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A Terceira Tentação

por Daniel Torres (03/10/2021)

Refletir sobre o que propiciou o desenvolvimento de um catolicismo bolsolavista é tentar fazer diagnóstico e prognóstico da Igreja no Brasil.

I.

Em pesquisa PoderData de agosto de 2021, o número de católicos a julgar o governo Bolsonaro ótimo ou bom era de 21%, um tanto menor que a média da população brasileira, 29% àquela época. Era menos da metade da aprovaçao do governo entre os evangélicos então, 50%. Igualmente, é uma redução significativa da adesão católica a Bolsonaro nas eleições de 2018, quando 27 % declararam votar no então candidato no 1º turno e 44% no 2º turno.

Há boas razões na conduta do Presidente para a discrepância de adesão a Bolsonaro entre católicos e evangélicos. Em linhas gerais, Bolsonaro faz de tudo para apelar aos protestantes brasileiros. São comuns as suas participações em cultos dominicais, algumas ao lado de pastores influentes como Silas Malafaia. Em dado episódio, ao tempo de sua filiação ao Partido Social Cristão (PSC), o presidente foi até a Terra Santa para para ser batizado no Jordão pelo Pastor Everaldo, presidente do PSC. Há anos o presidente promete um ministro do Supremo Tribunal Federal, palavras dele, “terrivelmente evangélico”, que talvez venha a ser o Advogado Geral da União, André Mendonça. O presidente, igualmente, diz acreditar na importância de um governante “ter Deus no coração”, desejar que semanalmente as sessões do Supremo comecem pela oração do Pai Nosso, entre outras sinalizações de virtude claramente destinadas aos evangélicos.

Essas demonstrações de apreço não tem equivalente no meio católico. Ainda que se afirme católico, o presidente muito raramente é visto a participar do sacrifício da Missa. Bolsonaro raramente é visto com lideranças católicas, religiosas ou seculares. Nunca houve uma menção sequer a um ministro “terrivelmente católico”, apesar de contar com o apoio de um Ives Gandra, membro da Opus Dei e defensor da tese de que o art. 142 da Constituição admitiria uma intervenção militar constitucional, o que quer que seja isso. Apesar de afirmar-se católico e um católico professar um só batismo, não custa repetir, o presidente foi batizado no Jordão por um pastor assembleiano. Seu governo chegou a investigar um sínodo – isto é, um simpósio de bispos – sobre a Amazônia, enquanto ameaça à soberania brasileira, sem jamais ter explicado como uma reunião que termina com um parecer poderia ameaçar a soberania brasileira sobre a amazônia. O presidente já chegou a insinuar que o padre Júlio Lancelloti fosse um pedófilo, sem nenhuma prova de afirmação dessa gravidade, o que é uma conduta incomum entre católicos. Em verdade, é razoável afirmar que Jair Bolsonaro é estatisticamente católico e politicamente evangélico.

Uma correlação fácil é sugerir que a aprovação ou reprovação de Bolsonaro entre católicos seja feita por motivos religiosos. Fácil e falaz, nada permite fazê-la, especialmente quanto aos católicos, pois no Brasil há toda uma tradição de sincretismo religioso na fé popular. Por isso, nós nos abstemos dela.

Isso também não significa a inexistência de um eleitorado bolsonarista católico por razões religiosas. Com efeito, elementos importantes do olavismo, núcleo ideológico do bolsonarismo, produzem conteúdo voltado exclusivamente a público católico. De modo geral, é muito comum no meio olavista a referência ao segundo segredo de Fátima, cuja menção a um mal que virá da Rússia é tradicionalmente associada ao mal do comunismo. O próprio ideólogo do governo, Olavo de Carvalho, é católico, faz referências pontuais às suas devoções pessoais e ataques recorrentes a Sua Santidade, o Papa Francisco. Allan dos Santos, proprietário do Terça Livre, também muito preocupado com a hegemonia comunista na Igreja e no Brasil, foi seminarista e jornalista do Church Militant, uma espécie de Breitbart católico. Bernardo Kuster, investigado no inquérito das fake news, devota parte do conteúdo ao catolicismo, onde também se mostra muito preocupado com a hegemonia da teologia da libertação no Brasil. A sua estatura enquanto digital influencer de católicos é tamanha que ele é garoto propaganda de alguns serviços destinados ao público católico. Igualmente, tamanha é sua preocupação que se propôs a produzir um documentário sobre a infiltração comunista na Igreja Católica latino-americana, filme que ainda não tem previsão de lançamento, mesmo após dois financiamentos coletivos, o que talvez se explique pelo material disponível. A senhorita Sara Winter, antes de ser comissionada pelo Ministério da Mulher e presa por sua participação em atos contrários à segurança nacional, dedicou cinco anos à sua imagem de abortista arrependida, o que lhe rendeu inclusive um documentário, A Vida de Sara, em um streaming católico.

