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A partir de um personagem de si, Raimundo Carrero remonta os dias subsequentes ao AVC

"O senhor agora vai mudar de corpo", de Raimundo Carrero. (Record, 2015, 112 páginas)

“O senhor agora vai mudar de corpo”, de Raimundo Carrero. (Record, 2015, 112 páginas)

Há poucos meses, o mundo foi tomado de assalto por um artigo, publicado no New York Times, no qual o médico e escritor Oliver Sacks fala abertamente de seu ocaso. Portador de um câncer terminal no fígado, ele lança um olhar sobre os poucos dias que tem pela frente. A surpresa, porém, está no tom. O que apontaria para uma carta de despedida, encharcada em tintas melancólicas, acaba por se revelar uma ode à vida. Sacks não percebe a aproximação da morte como um processo de anulação, mas a chance suprema de agradecer pela existência e pelo privilégio de contar com tempo para ser produtivo e aprofundar suas amizades. “Não posso negar que estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Eu amei e fui amado; doei muito e retribuí; li e viajei e refleti e escrevi. Eu tive uma boa relação com o mundo, a relação especial de escritores e leitores”, declara.

Na literatura, existe uma longa lista de títulos que comportam relatos de vencedores e de perdedores, no jogo de xadrez com a morte. Aos últimos, cabem os livros sobre o luto, a exemplo dos recentes Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes, e O brilho do bronze, de Boris Fausto, além do inigualável Carta a D., de André Gorz. Ao passo que os primeiros são, na maioria das vezes, testemunhos de experiências-limites editados para refulgir o tema superação. São os bestsellers do ciclista que venceu o câncer, do alpinista que prendeu o braço numa rocha, do sobrevivente do naufrágio, da menina que escapou de um atentado motivado por obscurantismo religioso, e a prateleira é extensa.

O senhor agora vai mudar de corpo, romance recente de Raimundo Carrero, repousa num meio-termo. Não contém a extravagância da superação nem o drama fatal do luto. É um livro sobre a angústia. Sobre como lidar com as incertezas e os efeitos físicos provocados por um acidente vascular cerebral (AVC) que, em 2010, acometeu o escritor pernambucano. Com a metade esquerda do corpo paralisada, a fala da memória dá conta do que a “voz rachada e confusa” não é capaz de expressar. Cria-se, desse modo, uma confissão montada por fragmentos de distâncias pretéritas, cuja varredura é comandada pelo medo de perder o autodomínio, em especial a coordenação que ocasiona a escrita.

Carrero, a todo tempo, recorre aos livros, a autores que escreveram sobre o esboroamento físico (de Dostoiévski a Clarice Lispector), como pontos cardeais para guiá-lo nessa jornada autocentrada destituída de ordem cronológica ou de limites claros entre realidade e ficção. A literatura, e seu salvo-conduto fantasioso, é a chave que o autor encontrou para o embarque. Inventar um personagem de si, o Escritor, deslocando a narração da primeira para a terceira pessoa. Algo como a livre adulteração dos versos de Walt Whitman: “Eu sou o homem, eu sofri, eu estava lá”, para: “Ele é o homem, ele sofreu, ele estava lá”. Um olhar extracorporal, não avariado pela doença.

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A partir desse novo ângulo, as reminiscências compaginam-se a figuras de linguagens, símbolos e alegorias. O autor segue o conselho que recebeu do mestre e amigo Ariano Suassuna: “A literatura se faz com metáforas”, povoando as pequenas cenas que constituem o livro com elementos desnaturados a fim de significar sensações e devaneios. Os morcegos, as aranhas, o cortejo mezzo medieval mezzo circense formado pelo O Gordo, O Magro, O Velho, O Anão e A Mulher Grávida. Da transição do organismo saudável para o enfermo, Carrero reconfigura a vida, seu passado, seu presente, “o Recife, agora transformado num mundo de ansiedade e espera, algo que se aproxima muito do arco de desolação que se estende no horizonte de prédios gigantes que ocupam a paisagem da cidade”. Faz-se homem, faz-se menino, repintando e encadeando as palavras num pueril, e igualmente agourento, trava-língua: “A aranha arranha a rota roupa mortal na noite rebelde”.

É sempre uma sinuca de bico para o resenhista analisar uma obra de substância íntima (sobretudo esse que vos escreve, cujo segundo livro é motivado por uma perda), porém, ao se desencarregar da condução da narrativa, Carrero expõe o enredo ao juízo da invenção e absolve a verdade. Daí se expõem a técnica e a manufatura da trama, urdida com a precisão da mestria. O sempre arriscado recurso da metáfora se dissolve numa prosa rica e densa, produzindo passagens belíssimas, tal qual o trecho em que descreve, numa tensão quase onírica, como as aranhas no teto tecem sua mortalha. Outros fragmentos, a exemplo da descoberta do acidente em casa até a mudança para o hospital e dos danos mais grotescos, como a incapacidade de controlar as excreções, têm força para sensibilizar o leitor, sem que se apele para a autocomiseração ou para o pieguismo. Tudo passa por uma revisão, exceto a literatura. A única fração orgânica e espiritual do Escritor imutável, antes e depois da doença. “Não conseguia parar um só instante, tomado de febre criativa, e as palavras se multiplicavam sem reflexão, sem crítica, sem análise. Apenas o desejo de criar e criar. Sem imitar nenhum escritor, sem copiar, sem se aproximar. Sem pensar, ele sabia: não pensava. Escrevia e escrevia”.

Ao fim, fica a impressão de que o romance valida a máxima de que, ao ser soprado pela morte, o que se viveu corre sobre os olhos. Os primeiros autores, o início no jornalismo, os amores, os excessos, as bebedeiras, os carnavais, os amigos, a fé, as atividades políticas, o casamento e o nascimento dos filhos revolvem num fluxo que não clareia o porquê da sobrevivência, mas estimula a recuperação. Há espanto, vergonha, dúvida; nunca derrotismo. Carrero, a seu modo, faz uma ode à vida.

Sérgio Tavares

Jornalista e escritor, autor de Queda da própria altura (2012), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (2010), vencedor do Prêmio Sesc.