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Holocaustos Canibais, Pokémon e baleias azuis

por Carlos Orsi (26/04/2017)

Uma revisão histórica que nos ajuda a pôr o Desafio da Baleia Azul em perspectiva.

Entre 1983 e 1984, a maior ameaça à infância e à adolescência das Ilhas Britânicas e na Nova Zelândia eram as casas de aluguel de videocassetes: ao oferecer versões não-censuradas de filmes de ação e de terror, esses antros de vício e perdição estavam expondo as tenras e impressionáveis mentes juvenis do Reino Unido e de sua ex-colônia a um processo de “dessensibilização” que viria a transformar toda uma geração em psicopatas, estupradores ou coisa pior. Ao menos, era o que diziam os tabloides.

Mas não só eles: cientistas sociais pontificavam com gravidade, citando porcentagens vindas não se sabe de onde, que “mais de 3% das crianças de nove ou dez anos” já haviam assistido àquela obra-prima de Ruggedo Deodato, Holocausto Canibal. Em 1984, um deputado neozelandês pressionou uma série de casas de vídeo a devolver suas cópias de O Massacre da Serra Elétrica à distribuidora. Figuras do gabinete de governo passaram a defender um programa amplo de censura, principalmente em cenas de violência contra mulheres.

A mídia insuflou a onda: revistas publicavam matérias descrevendo como “seu filho passa a noite na casa de um amigo e acaba vendo O Massacre da Serra Elétrica enquanto os adultos estão no bar. Sua menina de 13 anos (…) é exposta a Garganta Profunda”.

A onda moralizante teve alguns efeitos curiosos, como transformar uma obscura peça de trash movie chamada Driller-Killer – sobre um maluco que usa uma furadeira elétrica para torturar e matar suas vítimas – num estrondoso sucesso no mercado de locação neozelandês. Um ex-inspetor da Scotland Yard declarou que os jovens estavam passando a imitar as cenas ultraviolentas dos vídeos, causando “os incidentes mais brutais e violentos jamais vistos”.

Pânico moral é um fenômeno definido como um temor exagerado e irracional que se espalha por uma população, insuflado pela mídia e por “empreendedores morais”, geralmente políticos e celebridades, ou aspirantes à política ou à celebridade, que se apresentam como cruzados, denunciadores do mal, defensores do bem.

De acordo com o livro-texto fundamental sobre o assunto, em pânicos morais “a preocupação sobre a ameaça trazida por desviantes morais e sua abundância numérica é muito maior do que aquilo que pode ser confirmado objetivamente, a despeito de alegações em contrário (…) a maioria dos números citados por ‘criadores de pânico’ são altamente exagerados” (Moral Panics: the social construction of deviance, de Eric Goode e Nachman Ben-Yehuda).

O pânico moral do videocassete ficou no passado, mas não deixa de ter valor didático. Não só por evidenciar uma tríade de fatores comuns nesse tipo de situação – uma nova tecnologia, crianças ameaçadas, insinuações de conspiração (afinal a quem interessa que nossos filhos virem psicopatas?) – como também por apresentar a retórica típica: números aparentemente precisos mas sem fonte, alegações alarmistas de “dessensibilização”, pronunciamentos catastróficos vindos de figuras de autoridade (“os incidentes mais brutais”…).

Antes do pânico moral dos vídeos, houve o das histórias em quadrinhos, o do cinema (jovens imitando os atos de violência que viam nos filmes: em 1938, um psiquiatra disse que “70% dos crimes foram concebidos originalmente no cinema”). Séculos antes, culpavam-se as cafeterias, ou o excesso de tempo livre das classes trabalhadoras, ou maquinações dos judeus.

Pânicos morais também se alimentam de criminosos imaginários. Em 1956, a população da cidade de Taipei, em Taiwan, se viu aterrorizada por um psicopata que, armado com uma navalha, cortava pessoas a esmo na rua, com preferência por mulheres e crianças. Numa característica típica de situações assim, a mídia se absteve de noticiar o assunto até o momento em que a polícia anunciou que estava abrindo uma investigação. A partir daí, terror e sensacionalismo se tornaram a ordem do dia: dois jornais chegaram a “noticiar” que um bebê havia sido castrado pelo retalhador.

No fim, não só não houve morte ou castração alguma, como a análise dos ferimentos de mais de uma dezena de supostas vítimas levou as autoridades à conclusão de que o Retalhador de Taipei era uma figura imaginária: contaminada pelo terror geral, a população estava, simplesmente, atribuindo pequenos ferimentos e incômodos do dia-a-dia à ação do criminoso inexistente.

Nesse meio tempo, no entanto, houve fraudes – uma criança que havia se cortado com vidro quebrado, temendo receber castigo, atribuiu a ferida ao retalhador –, e uma costureira que transportava uma lâmina pela rua quase foi linchada.

Há ainda pânicos que têm uma semente real, mas que ganham proporções alarmantes por uma espécie de contágio. Um caso é a crise do Pokémon de 1997, quando algumas crianças japonesas tiveram convulsões depois de serem expostas a uma sequência do desenho animado em que luzes coloridas brilhavam e piscavam em alta frequência. A cobertura sensacionalista da mídia levou mais de 12 mil outras crianças a informar sintomas que iam de náuseas a dor de cabeça, e atribuí-los ao programa.

A história registra ainda pânicos morais recorrentes, como o dos Palhaços-Fantasma, que supostamente distribuem doces envenenados ou tentam sequestrar crianças, mas desaparecem assim que surge um adulto. Avistamentos desses palhaços do crime parecem ocorrer em ondas, sendo que houve uma bem recente, mas jamais um deles foi preso.

Toda essa revisão histórica, resumida principalmente a partir do livro The Martians Have Landed!: a history of media-driven panics and hoaxes, de Benjamin Radford e Robert  E. Bartholomew, pode nos ajudar a pôr um dos temas candentes do mês de abril – o Desafio da Baleia Azul – em perspectiva.

Para quem perdeu o episódio: a partir do início do mês, as redes sociais e, depois, órgãos de imprensa que gostariam de se imaginar respeitáveis passaram a ser inundados por relatos de que crianças e adolescentes estariam sendo induzidos ao suicídio por um insidioso jogo online, proposto por misteriosos curadores baseados, possivelmente, fora do país. A história desse mito é fascinante em si – ele nasceu na Rússia, no início do ano passado – mas o que nos interessa, aqui, é o modo acrítico e alarmista com que foi abraçado por autoridades e setores da mídia.

Ali, virtualmente todos os elementos do pânico moral se fazem presentes: uma ameaça que é dada como certa antes mesmo de haver dados objetivos a respeito; a mídia que vê a manifestação das autoridades como um tiro de largada para o sensacionalismo; um grau de excitação social totalmente desproporcional aos fatos. Sem falar na presença de um tropo típico do folclore urbano, o “forasteiro perigoso” que ameaça “nossas crianças”. Para se tornar um caso típico só falta o elemento sexual que, temo, não deve demorar muito a surgir, se esse não-acontecimento continuar a angariar atenção.

Como jornalista, fico especialmente perturbado com o papel da imprensa nesses episódios. Pânicos morais recorrentes sobre delinquência juvenil, por exemplo, quase sempre podem ser rastreados até algum ato de irresponsabilidade jornalística, o que só reforça a percepção de que jornalismo é a atividade de separar o joio do trigo, e publicar o joio. A mídia brasileira conta uma distinção especial nesse contexto: o primeiro caso de pânico moral insuflado pelos jornais citado no livro de Goode e Ben-Yehuda é o que levou à Guerra de Canudos.

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Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.