Igualmente, fora do núcleo ideológico do governo, há organizações católicas mobilizadas em apoio ao presidente, como o Instituto Plínio Correa de Oliveira, o Centro Dom Bosco e outros centros de leigos ligados à Liga do Cristo Rei. Quando o governo se opôs ao Sínodo da Amazônica, coincidentemente começaram uma campanha de pânico, como se o Sínodo por si só fosse o prenúncio do fim da Igreja Católica. Quando o governo passou a criticar as medidas sanitárias, disseminaram a narrativa de que elas seriam etapas de uma perseguição religiosa contra o cristianismo, capitaneada obviamente pela China, para preparar o domínio comunista. Uma dessas agremiações, inclusive, devotamente, rezou um rosário em latim pela conversão da China, que teria supostamente assumido o lugar da Rússia no segundo segredo de Fátima.

A relação entre religião e voto a Bolsonaro não é unívoca, por isso mesmo é possível falar de um catolicismo bolsolavista, defensor do governo Bolsonaro por compartilhar do imaginário olavista. Pode ser um movimento minoritário dentro da Igreja no Brasil. Porém, a nosso ver, ele é sintoma e resposta aos problemas do catolicismo brasileiro. Assim, tentar refletir as condições que propiciaram o seu desenvolvimento é tentar fazer um diagnóstico e – para nós, como católicos – um prognóstico da Igreja no Brasil.

II.

Há uma ansiedade difusa entre os católicos: qual o destino da Igreja diante da secularização do Brasil? A Igreja Católica, por meio dos leigos, dos religiosos ou dos sacerdotes, participou de quase todos os momentos cruciais da nossa vida republicana. A Igreja Católica participou da instauração e da derrocada da Ditadura Militar; o relatório Brasil Nunca Mais foi iniciativa também da Igreja; o Partido dos Trabalhadores surgiu em parte das comunidades eclesiais de base. Contudo, desde a democratização a Igreja perdeu boa ou, talvez, a maior parte da sua influência política. Nem os católicos levam em consideração as notas oficiais da CNBB.

Foi a moral católica a organizadora, ao menos nominal, da vida social, vide o número de feriados religiosos de que dispomos, e da legislação brasileira, especialmente no âmbito do direito de família e apesar de a República ser laica desde sua fundação. O exemplo mais explícito é a vedação do divórcio até 1977, que só existiu pela influência da Igreja e ser dogma da Fé a indissolubilidade do matrimônio. A vedação às uniões homoafetivas, mais do que qualquer interpretação da Constituição, art. 226, § 3º, tinha fundamento na compreensão católica do casamento. A vedação à adoção por homossexuais, na verdade, se baseava na compreensão católica da unidade familiar. O que resta de oposição à legalização ao aborto no Brasil se deve à Igreja Católica. Esses são alguns exemplos da reverência que a vida social prestava à moral católica no Brasil.

Essa deferência ao catolicismo no Brasil começou a caducar rapidamente a partir do século XXI, especialmente nos anos 2010. Desde 2008, quando se reconheceu o direito ao aborto do feto anencefálico, a pauta da descriminalização do aborto ganhou tração considerável; a licitude do aborto até o terceiro mês de gestação é matéria a ser, muito provavelmente, provida pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 442. No início dos anos 2010, o Supremo reconheceu o direito dos homossexuais a casarem-se e a adotar; o reconhecimento de direitos à identidade transexual nos últimos dez anos se intensificou consideravelmente. Mais recentemente, a homofobia foi equiparada pelo Supremo ao racismo para fins criminais. Em suma, a deferência ao catolicismo no Brasil retraiu na proporção inversa da implementação das agendas identitárias ligadas ao que os católicos denominam ideologia de gênero.

Essa mudança social súbita deixa questões em aberto que, da perspectiva dos católicos, são inquietantes. Se o aborto vier a ser permitido, por exemplo, qual será o futuro dos profissionais de saúde católicos na rede pública de saúde? Terão direito à objeção de consciência e sob quais condições? Se a homofobia é análoga ao crime de racismo, a Igreja poderá continuar a pregar e os católicos a compreender a homossexualidade como pecado? Se não caracterizar crime, ainda assim será discurso de ódio? Estas questões não têm resposta evidente e, como toda questão irresolvida, causam apreensão.

