PESQUISA

Tão humano quanto o leitor

por Gustavo Melo Czekster (09/03/2015)

Ao contrário do que imagina o senso comum, não são muitos os grandes temas da literatura. As histórias se articulam quase sempre em torno dos mesmos eixos, entre eles, a volta para casa, a jornada do herói, a morte gloriosa ou tranquila, o dilema do mandarim, todos articulados das mais variadas formas. No entanto, existe […]

"Eclipse", de John Banville. (Biblioteca Azul, 2014, 240 páginas)

“Eclipse”, de John Banville. (Biblioteca Azul, 2014, 240 páginas)

Ao contrário do que imagina o senso comum, não são muitos os grandes temas da literatura. As histórias se articulam quase sempre em torno dos mesmos eixos, entre eles, a volta para casa, a jornada do herói, a morte gloriosa ou tranquila, o dilema do mandarim, todos articulados das mais variadas formas. No entanto, existe uma classe de escritores que conseguiu definir como tema a zona nebulosa que separa a certeza da instabilidade. Não existe sentimento mais humano do que a insegurança: nunca sabemos se estamos certos, se estamos errados ou nem ao menos se deveríamos estar nos perguntando sobre este assunto. Se Shakespeare escolheu a dúvida como temática favorita das suas tragédias e se Dostoiévski optou pelo remorso e pela culpa, podemos dizer que a indecisão também é combustível para a boa literatura, ainda mais nos tempos instáveis em que vivemos.

Um dos grandes atrativos de Eclipse, livro de John Banville, é justamente o fato de não acontecer nada em grande parte da obra. Não existem reviravoltas ou inovações narrativas; não aparecem truques estilísticos ou personagens com atitudes e falas marcantes. Com exceção de um único acontecimento violento surgido quase no final do livro, o restante da história desenrola-se com vagar, concentrada nos dilemas do personagem principal e narrador, Alexander Cleave. A única forma de manter o interesse do leitor seria construir um personagem inesquecível, e Banville se desincumbe muito bem desta tarefa. Em muitos momentos questionei – e me irritei com – a indecisão da voz narrativa predominante no livro, mas não posso deixar de reconhecer o seu fascínio.

Alexander Cleave é um ator experiente e famoso que, em uma noite, no palco, passa pelo pior pesadelo de qualquer artista: subitamente paralisa e esquece as suas falas, precisando lidar com as risadas da plateia e com o pânico dos seus colegas de peça, até abandonar o palco de forma repentina. Tal fato o leva a reconsiderar a sua vida. Ele decide retornar para a casa em que passou boa parte da infância, em uma tentativa de reconectar a criança com o homem e encontrar o sentido da própria existência ou, nas suas próprias palavras, “colocar de volta o trem nos trilhos”.

Na casa da infância, passado e presente passam a conviver de forma abrupta, alternando-se nas recordações do narrador. Para viabilizar a construção da narrativa, John Banville abusa do recurso da fantasmagoria, vendo fantasmas e sendo acossado pela memória de eventos passados, o que aproxima o livro, em muitos momentos, de A volta do parafuso, de Henry James. O presente aparece de forma mais vigorosa através das intervenções da sua mulher, Lydia, que lhe acompanha nesta jornada ao passado, mesmo sem ter sido convidada para tanto. Não é uma coincidência que, irritada pelo desejo constante do marido de retomar o passado, Lydia algumas vezes lhe diga “Você é seu próprio fantasma”.

Eclipse é um livro concentrado na criação de um personagem. Por este motivo, a narrativa muitas vezes parece arrastada, mas é uma estratégia do autor. Não existiria maneira de transmitir verossimilhança se o leitor não conseguisse entender por completo o pensamento enrodilhado de Alexander Cleave, repleto de idas e vindas e circunlóquios. Para realizar tal tarefa, Banville faz uma utilização intensa da linguagem, de tal forma que o leitor se envolve com a história sem perceber que está sendo um auxiliar na construção do narrador. O mundo interno de Alexander Cleave e suas indecisões são acompanhadas pelo leitor como se ele fosse um voyeur, e esta é uma das mais antigas formas de construir uma narrativa: fazer o leitor entrar na história e entender o funcionamento mental do personagem até que seja capaz de prever as suas atitudes. Até que seus pensamentos se confundam com os do narrador.

