PESQUISA

Primeiros passos firmes

por Sérgio Tavares (07/03/2013)

Rafael Mendes recorre a uma prosa simples e fluente para apresentar uma das melhores maneiras de escrever contos

"A melhor maneira de comprar sapato", de Rafael Mendes

“A melhor maneira de comprar sapato”, de Rafael Mendes

A nova literatura brasileira tem provado um gosto irrestrito pela estética. Recorrendo a um verniz de complexidade, jovens autores tomam emprestado uma estrutura onde o jogo de palavras apela para uma engenhosidade que se concentra na fachada, um esforço exagerado de se criar o puzzle a ser desvendado pelo leitor. A questão é que essa preocupação com o acabamento, em muitos casos acaba por significar fragilidade no desenvolvimento e na densidade da trama. E o que pode ser mais grave: estabelecer uma ideia prejudicada de que a escrita possa ser submetida a uma fôrma onde aquilo que se enquadra em tal moldura passa a ser suficiente.

A boa notícia é que há sinais de que algo acontece além dessa superfície engessada. Pelo menos é essa a grata sensação que fica, ao término da leitura de A melhor maneira de comprar sapato, coletânea de contos que marca o debute literário de Rafael Mendes. O jovem escritor paulista recorre a uma prosa simples e fluente para retratar, de maneira inexorável, o cotidiano em sua estrutura mais bem definida, de modo que o trivialismo ganha uma ressonância mais aguda do que o fato incidental.

Os contos são enxutos, precisos em ritmo e proporção, livres de rebuscamentos ou acessórios, tais como os personagens que os habitam. De uma cena a outra, o leitor é apresentado a pessoas sem dimensões heróicas, ocupantes de uma classe média sugestivamente dos anos oitenta, que desmoronam ou são marcadas pela falência do núcleo familiar. A memória é o alicerce que fica, estucado com demãos de melancolia e saudosismo, e sua manutenção serve como estopim narrativo para digressões que envolvem desencantos, mágoas reprimidas e tentativas inúteis de consertar o passado. Todavia, mesmo os enredos mais embrutecidos são tratados com sensibilidade e maestria, provando um controle admirável sobre os limites da estruturação determinada.

Rafael tem destreza para tocar em temas simples, sem ser piegas; de arriscar uma empatia desmedida para com seus personagens mais sofridos, sem ser sentimentalista ou criar armadilhas para si próprio, para sua escrita. Tal entrega redunda em narrativas entretecidas por relatos tão íntimos que trazem, para o leitor, a dúvida se o autor não estaria mergulhando em sua própria memória, revelando fotografias de sua infância. “Bicicletas”, “As cores do palhaço” e “Bainha, pence e cós” são tão fiéis aos aspectos que revestem a puerícia e suas importâncias mais prosaicas, que a contundência perde força diante da veracidade que se infiltra na construção das frases e dos personagens.

A valorização do corriqueiro, da vida amarrada na motricidade dos dias, contribui para a humanização da voz ativa, tangenciando as histórias do território da crônica; e, por conseguinte, da magnética presença do Fernando Sabino de O homem nu e O gato sou eu. O conto homônimo ao título do livro encontra a mesma frequência de simpatia pela natureza humana que rege os melhores textos do escritor mineiro. O autor, contudo, deixa às claras suas influências na escolha das citações: Machado de Assis, porque deveria ser unanimidade, e Raymond Carver, sobretudo o autor da versão de Iniciantes tesourada pelo editor Gordon Lish.

LEIA MAIS  Alê Motta e a obra literária na era da sua interrupção

Páginas assombradas pelo fantasma do pai

A ausência do pai, o vazio recortado no álbum de família, é provavelmente o grande fantasma do livro. Na maioria dos dezenove contos que integram a antologia, esse ator incorpóreo, quase totalmente sugerido, paira sobre a memória do narrador-filho que, incapaz de impedir que este siga demolindo sua inocência, ora revida com amargura ora concentra sua fuga na lealdade materna.

O robustecimento da figura feminina, dessa forma, avizinha tais narrativas do cosmo machadiano, transferindo a presença da mãe para a lacuna deixada pelo pai, ainda que o espaço não se ajuste corretamente à sua medida. Essa troca indevida de posições rende os ótimos “O futuro estava muito longe de mim”, em que uma mulher, com o bebê no colo, dispara num encadeamento de projeções enternecidas até a sua velhice, e “Por trás dos óculos escuros”, onde um filho se reconcilia com o cadáver do pai.

Quando se deslocam da imersão individual para o imaginário coletivo, os contos transcorrem sobre cenários cujos panos de fundo são de comum circulação. Estádio de futebol, marginalização urbana, êxodo social e vícios juvenis são temas distintos, mas que, por conta de conservar as nuances do conjunto, não causam estranhamento ou suspeita de fuga fácil. É dessa seara que vem a melhor narrativa da antologia. “A vista da varanda” é tocante ao perceber a juventude como algo envolto por uma redoma de vidro finíssimo, passível de ser espatifada ao ínfimo golpe.

Pela capacidade de fornecer percepções como essa, Rafael demonstra envergadura para integrar o grupo de talentosos novos contistas brasileiros, ao lado de nomes como Alessandro Garcia, Rafael Gallo e Flavio Torres. A melhor maneira de comprar sapato pode ser um primeiro passo, mas é um passo firme que sinaliza que o autor felizmente ainda tem muita sola para gastar.

::: A melhor maneira de comprar sapato :::
::: Rafael Mendes :::
::: Confraria do Vento, 2012, 112 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

Sérgio Tavares

Jornalista e escritor, autor de Queda da própria altura (2012), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (2010), vencedor do Prêmio Sesc.