PESQUISA

O fim do rap é o funk?

por Lúcio Carvalho (29/04/2013)

Fazer ciência sobre a Atlântida parece ser menos perigoso que adentrar na geografia urbana das cidades

Mano Brown e Valesca Popozuda

Na mesma semana em que a funkeira e dançarina Valesca Popozuda chegou às manchetes dos jornais por outra razão que não seu volume glúteo, um outro fato repercutiu fartamente internet afora (ou seria adentro?) a respeito das musicalidades que vêm das periferias brasileiras. Trata-se da aparição do líder do pioneiro grupo de rap Racionais MC’s, Mano Brown, em um clipe de um gênero aparentemente divergente daquele a que estão acostumados os fãs de suas rimas. Enquanto Brown aparece sem dizer uma só palavra no funk composto pelo MC Pablo do Capão, “Tanto faz, tanto fez“, e Valesca torna-se silenciosamente tema de estudo antropológico na Universidade Federal Fluminense, o estrondo se faz, como sempre acontece quando as fronteiras do “admissível” são ultrapassadas, fidelidades corrompidas e papeis são transgredidos. A amplificação do estrondo não poderia ser maior tendo a periferia como cenário e, como som de fundo, o funk e seu batidão.

Como é sabido, no movimento histórico o rap foi quem sucedeu ao funk, e não vice-versa. Aportado no Brasil em meados da década de 80, o rap custou bastante a mixar-se aos ritmos brasileiros. Ainda hoje, a grande maioria dos grupos e cantores prefere manter a estética e motivos daqueles precursores do gênero, da vertente norte-americana. O gangsta rap foi, desde sempre, um forte veículo de denúncia social e, de longe, o modelo preferencial daqueles que se estabeleceram por aqui. Entre estes, poucos grupos, como os Racionais MC’s, incorporaram tão fortemente o modelo que teve, nos EUA, o Public Enemy como principal expositor. O registro desse momento no Brasil chama-se Sobrevivendo no Inferno, um disco que vendeu mais de um milhão de cópias sem que, à época, uma linha sequer o abordasse na mídia. Hoje, é impossível não reconhecer que se trata de um trabalho com lugar garantido na história da música brasileira. Talvez ainda mais radical, no sentido botânico da palavra, possa encontrar-se apenas o grupo Facção Central, que desde os primórdios do rap dividiu com os Racionais a preferência dos fãs do rap paulista, ou seja, do gênero por excelência.

Momento sempre marcante das apresentações do quarteto da zona sul paulista, Brown nunca furtou-se a discursar diretamente para o público, prolongando ainda mais as noites de rap em pregações prolixas e multiversas. Naquilo que a psicanalista Maria Rita Kehl definiu como a “frátria órfã“, a identificação do público com o discurso não poderia assumir, sob a mesma ótica, outra forma que a de uma relação parental. Daí a reedição da orfandade que se verifica largamente, agora, entre os fãs de rap, após a divulgação do famigerado clipe funkeiro.

Mas será que o rap nacional chegou ao fim, desta vez para valer e justamente nas mãos do gênero coirmão, e através de um de seus principais ícones?

É muito provável que não, porque muito antes da aparição de Brown no clipe e do apogeu de vendas e popularidade do funk carioca, alguns compositores extravasaram os próprios limites do gênero e ajudaram a desfazer o arco da sobrancelha da expressão taciturna e revoltada do rapper convencional. Não custa lembrar especialmente de Rappin Hood e Sabotage, cuja morte completa dez anos em 2013. Ambos flertaram com o samba e com a MPB em registros que ainda hoje fogem aos formatos standard do gênero. Mais recentemente, o rapper Criolo transfigurou a cena ganhando prêmios e flertando com muitos estilos musicais além do próprio samba, como o afro beat, o dub, o reggae e até mesmo com os calientes boleros.

Não é no campo da forma que, entretanto, a ruptura se dá, mas principalmente na discrepância que se estabelece entre um estilo musical recheado por muito discurso e a realidade como ela é. Se a estampa de Mano Brown não poderia ser mais polêmica, talvez lhe faltasse cruzar o abismo entre o “funk alienado” e o “rap engajado”, a fim de descolar-se pelo menos um pouco da imagem de herói da periferia e transparecer com suas predileções reais, doa isso a quem doer, pois até mesmo um ícone pode ter seu gosto pessoal sem precisar dar explicações a ninguém. A repercussão do caso, entretanto, parece não conduzir a essa interpretação. Para os fãs do rap engajado, Brown não poderia ter escolhido pior maneira de reaver sua simpatia pelo funk, o que é interpretado inclusive como “alta traição”. A dor, pelo que se vê, vem da percepção de que não foi o mercado ou a mídia que dobrou seus joelhos, mas a mensagem da futilidade e do machismo, ao qual aderiu por vontade própria, imagina-se que por poder suportar as críticas que nos últimos dias o miraram em cheio. Pelo jeito, para os fãs de rap não se trata de tanto faz, tanto fez…

LEIA MAIS  Anotações sobre "Jesus is King", de Kanye West

Sensação semelhante deve ter percorrido o corpo da estudante Mariana Gomes, que precisou encarar a cara feia de muita gente e críticas enfezadas ao seu projeto de pesquisa, intitulado “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: identidade, feminismo e indústria cultural” (pdf). No caso dela, só mesmo o preconceito pode explicar a dificuldade em aceitar-se como objeto de investigação um fenômeno de massas como a representação de gênero, mesmo que através da expressividade das conhecidas mulheres-fruta e congêneres. Ou outro tipo de purismo sem razão de ser, haja vista que o funk e a cultura periférica já se encontram presentes na antropologia recente desde pelo menos a década de 90, tendo como marcos principais os trabalhos de Spensy Pimentel e Hermano Vianna. É duro crer que, em pleno 2013, fazer ciência sobre a Atlântida perdida possa ser menos perigoso e mais recomendável que adentrar um pouco mais na geografia urbana das cidades brasileiras e seu ethos. Viva-se com isso.

Talvez aqueles que desprezem o rap como forma musical não saibam, mas há purismo no rap também, e muito, como em qualquer outro estilo musical. Acontece que o rap, pelo menos o feito em terras brasileiras, é um tipo de expressão que extrapola um pouco o limite da criação musical, funcionando como um tipo de identidade coletiva extravasada e perfilada ideologicamente, no qual há valores importantes que são compartilhados pelos fãs. Tocar nesses valores, portanto, é algo que só pode ser entendido como uma espécie de profanação, principalmente porque boa parte do seu discurso denuncia não só a violência dos centros urbanos, mas os valores subjacentes a ela, como o consumismo e o machismo, por exemplo. A leitura do funk, por outro lado, é antagônica a do rap. Ela substitui valores morais por coisas e bens materiais e vale-se da ostentação econômica como forma de afirmação de identidades pessoais, em plena oposição à pregação da humildade e da “conduta”, constantes no rap.

Uma análise mais economicista diria que o rap é consequência de uma geração sem grandes perspectivas, marcada pelo marasmo econômico que dominou os anos oitenta enquanto que o funk diria mais respeito a uma trilha sonora de uma nova geração crescida sob a influência da expansão do consumo na era pós plano-real. O que de pior pode acontecer ao rap brasileiro não é uma crise de criatividade, é seu discurso tornar-se desnecessário e ser substituído por coisa nenhuma, ou pouco mais que isso. Há mais ou menos dez anos os Racionais MC’s anunciam o lançamento de um novo CD, enquanto seus integrantes dedicam-se individualmente a outros projetos. Nesse meio tempo, muita coisa surgiu e desapareceu no rap e no funk, assim como na cena musical em geral. É desse caldo de cultura que surgiram coisas complexas como as letras soletradas, por exemplo, por uma Valesca Popozuda. O espantoso mesmo é verificar que há gente que, diante disso, ainda acha que não vale à pena estudar os significados que há numa coisa dessas e em suas implicações humanas e culturais. É de considerar a hipótese de que os assuntos brasileiros despertem pouco interesse diante das emergências de Atlântida ou outros lugares e épocas, sempre mais sedutoras que as tramas e contratempos que se dão nesta terra brasilis.

Lúcio Carvalho

Editor da revista digital Inclusive. Lançou em 2015 os livros Inclusão em pauta e A aposta (contos).