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Vórtice de vaga-lumes

por Sérgio Tavares (19/03/2013)

Monique Revillion persegue personagens comprimidos que recorrem a lampejos de memória

“O deus dos insetos”, de Monique Revillion

Um estudo publicado na prestigiada revista Science estabeleceu uma correlação entre o compasso dos flashes dos vaga-lumes e certas conexões cerebrais. Segundo a publicação, assinada por professores estadunidenses das universidades de Connecticut e Georgia Southern, a intermitência do brilho emitido por algumas espécies desses besouros configura um padrão relacionado à habilidade de contar e medir, já que o número e o tempo dos intervalos estão essencialmente vinculados ao ritual de acasalamento. Ao pressentir a fêmea, o macho lança um disparo de seis centelhas, seguido por uma pausa de até oito segundos, período em que cabe à candidata responder com dois flashes sucessivos a fim de firmar o contato. A memória interligada à capacidade de comunicação, desse modo, é indispensável para a perpetuação dessa espécie de insetos. Ainda que visto com delicadeza sob a pele da noite, o sortimento de lampejos carrega a possibilidade da vida.

Se há uma análise do método procedido na nova antologia de Monique Revillion, O deus dos insetos se distingue exatamente por converter, em seu efeito transmissivo, o padrão determinado pelos vaga-lumes. O segundo livro da escritora gaúcha, laureada com o Prêmio Açorianos em 2006, nas categorias Contos e Livro do Ano, por Teresa, Que Esperava as Uvas e outros contos, comprime seus personagens ao plano dos seres diminutos, com a pressão exercida pela memória infiltrada por pequenas mortes. Incapazes de se desamarrem do passado, estes derivam num presente elusivo, encerrados em momentos de abandono, desilusão, perda e culpa. Uma vacuidade proveniente de uma ausência incontornável que, embora cercada por cenários familiares, reflete-se na incapacidade de comunicação com o outro e, especialmente, consigo mesmo.

O que não foi ou não pode ser resolvido é maior que a previsão de fuga. Monique demonstra um controle absoluto de suas escolhas, ao entecer a maioria dos contos em contrafluxo, usando o tempo incinerado ora como ponto de partida ora como instrumento de fratura, sem que isso comprometa a estrutura ou confunda o leitor. Essa opção cria estreitos paralelos entre passado e presente, onde o que é suspenso nessa distância, ainda que intensamente belo, não passa de uma armadilha para se confinar em tristeza ou impotência. Isso é bem explícito (e tramado) nos dois primeiros contos, “Coronal Mass Ejections” e “Constelar”, este último sobre uma mulher que percebe a vida se esvair pela doença da irmã. Já a narrativa de abertura, onde uma esposa, presa a um relacionamento frígido, descobre prazer na projeção de si entregue a um caso extraconjugal, é a senha para todos os contos que a sucede, além de distinguir dois grandes méritos da autora.

Não existem fronteiras em O deus dos insetos; o que é um alívio. Passadas as primeiras páginas, onde pululam algumas expressões regionais (ou regionalistas), a antologia se constitui de temas universais, centrados em circunstâncias urbanas. Mesmo filha de um estado com características socioculturais peculiares, a autora tem destreza para usar esses traços no fortalecimento de sua tessitura literária, desse modo não resumindo suas narrativas a limites insulares. Ainda que carregada de descrições minuciosas, metáforas e comparações, sua prosa é requintada, livre de amarras e eventualmente marcada por doses adequadas de erotismo. A crueza da vida é uma argamassa pintada com nuances poéticas, criando camadas e desfechos que combinam espanto e beleza. Dessa maneira, por mais que os fatos provoquem um encadeamento de dissabores, Monique substitui o fim abrupto por enlevos, ao exemplo do momento derradeiro do conto “Funghi”:

Na rua, a chuva voltava em redemoinhos, assobiando lamentos pelas frestas. Então, engolindo em golfadas a solidão que era também maresia e pátina, fechou os olhos, cientes de que nada haveria para ver enquanto afundava na lagoa ácida, água sem batismos, ressurreições ou milagres, em lenta queda até alcançar o fundo arenoso do abismo, imóvel sob o peso da massa líquida oprimindo-a, como se vestisse, e para sempre, um apertado escafandro de chumbo.

Estando diante de uma autora de vibrante talento, acaba sendo saída fácil margear a sua escrita dos universos de Clarice Lispector (a quem, em entrevistas, Monique já declarou se inspirar) e de Lygia Bojunga para maiores. No entanto, sobre os 11 contos paira uma vaporosa influência de grandes como Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti, em especial no empréstimo de uma característica marcante ao movimento que estes imantaram: o realismo fantástico. A incidência do extraordinário, do insólito no cotidiano, é o ponto de ruptura em algumas histórias, mas, ao contrário desses mestres das breves narrativas, Monique encontra uma designação espetacular para o uso. Não é o absurdo que desnorteia, mas a natureza viva, os fenômenos naturais. Atividades solares, enchentes, tempestades e uma maçã embolorada têm o poder de desviar o olhar do personagem para dentro de si e transformar regiamente a trama. Feito com tamanha habilidade, isso raro e fascinante.

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Não por menos, o conto em que se adensa essa característica é o que dá nome ao livro. Nele, um mulher condenada por uma enfermidade contempla o viço do seu jardim, idealizando uma fuga impossível na metamorfose de um inseto. É dele também que parte o conceito do belíssimo projeto editorial, constituído por estampas folhadas e páginas que escurecem ao fim de cada conto, numa espécie de fade out. Nesse obumbramento é que reside o deus do livro, uma entidade incapaz de salvar personagens cuja memória desmorona em lampejos sugados pela inadequação da existência feito um vórtice, um vórtice de vaga-lumes.

::: O deus dos insetos :::
::: Monique Revillion :::
::: Dublinense, 2013, 96 páginas :::
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Sérgio Tavares

Jornalista e escritor, autor de Queda da própria altura (2012), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (2010), vencedor do Prêmio Sesc.