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A traição dos intelectuais, ainda

por Daniel Torres (04/03/2018)

À paixão ideológica, tanto faz afirmar uma verdade ou uma mentira; como ela é política, o seu critério é a conveniência.

1.

Em 1955, pouco antes da eclosão da Primavera Húngara e de sua repressão, Raymond Aron publicou O ópio dos intelectuais. Em substância, Aron, entre outras coisas, marxólogo, estuda a relação entre a aceitação da mitologia marxista – história, revolução e proletariado – e da violência – a parteira da sociedade nova – pelo intelectual de esquerda. Em sua superfície, é uma crítica à conivência da inteligência francesa, Sartre e confrades, às atrocidades perpetradas sob a Cortina de Ferro, coniventes seja pela negação dos fatos, seja pela advocacia intelectual.

Em sua dimensão superficial, a crítica de Aron não era nova em seu século. Em 1927, Benda denunciou A traição dos intelectuais, que, então, sacrificavam a busca pelo bom, belo e verdadeiro nos altares do bolchevismo e do fascismo. A França sedada do pós-guerra não era tão diferente da Europa eufórica do entre-guerras.

Em verdade, não é nova em século algum. No século XIX, Tocqueville criticou os philosophes, que, incautos, no furor de derrubar o antigo regime inteiro, exortaram a abolição de todas as leis que pudessem impedir a ocorrência do Terror Jacobino. Se formos retroceder ainda mais, saímos tanto da era cristã quanto da França, chegamos à Grécia Clássica, aos adversários de Sócrates, Platão e Aristóteles, os sofistas.

Creio que a definição dada por Strauss do sofista se aplica, infeliz e perfeitamente, a tantos intelectuais de qualquer século ou país. Em essência, o sofista não necessariamente defende ideias erradas; se fosse por isso, todos seriam sofistas. O que o distingue é o motivo pelo qual defende uma ou outra ideia. Em lugar do amor à verdade e ao justo, a defesa de suas ideias vem de suas paixões políticas. Para Protágoras, o convencimento das massas, para Sartre, a vitória da ideologia.

Substituído o amor à verdade pela paixão ideológica, pouco importa a correção dos fatos enunciados ou dos argumentos expostos. Só faz sentido preocupar-se com correção quem se importa com a verdade. À paixão ideológica, tanto faz afirmar uma verdade ou uma mentira; como ela é política, o seu critério é a conveniência.

Essa sujeição da correção à conveniência cria uma mentalidade própria, que sofre de solipsismo. A mentalidade orientada à ideologia se faz presumir a única possível. Quanto mais se pensa sob uma ideologia, mais se assume que seu interlocutor raciocina ideologicamente.

Aplicada à vida do espírito, essa forma mentis erode toda a preocupação com o rigor. A apresentação de provas e as demonstrações são um pudor, uma maquiagem do pensamento. Se toda preocupação intelectual é, na verdade, uma paixão política, então qualquer perspectiva sobre qualquer coisa se reduz a uma parte de um projeto de poder. Quanto mais se pensa ideologicamente, importa menos a sensatez do interlocutor e mais sua anuência.

O diálogo deixa de ter aquela pretensão socrática de ascensão das opiniões contraditórias e pessoais à concordância comum diante da verdade. Pelo contrário, todo diálogo desce da apresentação de opiniões à inquisição das propensões ideológico-políticas do interlocutor. “Tudo é ideologia”, como ouvi muitas vezes no meio acadêmico.

2.

Pensem no caso brasileiro: a blindagem intelectual almejada por nossos acadêmicos aos governos petistas. Fazem-no por meio da reescrita da narrativa de sua história, da redefinição dos conceitos empregados na crítica ao petismo ou da banal associação dos críticos da esquerda com o fascismo.

Como o leitor sabe, desde o início da operação Lava-Jato, boa parte da esquerda relativizou os méritos da operação como forma de combater a corrupção. Dizia-se que não chegaria aos tucanos, porém Serra e Aécio são mencionados na lista da Odebrecht, e a irmã do senador mineiro chegou a frequentar a prisão. Disseram que a operação não prenderia Eduardo Cunha – mas ele está preso em Curitiba. Disseram que não atingiria outros figurões do PMDB – Sérgio Cabral está preso em Curitiba. Em resumo, a tese da parcialidade partidária da Lava-Jato, salvo em um ou outro nicho mais delirante, caiu em descrédito.

