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A ilha das almas perdidas

por Carlos Orsi (12/03/2012)

O alvo de Wells não é a civilização, ou estritamente a religião. Nem mesmo a ciência ou os cientistas. É Deus

"A ilha do dr. Moreau", de H. G. Wells

A Ilha do Dr. Moreau, romance de H.G. Wells (1866-1946) que ganha nova tradução brasileira assinada pelo escritor Bráulio Tavares, é a segunda obra de ficção científica do autor, publicada no mesmo ano em que Wells completava 30 anos, em 1896. Sua antecessora no gênero da especulação científica, dentro da obra wellsiana, foi A Máquina do Tempo.

Imagino que as linhas gerais do enredo da obra já sejam de conhecimento quase universal, dado não só o grande número de adaptações que o romance já sofreu para outras mídias — que vão desde o clássico filme A Ilha das Almas Perdidas, com Charles Laughton e Bela Lugosi, na década de 30, à constrangedora “saideira” cinematográfica de Marlon Brando, de 1996 (que provavelmente ajudou a enterrar de vez a carreira de Val Kilmer) –, como às apropriações de personagens e temas em obras tão díspares quanto a HQ da Liga Extraordinária, de Allan Moore, e o romance A Mão Que Cria, do brasileiro Octavio Aragão.

Em resumo, A Ilha do Dr. Moreau é uma história de terror e aventura, na qual um jovem náufrago se vê lançado numa ilha habitada por criaturas monstruosas, animais que o Dr. Moreau do título tenta, por meios científicos, elevar à forma humana sem, no entanto, jamais produzir nada além de trágicas (quando não letais) caricaturas. Trata-se de um livro que, em vários aspectos, mostra-se muito superior, por exemplo, ao Drácula de Bram Stoker, publicado um ano mais tarde. Mas há uma questão que dá ao livro uma vida que transcende seus inegáveis méritos literários de fabulação e narrativa: é um livro de terror e de aventura, mas do que mais?

Na introdução que escreveu para a nova edição do livro, Tavares oferece algumas chaves interpretativas: por exemplo, A Ilha do Dr. Moreau pode ser lido como uma crítica ao projeto colonialista europeu (com o plano de “elevar” os animais à condição humana visto como uma paródia cruel da “missão civilizatória” do homem branco). Também é possível ver o livro como uma crítica à religião: Moreau submete os animais “evoluídos” a um processo de hipnose e lavagem cerebral que os inculca com “A Lei”, uma série de normas de conduta que é recitada de modo obsessivo, reverenciada em rituais primitivos e que conta até mesmo com um sumo-sacerdote, o Mestre da Lei. No fim do livro, o narrador compara o “alto pensar”, uma forma pretensiosa de enunciar nonsense desenvolvida por um macaco manipulado por Moreau, à cantilena das igrejas.

No cinema, Moreau é consistentemente apresentado como um cientista arrogante, um homem que, assim como o Dr. Frankenstein dos filmes da Universal, quer saber “como é ser Deus”. A história, então, também pode ser lida como um ataque às pretensões arrogantes da ciência.

- O autor em Londres, na década de publicação da "Ilha..." -

Mas a melhor chave talvez seja a do próprio Wells. Em um ensaio, H.G. Wells, Critic of Progress, do também escritor de ficção científica Jack Williamson, o autor é citado referindo-se ao livro como um “exercício de blasfêmia juvenil”. O alvo não é a civilização. Não é a religião, ao menos não enquanto instituição ou filosofia. Nem mesmo a ciência ou os cientistas. É Deus.

O procedimento de Moreau para com suas criaturas pode ser resumido da seguinte forma: assim que as produz, considera-as boas; mas depois nota falhas em seu trabalho e, desgostoso do resultado, expulsa-as de sua presença, dotando-as, para controlar seu comportamento, de uma “Lei” composta por normas que, dada a origem de cada um de seus monstros no mundo animal, lhes é doloroso ou, mesmo, impossível obedecer – não andar de quatro e não comer carne, por exemplo. Quando algum pobre-diabo inevitavelmente quebra a lei, é punido com a ojeriza do grupo, seguida de torturas inomináveis. Se isso não é um paralelo exato da relação de Yahweh com a humanidade tal como descrita no Pentateuco – da expulsão do Paraíso aos 40 anos do povo de Israel vagando pelo deserto, e sem falar no Dilúvio –, eu sou um coroinha.