Graças à maneira sutil com que Banville constrói a trama, o leitor não percebe que está sendo conduzido por mãos muito hábeis. Um exemplo é o episódio em que Alexander Cleave quase atropela um animal desconhecido na estrada: passando por uma rodovia no meio da neblina, a interrupção súbita da sua jornada por algo que atravessa a frente do carro o faz notar que estava andando sem rumo e, por coincidência, acabara parando na sua cidade natal. De forma quase imperceptível, Alexander Cleave mostra a interposição do passado sobre o seu presente, a sua indefinição sobre qual rumo deveria tomar e, mais do que tudo, a ideia de que não é uma pessoa confiável. Pode ser um narrador confiável, mas nem tudo o que ele vê e transmite para o leitor é real, pois Alexander é um ator e, por natureza, está acostumado a mentir para si próprio com o objetivo de mentir também para a plateia. Ou, nas suas próprias palavras, “Esta é a presunção do ator, imaginar que o mundo possui um olho único e ávido fixo sempre e exclusivamente nele. E ele, é claro, ao atuar, se acha a única coisa real, a sombra mais substancial num mundo de sombras.”

Um destaque do livro – e que deixa a sua leitura atrativa – é o uso da linguagem na construção de imagens repletas de poesia e, ao mesmo tempo, de pensamentos filosóficos. É algo no estilo do autor que o aproxima de Nabokov, como muito de seus admiradores destacam, apesar de ser mais correto imaginá-lo como um Nabokov com mais conteúdo filosófico do que propriamente sentimentos. John Banville articula a narrativa no meio de uma série de imagens que ficam ecoando por horas na cabeça do leitor, como “Já era verão agora, um daqueles dias vagos e preguiçosos do começo de junho que parecem feitos metade de tempo e metade de memória”.

Os pensamentos do narrador também são profundos, possibilitando que o leitor encontre uma série de reflexões no meio da fluidez da narrativa, tais como “A fera à espreita é sempre mais sedutora do que a que salta” e, se referindo aos atores da companhia teatral que integra, “Filhos da noite, nós nos fazemos companhia contra a escuridão insidiosa encenando que somos adultos”. A forma com que a trama é construída permite ao leitor não achar tais pensamentos falsos ou exagerados, e sim auxiliares na construção do personagem que conduz todo drama da história: um homem atordoado e que está diante da encruzilhada que separa o passado de uma infância repleta de vida do futuro de solidão interna povoado por fantasmas, com problemas que nunca desaparecem, somente se reciclam.

É importante destacar que Eclipse é o livro que inicia a trilogia Sudário, composta ainda por Luz Antiga, que já foi lançado. As três histórias são independentes entre si, unidas somente pelo mesmo narrador, podendo serem lidas como obras individuais, ainda que elas se conectem de forma tênue.

Eclipse não é uma leitura fácil. Ele demora um pouco para se render ao leitor, que se distrai com as idas e vindas do texto e, como a história é excessivamente estática, corre o risco de perder as chaves de interpretação do narrador distribuídas ao longo do texto. No entanto, ultrapassado este momento inicial de relativa incompreensão, o leitor que seguir adiante logo entenderá os pensamentos de Alexander Cleaver. Entrará na sua pele e vivenciará as suas dúvidas e indecisões. Preso em um passado que não o larga e lança sombras sobre o seu presente, o narrador é alguém tão humano como qualquer um dos seus leitores, e talvez esta seja a característica que mais incomoda em Banville: a sensação de que, um dia, o leitor vivenciará as mesmas dúvidas de Alexander Cleaver e, no meio deste grande palco que se chama vida, esquecerá o que está fazendo sobre ele e não lembrará mais o motivo pelo qual está vivo. Somos criaturas feitas de passado e de fantasmas.

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.