O foco então mudou ligeiramente para a suposta perseguição à “campanha popular” de Lula. Disseram faltar provas de que Lula era lobista de empreiteira, que a condenação é injusta. Contudo, quem ouviu ao julgamento da apelação pode percebe a quantidade de remissões a testemunhos e documentos provando que o candidato do povo é o preposto do capital. Alegaram depois que o julgamento da apelação foi rápido demais, o que foi desmentido pelo TRF-4; em verdade, foi julgada no tempo normal. A tese do apoio popular contra a prisão de Lula também foi um fiasco, visto que mais da metade dos brasileiros querem vê-lo preso.

O desenvolvimento da operação Lava-Jato desfez a pretensão de deslegitimá-la no plano dos fatos.

Resta hoje para a esquerda empenhar-se na academia, onde suas ideias são sabidamente mais aceitas, com foco no rearranjo de conceitos. A corrupção deixa de ser um problema – problemática mesmo seria a preocupação com a corrupção.

Esse discurso que já vinha pespocando aqui e acolá nos ditos blogs progressistas, e agora ganhou forma acadêmica em Jessé Souza e Márcia Tiburi. O primeiro dedicou um livro à propaganda da tese – A elite do atraso. Tiburi, mais comedida, faz a propaganda em artigos.

Jessé afirma, em linhas gerais, que a corrupção não é o problema mais premente das instituições brasileiras. Em verdade, a corrupção com que nos preocupamos seria meramente seu simulacro; quem descobriu a verdadeira corrupção foi Jessé: a escravidão e seus resquícios. Estes seriam um problema desconsiderado pelo pensamento brasileiro (pouco importa que tenhamos uma bibliografia extensa sobre o assunto). O combate à corrupção que defendemos é um embuste criado pelas elites com a ajuda da mídia, uma estratégia para distrair-nos, estúpidos que somos, da corrupção real.

Tiburi, em artigo publicado semana que passou na página da Cult, afirma que nossa preocupação com corrupção é o anverso de nosso descuido da ética. A corrupção seria uma preocupação enlatada pelos poderosos para nos levar a comportamentos destrutivos dos vínculos sociais. Ao contrário de Márcia Tiburi, que escapou do truque, nós caímos nele porque não refletimos bem. Pessoas criativas, como Márcia Tiburi, pensam em ética, não em corrupção.

Fique tranquilo, leitor, não abusarei de seu tempo com uma refutação da dissociação entre preocupações com ética e preocupações com corrupção. Ninguém precisa perder tempo com o óbvio.

Não há nada de novo sob o sol. Sempre que seus caciques políticos são postos à prova, nossos acadêmicos se põem a fazer construções mirabolantes. Por exemplo, Marilena Chauí, que, à época das manifestações de Junho de 2013, se dedicou a demonstrar o suposto caráter fascista das revoltas. Essa tese sofreu pequena alteração, mas é visível na reprovação às manifestações de Junho da inteligência e da cúpula petista. Não por acaso, Lula afirmou em recente entrevista à Folha de São Paulo que Junho foi planejado pelos Estados Unidos.

Outro exemplo, agora da alçada dos juristas. Diante das menções constantes a esquemas de corrupção petistas nas delações premiadas, alguns juristas filopetistas, maquiados de garantistas, afirmaram que as delações seriam uma forma de tortura equivalente às praticadas nos porões do regime militar. Claro que há críticas técnicas à delação premiada, mas esta não é uma delas. Não que os juristas primem pela dialética em detrimento da erística, mas equivaler o instituto à cadeira de dragão, além de um ad hitlerum tropical, é um desrespeito às vítimas de tortura.

Recentemente, ainda há a controversa disciplina sobre o “golpe” de 2016, a ser ministrada inicialmente UnB e já tendo se propagado para outras universidades. Não creio que a disciplina fosse motivo de sanções disciplinares, temeridade do ministro da Educação. Porém, sua bibliografia demonstra inequivocamente o partidarismo intelectual. Não bastasse uma bibliografia de humanas desprovida de contrapontos ao pensamento do catedrático, o plano de aula ainda é tomado por reflexões sobre editoriais da blogosfera petista.

Esses são todos sintomas mais ou menos novos de uma doença velha. Nossos intelectuais abandonaram o sine ira et studio, a responsabilidade pela crítica. Em lugar da lucidez, dedicam-se à artimanha, em lugar da verdade, devotam-se aos ídolos. Reverentes, seguem sua tradição: a traição.

Daniel Torres

Advogado, bacharel pela UFRJ.

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