Há ainda o aspecto demográfico da ansiedade: o número de católicos no Brasil, desde a redemocratização despencou à medida que os protestantes se multiplicaram e ganharam influência. Nos anos 1980 ainda era possível confundir o católico e o brasileiro – em 1980, 88,96% dos brasileiros se declarava católico; segundo estudo da FGV, em 2022 os católicos não serão sequer metade dos brasileiros. Não há mais espaço para confusão entre ser católico e ser brasileiro, ainda que sincreticamente. Nenhuma liderança católica é tratada com tanta deferência no Brasil quanto Edir Macedo e Silas Malafaia. Políticos se empenham em agraciar o eleitorado evangélico e se preocupam com a sua reação, sendo Jair Bolsonaro o exemplo mais explícito. Os católicos vem se tornando minoria religiosa no Brasil e o fato de algumas denominações evangélicas exibirem um anticatolicismo agressivo, como o episódio do chute na santa, agravam as preocupações.

A questão, porém, mais importante não é de diagnóstico, nem de prognóstico: é de identidade. Podemos inclusive dizer que a crise do catolicismo no Brasil se tornou uma crise, por assim dizer, existencial. Se não há mais confusão entre ser católico e ser brasileiro, o que especifica o católico? Se a moral e a cultura brasileiras nem por hipocrisia prestam respeito ao Catolicismo, como o católico deve lidar com essa moral e essa cultura que é indiferente, frequentemente, ou hostil, raramente, aos seus valores?

Por sua vez, as possibilidades de formação católica adequada, no Brasil, melhoraram, o que não deixa de trazer os seus riscos. Para explicar isso, eu tomo a liberdade de fazer uma pequena digressão.

Grosso modo, a formação dos católicos depende das catequeses paroquiais, que ainda não são oficiadas por padres e sua formação teológica, mas por leigos com conhecimento precário do catecismo, das razões mais profundas da sua fé e desassistidos pelas suas dioceses. Com efeito, somente em 2021, pela carta apostólica Antiquum ministerium, a Igreja estabeleceu a necessidade de escolas de formação de catequistas. Noutros termos, durante muito tempo, os brasileiros professaram ser católicos sem ter uma noção muito clara do que professa a Fé da Igreja. A transmissão da doutrina da Igreja foi uma marcha de cegos.

Justiça seja feita, o acesso à apologética, ao magistério e à literatura espiritual católica não era fácil. O costume é que esses materiais fossem vendidos pelas paróquias, que normalmente se atém aos devocionários. Ao mesmo tempo, as livrarias católicas são poucas e as demais não costumam vender livros católicos, tirando um padre Fábio de Melo. Por exemplo, no Rio de Janeiro, todas as livrarias católicas estão concentradas no Centro da Cidade, que não é central na vida dos cariocas.

Essas dificuldades em alguma medida foram mitigadas pela internet. Lojas virtuais, como a Amazon, facilitaram o acesso a livros de apologética e teologia católicas, incentivando a abertura de editoras e a ampliação desse catálogo. Igualmente, as redes sociais ajudaram a divulgação de catequese católica, como aquela empreendida pelo Catequista. Enfim, há podcasts, clubes do livro, páginas no YouTube, e até mesmo um portal de streaming católico no Brasil, o Lumine.

O número de católicos reduziu drasticamente, porém hoje ele tem mais chances de ser melhor instruídos na sua tradição. Isto é bom, porém não é garantia que se formem bons cristãos; isto diz respeito à Fé, mas não às obras. Afinal, os Mestres da Lei sabiam onde o Cristo nasceria e permaneceram com Herodes, mas foram os pastores que largaram tudo e foram a Belém; os demônios creem, mas estremecem (Tg, 2,19). Por que o conhecimento da tradição propiciaria um catolicismo bolsonarista?

Primeiro, o conhecimento da tradição o é dos dogmas e das razões dos dogmas, mas não é impeditivo por si só de uma racionalização por meio dos dogmas. Por exemplo, a Igreja desde meados do século XIX condena o socialismo e o comunismo, o que não impede que se tente usar de sentidos frouxos de um ou de outro para racionalizar posições pessoais como doutrina da Igreja. É o caso por exemplo do que se entende por marxismo cultural, que será tratado mais adiante. Noutros termos, o conhecimento da tradição não impede a performance a partir dela.

