PESQUISA

Júlio Ricardo da Rosa entrega um excelente romance histórico

"O segredo de Yankclev Schmid", de Júlio Ricardo da Rosa. (Dublinense, 2014, 300 páginas)

“O segredo de Yankclev Schmid”, de Júlio Ricardo da Rosa. (Dublinense, 2014, 300 páginas)

Enquanto os livros de histórias fazem uma varredura dos fatos, a literatura ficcional procura esfatiá-los. Recorta pedaços do tecido temporal de modo a utilizá-los como cenários para personagens constituídos por aspectos e singularidades de pessoas que viveram a época na qual foram alocados.

O segredo de Yankclev Schmid, de Júlio Ricardo da Rosa, está assentado sobre três períodos distintos: a Alemanha da Segunda Guerra Mundial em seus dias derradeiros, a Argentina dos anos 50 e o Brasil militarizado da década de 70. E, a despeito da narrativa multívaga, os atores inventados para povoar a história refletem, com precisão, cada momento a que se contextualizam.

Há, decerto, uma construção minudente de tipos, da conformação física à emocional, que torna o requinte histórico um elemento agregador. Uma inter-relação poderosa entre plano e personagem, que emparelha o romance aos premiados Agosto, de Rubem Fonseca, e Nihonjin, de Oscar Nakasato.

O ano é 1945. Estamos no campo de extermínio de Bergen-Belsen, rasgado em covas expostas. A derrota dos nazistas é iminente e os ingleses avançam contra o território inimigo. Alguns soldados alemães desertam, outros preparam-se para a rendição, porém um grupo resistente aproveita das últimas horas para somar mais mortes às vítimas do Holocausto.

Um desses é o jovem tenente Benno Metzger. Transferido da burocracia para o trabalho operacional, recebe ordens para abater os prisioneiros; “Antes os judeus que nós”. Assim, domado por “essa espécie de mantra”, adentra um dos barracões à procura de sobreviventes.

De repente, descobre uma “forma humana que tentava se esconder entre os defuntos”. Aproxima-se e uma intenção de fuga ocorre. Metzger a detém, prepara-se para atirar, mas o judeu, de uma idade próxima à sua, cai a seus pés e clama por misericórdia. Diz que pode pagar caro por sua vida, que possui algo extremamente valioso para oferecer ao oficial.

Esse é o fio condutor da trama. E, diante do título que faz alusão a um mistério, é preciso que o resenhista tenha cuidado para não entregar demais os acontecimentos sequentes.

Metzger aceita a proposta, embora receie que seja capturado. O judeu, chamado Yankclev Schmid, o instrui a mudar de roupa com um dos mortos, mentir que é um preso recém-chegado. O plano é montado, todavia Yankclev insiste em achar sua irmã, antes de se apresentarem aos Aliados.

LEIA MAIS  Alê Motta e a obra literária na era da sua interrupção

Encontram Ania em condição crítica. A frente inglesa contém médicos que erguem tendas-enfermaria, onde atuam de imediato contra a debilidade dos corpos esqueléticos. Ela se recupera e, dias depois, o trio é colocado num comboio e despachado em Colônia, cidade circunvizinha à terra natal dos irmãos. Daí se inicia a primeira parte da história, governada pela recomposição, pelo asselvajamento, pela fome e, sobretudo, pela astúcia e resiliência do jovem judeu.

Ricardo da Rosa demostra uma capacidade extraordinária de transfundir a realidade na ficção, reconstituindo o painel da guerra, seus vícios e horrores, os aspectos demográficos, sem tropeçar num didatismo histórico. Os homens são os destroços das batalhas, dos bombardeios que ecoam em seus futuros empoeirados. Descrever como lidar com a não-vida, com a queda dos dias, faz com se introverta o ambiente, forçando o leitor a também caminhar pelo mundo em ruína. Isso se dá pelo cuidado com a prosa que leva a uma imersão no texto, paginado numa atmosfera de suspense e drama.

Outro mérito é a ligeireza e a habilidade com que o autor opera as transições de cena, algumas em saltos temporais de décadas. Passado e presente se revezam, sem que se valha de recursos tipográficos ou de reprises para avivar fatos na memória. A fluidez compassa a narrativa.

Desse modo temos Yankclev e Ania na Buenos Aires de matizes europeias e receptiva aos imigrantes (o que aconteceu com Metzer?), agora proprietários de um antiquário e vivendo uma rotina prosaica. Ali iniciam um ciclo de venturas e estabilidade, contudo os fantasmas da guerra voltam a assombrá-los.

Decidem, então, mudarem-se para o sul do Brasil, para a cidade de Porto Alegre. E, nesse novo arco, o romance ganha um ângulo distinto, trocando posições e focos narrativos.

Yankclev, que detinha o papel absoluto de protagonista, passa a ser coadjuvante na história de um jovem médico, orientado pelo bom samaritanismo, que se vê metido no covil de vilanias do regime militar. O jogo de máscaras, que era usado para a sobrevivência, passa a servir a assassinos e traidores. Uma conspiração cujo objetivo é trazer à tona o segredo de Yankclev Schmid, conectar o começo e o fim de uma trama que discute os vários graus de prisão.

Ricardo da Rosa entrega um excelente romance histórico, calcado num severo trabalho de pesquisa, no qual personagens reais e ficcionais se cruzam. Diante da incapacidade de a literatura dar conta da vida, a imaginação cria uma verdade para onde se olhar.

Sérgio Tavares

Jornalista e escritor, autor de Queda da própria altura (2012), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (2010), vencedor do Prêmio Sesc.