Escrito hoje em dia, o livro provavelmente envolveria algum tipo de manipulação genética. Quando Wells se pôs a tecer sua narrativa, no entanto, a descoberta do DNA ainda estava mais de 50 anos no futuro, e o método usado por seu Moreau é, portanto, muito menos refinado que as manipulações bioquímicas que hoje fazem coelhos e ratos brilharem no escuro: o Dr. Moreau é um cirurgião. Um cirurgião plástico, que opera nos animais sem anestesia, recriando juntas, mutilando cascos e garras para que se convertam em mãos funcionais que, com raras exceções, nunca chegam a ter cinco dedos. Ele também transplanta tecidos e órgãos entre os animais, criando, por exemplo, um “sátiro” com pernas de bode e o corpo de um macaco que sofreu reconstituição facial para se assemelhar a uma caricatura de judeu.

O processo todo, como seria de se imaginar, envolve dor, muita dor para o paciente, e Wells não poupa o leitor da experiência excruciante: os gritos das feras imobilizadas na prancha cirúrgica enchem a ilha, e um monstro que escapa antes da transformação estar completa tem uma face que é uma massa de cicatrizes da onde escorrem filetes vermelhos.

Arrematando a denúncia do exercício arbitrário do poder divino, Wells não dá a Moreau nenhum motivo para seus experimentos, para além da satisfação de um tipo perverso de vaidade, de um deleite estético. Não há o desejo, sequer o pretexto, de ajudar a humanidade, de que nos animais estão sendo testadas técnicas cirúrgicas que, um dia, poderão salvar vidas humanas. Os monstros são como obras de arte, cada uma um fim em si mesmo, mas todas conscientes e condenadas a viver com as cicatrizes e as limitações que lhes foram dadas pelo criador que é ora odioso, ora indiferente.

É essa frieza de Moreau o que mais choca o narrador do livro, o náufrago Edward Prendick, hóspede involuntário da ilha infernal. Se Moreau torturasse os animais porque os odeia, pondera Prendick, seria possível talvez até simpatizar, dentro de certos limites, com ele. Mas Moreau não sente nada, além da obsessão de criar e aperfeiçoar a criação.

Diz Moreau em sua confissão-justificativa, que ocupa o trecho central do livro:

Cada vez que mergulho uma criatura viva nesse banho ardente de dor, penso: desta vez, queimarei todo o animal até extingui-lo, desta vez produzirei uma criatura racional de acordo com meu desejo. Afinal de contas, o que são dez anos? O homem está sendo aperfeiçoado há cem mil.

Indiretamente, ele está comparando seu processo cruel e impiedoso ao mecanismo de evolução por seleção natural – e estabelecendo uma equivalência moral entre seus atos e os de um Deus que se valha desse mesmo mecanismo para produzir vida inteligente.

Filosoficamente, Moreau se apresenta como um dualista e um idealista – alguém que acredita numa separação radical entre alma e corpo, e na predominância absoluta da alma. É com base nessa filosofia que ele se reserva o direito de ignorar o sofrimento de suas cobaias.

A importância que homens e mulheres dão ao prazer e à dor, Prendick, é a marca do animal sobre eles, a marca do bicho que um dia fomos. Dor! Dor e prazer… existem para nós apenas enquanto nos espojamos no pó.

Negando que o corpo e as sensações do corpo tenham algum tipo de valor moral, Moreau não vê nada de errado em manipular e mutilar tecido vivo para satisfazer a própria vaidade.

Assim como o sono da razão, a negação da carne também engendra monstros.

::: A ilha do dr. Moreau ::: H. G. Wells (trad. Bráulio Tavares) :::
::: Alfaguara, 2012, 176 páginas :::
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Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.