Segundo, há uma diferença entre conhecer o magistério e aplicá-lo aos problemas atuais. Na medida em que o Magistério é infalível os seus princípios são sempre os mesmos, o que não significa a mesma aplicação. O melhor exemplo é a doutrina social, que direciona a ação católica, porém exorta que ela se adapte às dinâmicas contextuais do bem comum. Isso, em princípio, seria a tarefa de intelectuais públicos católicos, por exemplo, um Gustavo Corção. Pois bem, prima facie, nada impede uma aplicação, por assim dizer, olavista dos princípios presentes no magistério. A sua refutação seria o papel desses intelectuais públicos católicos. Se não me falha a memória, essa refutação contra o Olavismo só vem do meio dos integristas no Brasil, principalmente por Carlos Nougué.

Terceiro, na sua dimensão prática, a doutrina da Igreja precisa, como toda doutrina, de uma compreensão simultânea dos fatos. O olavismo, como ideologia, é antes de tudo uma factualidade própria, condensada no mito do marxismo cultura. O melhor conhecimento  possível da doutrina da Igreja não basta em uma leitura dos fatos, mesmo que seja uma leitura dos seus próprios fatos.

A Igreja está, no mínimo, em declínio relativo no Brasil sob qualquer ângulo. Por um lado, há a consciência de um passado quando a Fé dos Apóstolos influenciava a política e a moral brasileiras, esta última ainda que fosse apenas de modo formal. Por outro, há a consciência de que se avizinha um futuro quando as instituições garantirão uma moral indiferente, no melhor dos cenários, ou hostil, no pior, às vidas comunitária e familiar dos católicos. Como toda decadência, ela provoca quatro questões: como chegou a esse ponto? O que virá depois? De quem é a culpa? O que fazer? Um catolicismo bolsolavista só existe porque responde essas questões: resposta questionável, mas alguma resposta.

III.

Há alinhamento entre as pautas morais católicas e o bolsonarismo, cujo exemplo mais claro é a oposição à agenda de gênero. É certo que o presidente defende posições insustentáveis no magistério, como, por exemplo, o emprego de violência física contra filhos homossexuais. Contudo, há convergências quanto à naturalidade da unidade familiar, inegavelmente. O presidente também se arvora, com alguma contradição, o representante da oposição ao aborto, provavelmente a pauta moral mais energicamente combatido entre os católicos.

Inclusive, durante as eleições de 2018, o representante de um centro de leigos bolsonaristas em entrevista à emissora francesa Kto TV usou como critério exclusivo em favor de um voto católico em Bolsonaro o seu combate à ideologia de gênero e ao aborto. O fato de Bolsonaro não ser em nenhuma dimensão um católico exemplar, sob qualquer aspecto, era menos importante que essa convergência. Por que seria? Só Deus sabe.

É um alinhamento bastante imperfeito, sem dúvidas, porém tem sua instrumentalidade. A agenda de gênero avança no Brasil por decisões do Supremo Tribunal Federal. Por sua vez, cabe à corte as decisões pessoalmente mais inconvenientes a Jair Bolsonaro, destacadamente o inquérito das fake news. Não só o inquérito devassa um suposto esquema de difamações e mentiras, o Gabinete do Ódio, em benefício do projeto de poder do Presidente: ele ainda investiga asseclas próximos, como o youtuber católico e olavista Bernardo Kuster, além de dois filhos do presidente, Carlos e Eduardo. Nesse ponto, incentivar o antagonismo entre os católicos e o Supremo tem um valor tático indiscutível. Permite racionalizar os interesses pessoais do presidente e outros como causas mais nobres, como a defesa da família, ou até heroicas, como o combate contra o marxismo cultural. É mais fácil exortar as massas ao fechamento da mais alta corte do país em defesa da família e contra o aborto do que em favor da impunidade e da mentira.

Em segundo lugar, no Brasil não há uma vida intelectual católica pujante, apesar do que possa sugerir o número de universidades pontifícias, por exemplo. Talvez pela discussão social ter ficado até os anos 1990 sob o jugo da teologia da libertação, os católicos que não compartilhavam dela migraram para questões mais individuais, uma tendência incentivada pela renovação carismática católica, vide que é muito comum entre os seus padres mais famosos a publicação de obras no limiar da auto-ajuda. Essa disjuntiva entre um individualismo e um coletivismo questionáveis suprimiu o espaço para intelectuais públicos entre os católicos. Alguma reflexão nos termos do Magistério sobre a vida social só continuou nas franjas da Igreja posterior ao Concílio Vaticano II, o Tradicionalismo Católico e sua tradição de tomismo, que por vicissitudes próprias se atém à doutrina social pré-conciliar. Muito certamente, eis a razão de alguns católicos adotarem certo sincretismo ideológico: professam a Fé dos Apóstolos, porém não veem contradição entre ela e sua ideologia de preferência, como o liberalismo ou o socialismo. Com efeito, a oferta de obras intelectuais católicas é bem restrita no mercado brasileiro — quase exclusivamente são estrangeiras.

