada ou que, a qualquer tempo, viveu na Bahia, saberá identificá-las, dizendo: “é uma baiana!”. Para quem não sabe o que é uma baiana, para além do gentílico reservado às filhas da terra do sexo feminino, é importante conhecer essa digna profissão, para que não mais faça ilações racistas ou perore contra a celebração do colonial em vão. As baianas, patrimônio imaterial e cultural da Bahia são quituteiras tradicionais. Vestem-se diariamente — e podem ser vistas em qualquer praça pública do Salvador, nos bairros mais ricos ou periféricos — com longas saias bordadas de renda, anáguas, coloridos panos-da-costa, turbantes, e pesadas joias de crioula e balangandãs coloridos. Carmen Miranda, aliás, foi imortalizada no cinema americano utilizando justamente a indumentária da baiana. Assim trajadas, vendem em seus tabuleiros iguarias de sua sofisticada culinária, como o acarajé, o abará, o bolinho de estudante, a passarinha (baço de boi) e guloseimas. Nos pontos turísticos, como restaurantes regionais, o aeroporto, ou o próprio Pelourinho, recepcionam turistas sorridentemente, posando para fotos e distribuindo fitinhas do Senhor do Bonfim — que dão sorte e ajudam a conseguir objetivos, como dizem as lendas do lugar. Estão nesses locais, aliás, contratadas e regiamente pagas pela secretaria de turismo do estado e do município.

Em quaisquer eventos que contem com a presença do Prefeito do Salvador ou do Governador da Bahia, lá estarão as baianas ladeando-os, como orgulhosos símbolos do estado. (E, curiosamente, a tal festa apodada injustamente de racista contava com a presença de ambos, prefeito e governador). Em cada celebração religiosa, ainda que católica, ou em cada evento de relevo, far-se-ão também presentes aquelas majestosas figuras, a quem todo baiano da gema presta reverência. As mais famosas baianas, como Dadá, Cira, ou a falecida Dinha do Acarajé, eram elas mesmas anfitriãs de eventos para a alta sociedade. Muito por isso, contou a festa da diretora da Vogue Brasil — que foi um tanto quanto cafona, artificial em sua baianidade, assim digamos — com a presença de baianas como recepcionistas.

As baianas, historicamente, não poderiam sequer se encaixar em qualquer celebração ao escravismo colonial. Fazê-lo é mostra de desconhecimento da história e da antropologia. A profissão, existente e reconhecida desde o século XVIII na cidade do Salvador, sempre foi exercida por pessoas nascidas livres ou libertas. (Aliás, a indumentária ricamente adornada e diferenciada, com pesadas joias de crioula — estilo de joalheria muito pesado, com colares e adornos muito pesados, de ouro maciço — servia justamente para diferenciá-las). Como fartamente documenta Maria Graham, precursora da antropologia do Brasil, em Diário de uma viagem ao Brasil, de 1824, eram via de regra proprietárias de escravos de ganho, que consigo repartiam o lucro (e compravam, posteriormente, sua alforria) e exerciam uma das posições de maior destaque permitidas às mulheres negras daquele tempo.

No mais, a Bahia não se envergonha, mas se orgulha de seu passado colonial. A sua culinária única e as suas tradições são de incomensurável riqueza, e preservamos com grande alegria. As baianas fazem parte do nosso ethos. Vestir-se de branco nas sextas-feiras, em honra da paixão do Senhor Jesus Cristo ou em homenagem ao pai Oxalá; comer moqueca, vatapá, caruru, arroz-branco e banana frita no dendê; e sempre cercar-se dos símbolos da terra, são coisas muito caras à baianidade. Invertendo o pólo, rendo-me à liberdade de admoestar às protagonistas de um lugar de fala para dizer: não ousem se apropriar de nossa cultura.

Constrangida pela militância e pela possibilidade de perder dinheiro, Donata Meirelles pacientemente explicou que não se tratava de uma festa temática. “Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa”. Mesmo tendo explicado o óbvio ululante a qualquer pessoa que soubesse usar uma ferramenta de pesquisa — como deveria ser aos formadores de opinião, escusados estando aqueles que tomaram como verdade o proclamado por Stephanies, Joyces, e peças similares da militância facebookiana — rendeu-se e pediu desculpas. É uma pena. As desculpas deveriam ser pedidas por quem tenta conspurcar a riqueza da cultura afro-baiana, pilar da brasilidade.

Curioso é que num país onde as oportunidades de trabalho são escassas para todos — e, ainda mais, para as mulheres negras — a lacrosfera tente inviabilizar uma grande oportunidade de trabalho honesto e muito bem-remunerado. Baiana de acarajé, a quem grosseiramente tomam por mucamas as poderosas guardiãs do lugar de fala, é profissão de enorme relevância social e de imensa auto-estima. Antes de o ativismo militante ser colonizado pelo movimento negro norte-americano e beber na fonte de Angela Davis, ganhando especial notoriedade no Brasil através da academia, já ostentavam as baianas orgulhosos seu traje em praça pública. Jamais foram motivo de chacota, mas sim de admiração e tratamento senhorial. Tirem as mãos dos nossos turbantes!

É claro que à pequena-burguesia que se traveste de militância, é mais fácil fazer uso de um lugar de fala para reclamar de uma festa cafona, do que voltar os olhos para a realidade. Enquanto protestam contra uma festa com temática baiana (que é o que era, e nada mais!), fecham os olhos para os treze jovens negros executados depois de rendidos pela Polícia Militar no morro do Fallet, no Rio de Janeiro. É que lacrar contra ricaços rende mais likes àqueles que nunca puseram os pés numa periferia, na realidade, do que falar sobre os abusos cotidianos que passam indivíduos que os blogueirinhos de ex-querda dizem representar.

Post-scriptum: Angelimar Trindade Santos Souza, uma das baianas de receptivo presentes na festa, comentou a repercussão, desmentindo toda a mistificação construída acerca de uma comemoração racista ao Brasil colonial. Disse com todas as letras que “tudo que está sendo falado sobre o tema de festa, sobre o que aconteceu, não é verdade”. A respeito da roupa utilizada, revelou que o figurino foi escolhido pelas próprias baianas de receptivo. Quanto às cadeiras, explicou que faziam parte da mobília do Palácio da Aclamação — local de realização da festa — e foram colocadas justamente para que as baianas descansassem, revezando-se no receptivo. Ainda, quanto à polêmica foto, as baianas convidaram Donata Meirelles a sentar-se e posar, tudo de livre e espontânea vontade, como uma homenagem aos seus 50 anos. No mais, aproveitou o ensejo para desmentir o exagero reverberado de que as baianas estariam abanando os convidados, explicitando que não tinham nada nas mãos, nem mesmo o celular.

A baiana qualificou todo o escândalo e lacre como uma maldade. Em se tratando de uma acusação de racismo, nos resta concordar integralmente, posto que a palavra da pessoa negra que teria sido atingida deve vir sempre em primeiro lugar.

Lucas Baqueiro

Acadêmico do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal da Bahia. Licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul.