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Esta seria uma história normal sobre adultério, se Jorge Edwards não apresentasse um recurso narrativo interessante

"A origem do mundo", de Jorge Edwards. (Cosac Naify, 2014, 160 pp.)

“A origem do mundo”, de Jorge Edwards. (Cosac Naify, 2014, 160 pp.)

Poucos assuntos são tão interessantes para o público quanto o adultério: basta a sombra de uma traição aparecer que, em pouquíssimo tempo, a sociedade inteira comenta, ridiculariza e julga. A literatura se apropriou deste interesse, e algumas das mais significantes obras literárias se fundam no adultério, nas suas consequências e, em especial, nos gestos tresloucados de ciúme. Impossível não lembrar os dilemas de Madame Bovary, na obra homônima de Gustave Flaubert, pressionada por uma sociedade que sufocava a sua vontade de ser feliz; ou se recordar de Eça de Queirós e O primo Basílio, com o jogo de sedução que acaba por arruinar a família burguesa tradicional e os sonhos de Luísa. Temos ainda o exemplo de Machado de Assis em Dom Casmurro, quando Capitu vira o protótipo da dissimulação feminina, enquanto Bentinho se dilacera com as suas dúvidas.

Todos os exemplos citados possuem uma mulher como adúltera, e não deixa de ser importante notar que a literatura considera a traição masculina como algo natural e a da mulher condenável. Em A origem do mundo, de Jorge Edwards, o adultério (ou a sua incerteza) é o tema central. No entanto, o grande atrativo da obra é justamente a forma desassombrada com que aborda o assunto, inclusive dando direito para a mulher supostamente traidora apresentar a sua “defesa” sobre a acusação formulada. Como tudo que envolve sentimentos, o adultério nunca é somente uma traição; pode ser também ciúmes, inveja, paixão recolhida, imaginação.

A história não poderia ser mais simples: um homem suspeita que o melhor amigo transou com a sua esposa e resolve investigar. A destreza narrativa de Jorge Edwards começa na escolha do cenário, que é a Paris da metade do século XX, um local repleto de dissidentes políticos, artistas e exilados. Muitas experiências pessoais de Edwards acabam transparecendo. Assim como uma das personagens, o escritor chileno apoiou o comunismo, mas se desiludiu fortemente com Fidel Castro e expressou suas discordâncias de forma pública, sendo duplamente renegado, tanto pelo país de onde tinha sido exilado quanto pelos companheiros comunistas do país no qual se exilou. A sua análise dos demais exilados revela um mundo de aparências, de conflitos culturais (o escritor menciona o bom gosto de se vestir típico dos latino-americanos, assim como o seu poder de sedução) e, em especial, de picuinhas pessoais e de discussões políticas nostálgicas, ao ponto deles lastimarem a queda do Muro de Berlim por ser o fato que acabou com as ilusões de que o comunismo era algo viável.

O livro pode ser lido como uma bem construída fábula da época das ditaduras e dos exílios por motivos políticos, inclusive com conclusões bem-humoradas, como a que considera comunistas e surrealistas irmãos ideológicos. Mas Edwards não se detém no aspecto político e faz uma séria reflexão sobre as mudanças que uma pessoa sofre durante o processo de envelhecimento. Este é um tema difícil de ser abordado sem cair na comiseração ou no ridículo. A personagem principal é um homem de setenta anos casado com uma mulher de 45 anos e, por causa desta diferença etária, sente-se inseguro na sua masculinidade e no poder de manter a companheira interessada. Pior ainda: no momento em que suspeita da traição, a personagem mergulha na insegurança, confrontando as pessoas não em busca do que elas sabem, mas daquilo que ele deseja escutar. Da mesma forma, o seu amigo – e suposto traidor – angustia-se ao perder a pulsão sexual e ver uma linda mulher se aproximar com a intenção de lhe cuidar, e não mais de lhe amar. O desespero é tão forte que o conduz ao suicídio. O livro contém uma reflexão sobre o envelhecimento e as inseguranças que ele pode trazer para as relações.

- Jorge Edwards -

– Jorge Edwards –

Como o próprio título menciona, a trama liga-se de forma indelével ao quadro “A origem do mundo”, de Gustave Courbert. Desde o início, a personagem principal desenvolve uma fixação com este quadro, imaginando a esposa como possuidora do órgão sexual feminino retratado. O livro inicia com a análise do quadro e termina com ele se tornando encenado, e aí está uma maneira de enxergar a arte: a representação da vida. O paralelismo estabelecido entre a pintura e a realidade se intensifica quando a personagem encontra, entre os pertences do amigo morto, a foto de uma mulher despida na mesma posição do quadro, e conclui que é a sua esposa. Não só imagina tal fato, mas quer muito que seja, e tal atrito entre ficção e realidade acaba se tornando o grande ponto do livro.

O marido supostamente enganado conduz uma investigação tacanha sobre a “traição” cometida pela esposa mais jovem. É uma pesquisa esdrúxula, pois ninguém sabe do que ele está falando – e se sentem constrangidos diante da exposição das intimidades do casal. A tensão de não achar provas definitivas conduz o homem ao paradoxo de exigir que os outros mintam que ele foi traído e ainda digam os mínimos detalhes desta situação. A sua esposa, que é um ponto de serenidade, confrontada por tamanho interesse do marido pela vida do outro, insinua que o objeto de paixão mesmo não é ela, e sim o amigo “traidor”, o que pode redimensionar o livro para uma forma de luto extremo, em que, para se lembrar do falecido, procura-se encontrar rastros deixados por ele. O problema do ciúme é este: de tanto dar argumentos de que o outro é o melhor, chega uma hora em que todos realmente acreditam nesta hipótese.

Seria uma história normal, contando as dúvidas de um homem sobre o adultério que teria sofrido, se Jorge Edwards não apresentasse um recurso narrativo interessante. No último capítulo, o foco narrativo sai do homem que se imagina traído e vai para a sua esposa. É como se Capitu tivesse o direito de se expressar em Dom Casmurro e fazer um contraponto a Bentinho (aliás, o escritor chileno nutre grande admiração por Machado de Assis, tanto que escreveu um alentado ensaio sobre a sua obra). Até então o leitor estava em dúvida junto com o narrador, mas, agora, a verdade virá à tona. Longe de fazer a narrativa perder em surpresa, o recurso fornece uma nova possibilidade de interpretação para a trama: ao vivermos a vida do outro, não estamos nós, leitores, cometendo um adultério da nossa vida? Não a estamos enganando ao imaginar a existência de outro, mesmo que ficcionalmente?

Assim como a vida não passa de uma sucessão de ficções que criamos para sustentar os dias, a ficção é a melhor forma de gerar um novo projeto. O adultério é algo que nos colocam na cabeça, mas também pode ser o início de uma nova história com os mesmos personagens, e esta é a grande qualidade do livro de Edwards: mostrar que “fim” é um dos nomes que damos para o eterno recomeço da nossa própria comédia.

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.