Inclusive, podemos até supor que a ênfase na agenda de gênero seja uma consequência justamente desse individualismo. Os sexos são o que há de mais individual e a família é a instituição mais próxima do indivíduo. O apagamento de outras posições antagônicas ao Magistério — como as defesas por Bolsonaro da pena de morte e do emprego da tortura — como a universalidade da dignidade humana, até dos presos, só faz sentido por ultrapassar a experiência individual normal das pessoas.

Não significa não haver intelectuais católicos no Brasil, longe disso! O que cabe destacar é a falta simultânea de interação entre eles e de difusão dos seus debates ao público. Faltam foros de diálogo católico, o que nem sempre foi assim entre nós. Por exemplo, o Centro Dom Vital, com sede no Rio de Janeiro, já agremiou nacionalmente a inteligência católica, além de seus debates direcionarem a Ação Católica Brasileira. A revista A Ordem já teve divulgação nacional. Hoje, o Centro Dom Vital, se mantém, com alguma dificuldade, como uma agremiação intelectual de cariocas católicos. Quer dizer, da dimensão nacional o Centro Dom Vital foi à dimensão municipal. Não há como instigar a reflexão católica nacional nessas condições.

Carentes de intelectuais públicos, falta aos católicos quem dê forma às respostas católicas aos problemas brasileiros e à conjuntura dos católicos no Brasil. A ausência de representantes intelectualmente católicos no debate público brasileiro só pode levar a dois resultados: ou o católico escolhe quem represente suas ideias por semelhança ou supõe que não haja quem possa representá-lo. A primeira opção, em princípio, é normal, porém a segunda leva a um problema que, ironicamente, só poderia ser bem explicado por quem pense a Igreja Católica. Por que não haveria representação? Essa alienação entre os católicos e a vida pública os torna suscetíveis a teorias da conspiração, como o marxismo cultural.

Os propositores da ideia da existência de marxismo cultural afirmam que o comunismo se implantou em todos os meios intelectuais: a imprensa, as ciências, as humanidades, organizações internacionais, as artes. Todos que participam delas seriam cúmplices, voluntários ou involuntários, de um plano arquitetado, nos Estados Unidos, pela escola de Frankfurt e, no Brasil, por Gramsci, para minar a cultura ocidental e seus valores cristãos. Esse plano seria do interesse das grandes corporações, pois essa suposta engenharia social enfraqueceria as organizações intermediárias entre os indivíduos, os conglomerados e o estado. Um regime comunista seria muito conveniente aos grandes empresários, ao passo que o povo, desprovido de família e de organização religiosa, seria mantido passivo pela violência do estado e pela compulsão sexual e pela adicção em entorpecentes. Noutros termos, o marxismo cultural é só um protocolo dos sábios de Sião ao gosto moderno.

Essa fantasia, divulgada no Brasil por Olavo de Carvalho, em um primeiro momento, prepararia e, depois, consumaria uma perseguição aos cristãos, primeiro os afastando da esfera pública. Com efeito, o próprio Olavo faz questão de disseminar ou simular apoio a vários hoaxes, como a ausência de risco de contágio por HIV entre heterossexuais, o papel de Adorno como ghostwriter dos Beatles ou o risco sanitário das vacinas.

Primeiro, dá o conforto que só as respostas simplistas a problemas complexos concedem: não deixa espaço para dissonâncias cognitivas. Tudo o que não vêm de adeptos é parte de um esquema das elites globais, por isso, tudo o que não vem deles é ruim. Por isso mesmo, o contato entre os adeptos e aquilo que é de fora do seu círculo se atém à refutação. Noutros termos, como todas as instituições responsáveis pela transmissão de fatos são inidôneas, o adepto da teoria precisa recorrer a outros meios de comunicação, também adeptos do marxismo cultural. Ao fim e ao cabo, o marxismo cultural, no seu nicho, cria uma factualidade paralela.

A maneira como o bolsolavismo lida com a pandemia do Coronavírus é um exemplo perfeito. Primeiro, para o olavismo, a doença não existe: seria um complô entre agências sanitárias, a imprensa e a China para implantar o comunismo no mundo. Depois, a doença não mata, e o próprio Olavo de Carvalho publicou um vídeo dizendo que só se poderia afirmar a morte por COVID após a autopsia detalhada de todos os órgãos da vítima. Ainda mais, para Olavo, o então Ministro da Saúde, Mandetta, deveria ter sido preso por não prescrever o uso de cloroquina, a panaceia universal que salvaria as pessoas da COVID, uma doença que nem existe nem mata. Depois, apesar de COVID, que nem existe nem mata, matar, seria urgente a prescrição de cloroquina, e nocivo mesmo seria o uso de máscaras.

Os católicos não foram imunes às querelas criadas pelos delírios bolsolavistas, por conta da controvérsia sobre as restrições aos cultos públicos durante a pandemia. Com efeito, é uma situação inquietante para os católicos se verem afastados da Eucaristia, presença real do sacrifício de Cristo, porém não é algo impensável nos moldes do Magistério da Igreja. O catecismo defende restrições à liberdade religiosa quando necessárias à promoção do bem comum (CIC 2109), o que talvez seja o caso de uma pandemia que já matou quase seiscentos mil brasileiros. Tanto é assim que diferentes dioceses suspenderam as missas abertas ao público ou as liberaram com restrições, como a administração da eucaristia na mão do fiel. Igualmente, pela necessidade do bem comum e pela recusa de administrar a eucaristia na mão do fiel, a Fraternal Sociedade São Pio X suspendeu a celebração pública das missas.

Essa discussão pode ser proposta de dois modos: um, o razoável; e o outro, o bolsolavista.

Em termos razoáveis a discussão é se a restrição ao culto público é necessária ou se a admissão de missas ao ar livre seriam suficientes para mitigar os riscos sanitários de contágio. Nesses termos, a discussão é sobre o bem comum, como conciliar o interesse coletivo na preservação da vida e o interesse das comunidades religiosas de oficiar seus ritos. Essa é a discussão católica, porque a doutrina social da Igreja é orientada pelo bem comum (CIC, 1905-1910).

A outra opção é supor que as medidas de restrição sanitária sejam uma preparação para uma perseguição religiosa aos cristãos. As medidas de combate à COVID seriam instrumentos para silenciar a Igreja, afastá-la da vida social e contribuir, assim, para a agenda social globalista. Nesse sentido, a COVID-19 seria o pano de fundo de mais uma etapa dos planos globalistas, capitaneados de domesticação dos povos e supressão do cristianismo. O fato de que as medidas sanitárias no Brasil são endereçadas aos cultos religiosos em geral, assim parece, não as descaracteriza como instrumentos de perseguição contra a Igreja Católica.

Segundo, permite gozar do status de vítima. A perseguição aos cristão é um dos objetivos do marxismo global, então o cristão é sempre uma vítima da imprensa, das instituições, das artes, das universidades. A única interpretação razoável é aquela que vitimiza o cristão. Quem questiona a idoneidade moral de quem é uma vítima? Quem pode criticar a vítima por querer se defender? O status de vítima investe as ações da qualidade de um direito de resistência e as afasta da crítica moral. Na medida em que o comunismo é um mal, combate-lo é bom e os meios de combate-lo são justos por si mesmos.

A Igreja Católica se vê em desvantagem diante da teoria do marxismo cultural no Brasil por algumas peculiaridades. Primeiro, a Igreja Católica é bastante institucionalizada, com uma diferença clara entre leigos e a hierarquia dos sacerdotes. Segundo, na América Latina, de fato houve um período de atuação marcante da teologia da libertação, até o começo dos anos 2000. Terceiro, é fato público que o Partido dos Trabalhadores é oriundo em parte das comunidades eclesiais de base desenvolvidas pela teologia da libertação, e um dos propulsores do bolsolavismo é justamente o antipetismo. Quarto, a CNBB foi desde a sua fundação ligada ao clero progressista. Quinto, tornou-se muito difundido o mito de que contra os católicos adeptos do comunismo — que estão de fato em pecado mortal — incidiria a excomunhão automática, e a excomunhão serve para marcar aqueles católicos com os quais, ao menos provisoriamente, os demais não devem manter relações além daquelas ditadas pela caridade cristã.

E o corolário do bolsolavismo continua: por haver um risco interno à Igreja, seria razoável que os católicos atentem contra as autoridades eclesiásticas. Por exemplo, como os católicos devem resistir ao comunismo, nada mais normal que eles interrompam uma missa e ponham em risco a segurança de um padre crítico ao presidente Bolsonaro, pois não cabe aos padres falar de política. Igualmente, é direito dos católicos transformar uma missa liturgicamente questionável em caso de polícia, porque ela seria uma infiltração de pautas esquerdistas no seio da Igreja. Enfim, é até razoável insinuar que o celebrante dessa missa seja gay!

Nesse sentido, entre os católicos, o bolsolavismo pode criar um inimigo interno, uma infiltração da teologia da libertação. As vantagens táticas são várias. Primeiro, como o conceito de comunismo dentro dos marcos do marxismo cultural pode ser praticamente qualquer coisa, quase todo opositor dentro da Igreja pode ser acusado de cumplicidade, até involuntária com o comunismo. Segundo, toda a doutrina ou interpretação dela que contradiga o bolsolavismo é prova da infiltração comunista. Por exemplo, a vedação incondicional da pena de morte, como declarada pelo Papa Francisco, só pode ser pelo apreço dos comunistas aos criminosos. A doutrina social da Igreja sobre a ecologia só pode ser prova da psicose ambientalista e da infiltração de um panteísmo herege na Cátedra de São Pedro. Terceiro, como os contraditores seriam comunistas, estariam excomungados e, por isso mesmo, o melhor é o católico não manter diálogo com eles e suas doutrinas malsãs, devendo ater-se ao contato com os bons católicos, os bolsolavistas.

Da perspectiva dos católicos crentes no marxismo cultural, a teoria ainda tem outra vantagem. Ela produz um bode expiatório: a teologia da libertação, o que quer que se entenda assim. As culpas da decadência da Igreja no Brasil não estaria na inação dos católicos, que pouco se organizaram e pouco estudam sua tradição desde o Vaticano II, mas em um grupo específico e ambíguo deles, os adeptos da teologia da libertação.

IV.

Fato é que o Brasil caminha a passos largos rumo à descatolicização da vida social e isso representa riscos à vivência, comunitária e doméstica, do catolicismo no Brasil. Quais serão os direitos dos católicos nesse Brasil cujos valores não são mais católicos? Como transmitir a Fé dos Apóstolos às próximas gerações? Essas questões, em aberto, são um motivo justo de angústia e esse catolicismo bolsolavista é um sintoma desse estado de coisas. Todavia, a falta de respostas ainda é uma oportunidade, porque permite aos católicos participar da decisão pública. Quais seriam os cursos de ação disponíveis?

A primeira abordagem é aquela da CNBB: fingir que o problema não existe ou ater-se a algumas notas públicas para desencargo de consciência. É certo que seu múnus lhes veda a participação ativa na vida política partidária. Contudo, isso não quer dizer que não devam estimular a participação católica na vida civil. É papel dos herdeiros dos apóstolos incentivar e divulgar as agremiações e instituições católicas: associações profissionais, centros culturais, periódicos, canais de internet. A CNBB, por sua vez, pareceu contar que o Brasil fosse se manter católico pela inércia da devoção popular, que ela também não incentivou.

Não é uma ação sem precedentes no Brasil. Pelo contrário, era a abordagem dos sacerdotes brasileiros durante a primeira metade do século XX, mas enfoquemos o exemplo do Cardeal Leme. Foi por impulso dele que Jackson de Figueiredo criou o Centro Dom Vital, centro de leigos intelectuais do qual participaram Amoroso Lima, Sobral Pinto e Gustavo Corção, para nos ater aos seus nomes maiores. Foi por iniciativa dele que se organizou a Liga Eleitoral Católica, a Ação Católica, a Juventude Católica. A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro ganhou forma por iniciativa dele e do jesuíta Leonel Franca.

A segunda opção é acirrar a divisão entre católicos e a sociedade brasileira. É a opção do catolicismo bolsolavista, que, como seu Senhor Sacral, o presidente Jair Bolsonaro, sobrevive de factoides e divisões artificiais. É a opção que só presta desserviços à Fé por meio de escândalos.

Primeiro, a sua abordagem é o próprio escândalo do falso testemunho. Por exemplo, a narrativa, criada durante a pandemia, de que as medidas sanitárias teriam por fim genuíno a perseguição religiosa. Quem a propaga também incentiva que sejam desrespeitados o uso de máscaras, a lotação adequada de locais fechados, ou que seja boicotada a campanha de vacinação. Isso sem contar os discursos de notórios paladinos da cristandade, como o senhor Roberto Jefferson, que exortou os cristãos na Páscoa a atirarem em policiais que tentassem fechar seus templos. Sem exageros, podemos imputar a tais condutas a pecha de anticatólicas e parte do contágio de um sem número de pessoas.

Segundo, subordina as verdades da Fé à agenda de ocasião do senhor Presidente da República. Por exemplo, usam da teologia do corpo para dizer que Bolsonaro é o único representante dos católicos, mas não consideram como as suas condutas e as medidas do seu governo contradizem a Doutrina. Como todo gnosticismo, o catolicismo bolsolavista suprime as questões. Convém, por exemplo, ao Presidente, que alguns arregimentem os católicos contra o Supremo Tribunal Federal em nome do combate quixotesco ao marxismo cultural e outros moinhos de vento, mas isto não tem nada a ver com qualquer indignação com as decisões da corte a favor da agenda de gênero. Isto lhe é conveniente por querer um Supremo submisso e garantidor da impunidade sua, dos seus filhos e dos seus asseclas. Em suma, a doutrina da Igreja importa até onde não contradiga a idolatria bolsonarista. Talvez isto explique sua obsessão com a teologia da libertação, afinal ela é seu simétrico, odiada por ser um bode expiatório. O catolicismo bolsolavista é apenas uma teologia da libertação sob signo contrário e tão censurável quanto ela.

Terceiro, derivação do segundo, subordina a Fé aos interesses pessoais de um político indiferente a ela na vida pessoal e na vida pública. Subordina a Fé a um homem que não a vivencia, apenas a usa. Por si só, isto não é defendê-la, mas humilhá-la.

Quarto, mune grupos seculares de argumentos para deslegitimar a atuação católica na vida civil. Afinal, se a ação católica fosse isso, um esforço centrífugo de escapar dos ditames do bem comum, um cão de guarda de projetos políticos pessoais, ela seria hostil ao bem comum e suas pautas não seriam razoáveis. Noutros termos, essa abordagem arrisca tornar pior a vida dos católicos em um Brasil descatolizado. Inclusive, não podemos nos furtar a suspeitar que, para alguns, quanto pior melhor. A polarização, como bolsolavismo sabe bem, produz seus dividendos.

A terceira opção seria, usando a expressão de Rod Dreher, a beneditina. Os católicos se ensimesmariam em comunidades próprias, isoladas nas suas regras do restante da sociedade: cada comunidade um Monte Castelo. Antes de tudo, ela é institucionalmente impossível no Brasil, onde praticamente toda a disciplina da vida social é matéria federal. Ainda que fosse possível, não me parece razoável reduzir a Igreja à Tebaida.

A quarta opção é aquela que os católicos brasileiros têm evitado ao longo da Nova República: tentar preservar ao máximo a sua liberdade dentro de um Brasil descatolizado e uma democracia liberal. É questão de prudência reconhecer que nossos valores não orientam mais a república e a sociedade brasileiras e, porém, nada impede a conciliação entre a liberdade da Igreja, sacerdotes, religiosos e leigos, e a república. Falta-nos organização intelectual para formularmos e cívica para darmos as respostas genuinamente nossas aos problemas da república. Como não temos os nossos argumentos, não podemos persuadir ninguém da sensatez do que propomos nem podemos apreciar com boa vontade o que nos propõem. Igualmente, como não temos argumentos nossos não temos quem nos represente nem como julgar sua representação. Por isso, somos sujeitos à instrumentalização da direita ou da esquerda.

A descatolicização do Brasil pode ser passageira ou não, ninguém pode prever. Em qualquer cenário, entretanto, os católicos precisamos nos engajar na vida pública. O Brasil pode nunca mais ser católico, mas, permanecendo no Credo, a vida civil é mais uma oportunidade para o bom combate. O amor a si constrói a Cidade dos Homens, cuja cidadania não deixa de tentar-nos os católicos, pois tendo conhecido Deus, nada garante que o honremos como Deus nem lhe rendamos graças; pelo contrário, somos tentados a nos perder em vãos arrazoados e permanecer com nosso coração insensato nas trevas. Não devemos cair na tentação de promessas de poder sobre os reinos da terra. Nós católicos somos chamados a um amor superior e, por isso, a uma cidadania superior, pois nossa esperança, como peregrinos nesta vida, é rumarmos a vida toda à única Cidade verdadeira.

Daniel Torres

Advogado, bacharel pela UFRJ.

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