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A farsa pode se repetir – O 16 Vindimiário de Joaquim Benedito

por Lucas Baqueiro (17/04/2018)

A figura que tomou força espontânea foi a de Joaquim Barbosa.

O velho ditado consagra: “cabeça de juiz, fralda de bebê e urna eleitoral, sempre guardam uma surpresa”. Assim, é impossível apontar com integridade o que ocorrerá no primeiro turno dessa eleição presidencial. Podemos, contudo, à semelhança dos astrólogos, munidos dos mapas astrais da história e da ciência política, falar sobre o cenário que se descortina à nossa frente, levando em consideração os dados da pesquisa Datafolha do domingo passado.

Em tudo, o cenário se assemelha às eleições de 1989. Uma verdadeira revolução tinha acontecido com o fim da ditadura militar, um regime do qual o brasileiro médio já havia se cansado. A Constituição de 1988 havia recentemente sido promulgada, ganhando louvores e o epíteto de “Carta da Cidadania”. Um governo altamente impopular estava no poder, o do maranhense José Sarney, com estagnação econômica, escassez de alimentos e inflação galopante. Ninguém protestava, à semelhança do que havia acontecido quatro anos antes com as “Diretas Já”: só esperavam que aquela atmosfera modorrenta e sufocante acabasse, todos contando o tempo para que viessem as eleições.

Aqui, em 2018, uma grande convulsão popular em junho de 2013 (as jornadas de junho, afinal), deu início a um processo de intensa radicalização política. Virou lugar comum, afinal, protestos de rua, debates nas novas ágoras públicas, que são as redes sociais, e intenso acirramento de ânimos. Há dois anos, o longo regime petista, que vinha governando o país desde 2003, foi derrubado pelo parlamento, levando ao poder Michel Temer. O atual presidente, por sua vez, tem feito um governo pífio e acuado por intensas denúncias de corrupção. Ninguém reage, à semelhança do que ocorreu antes, justamente por cansaço, esperando os segundos para a eleição que virá em alguns meses.

Vinte e dois candidatos, à altura, se apresentaram na contenda, concorrendo na primeira eleição direta da Nova República. Sílvio Santos, o maior apresentador do Brasil, pôs o seu nome sob escrutínio, tendo sua candidatura indeferida de última hora. Ilustres desconhecidos, como Manoel Horta, Antônio Pedreira, Celso Brant, Eudes Mattar, Zamir Teixeira, Paulo Gontijo e a primeira candidata mulher, Lívia Maria Pio, se lançaram. Um candidato com uma extensa ficha policial corrida, José Marronzinho – responsável por uma intensa campanha de difamação contra Fernando Henrique Cardoso, apontado como maconheiro, durante as eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985, sob mando de Jânio Quadros – também se apresentou. Foi o début de Enéas Carneiro, apresentando aos holofotes sua feiura somente comparável à verborragia e inteligência. Fernando Gabeira e Roberto Freire, àquele tempo apontados como radicais de extrema-esquerda, se lançaram. Concorreram também Ronaldo Caiado, Aureliano Chaves e Affonso Camargo, nomes destacados na redemocratização, fechando a lista dos menos votados.

À frente, no páreo, estavam: Ulysses Guimarães, grande nome da oposição ao regime militar, presidente da Câmara e da Assembleia Constituinte; Guilherme Afif Domingos, empresário e ex-malufista arrependido, com um dos melhores jingles da história; Paulo Maluf, cuja fama precede o próprio nome; Mário Covas, primeiro candidato do recém-nascido PSDB; Leonel Brizola; Lula; e Fernando Collor de Mello.

Ninguém imaginava o que ia dar. Enquanto Sílvio Santos permaneceu concorrendo à presidência, as pesquisas não conseguiam sequer definir os dois nomes que disputariam o segundo turno – porque Sílvio ameaçava roubar os votos de Collor, e era inconclusivo se o segundo colocado seria Lula ou Leonel Brizola, líder do então maior partido de massas do Brasil, o PDT.

Eram duas as grandes ameaças personificadas à democracia e a tudo que foi conquistado, na visão do populacho comum, da malta ignara. A primeira tratava-se de Leonel de Moura Brizola, um político radical e populista. Embora político experiente, tendo cumprido àquela altura dois mandatos de governador em estados diferentes (governou o Rio Grande do Sul de 59 a 63, e o Rio de Janeiro de 83 a 87), um mandato de prefeito (foi alcaide de Porto Alegre de 56 a 58), promovia profunda radicalização política, era o inimigo número um da imprensa, falava bobagem incessantemente, inventava números, e se colocava como um verdadeiro paladino moral do bom-mocismo. Denúncias de corrupção contra si e sua família apareciam à boca-miúda aqui e ali. Qualquer semelhança com o candidato do mesmíssimo partido, quase três décadas depois, é uma mera coincidência.

A segunda ameaça, mais terrível, era Luiz Inácio Lula da Silva. Era o candidato contra o sistema, que iria virar tudo de ponta a cabeça. Com uma bancada pequena de deputados, sua força não estava nos partidos políticos, mas nos seguidores que acreditavam fielmente na sua cartilha. Sua campanha tomou as ruas; os cidadãos compravam broches, camisas, doavam dinheiro, nada parecido com as empreiteiras que alimentaram seu caixa eleitoral, razão de sua atual prisão. Seu discurso, para seus eleitores, era o mais justo, inquestionável; quem se posicionasse contra ele, estava com os ricos, com os corruptos, contra o povo. Seu background era o de um sindicalista, que ganhou notoriedade fazendo greves e ações por aumento salarial para a sua categoria. Trocada a “ameaça comunista” pela “ameaça fascista”, eis aí o Jair Bolsonaro das primeiras eleições.

Como em toda tragédia, eis que sempre surge o mocinho, pronto para tomar as rédeas da situação e expurgar a ameaça do mal. Esse sujeito veio na figura de Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás. Ex-governador da politicamente inexpressiva Alagoas, ex-deputado federal de atuação congressual chocha, foi alçado a símbolo maior da moralidade pública. Atacava impiedosamente o presidente Sarney, amigo de sua família, que abriu-lhe as portas do PMDB em 86, partido onde Collor exerceu seu primeiro mandato executivo. Falava difícil e distribuía erudição de dicionário em seus discursos. Mostrava um vigor heroico, como um verdadeiro super-homem que libertaria o povo brasileiro de suas mazelas. Seu programa de governo, de difícil compreensão e que foi mal-e-porcamente aplicado, se tornou a opção popular diante do horror simbolizado por Brizola e Lula.

O tempo mostraria que Fernando Collor de Mello aprofundaria ainda mais os problemas do país e agravaria a situação política, passando de primeiro presidente eleito da nova democracia a primeiro presidente a sofrer impeachment.

Os dois candidatos mais centrados da eleição, que não representavam ameaça à estabilidade, foram empurrados para trás na votação, que ocorreu no dia do centenário da República.

O de votação mais alta, Paulo Maluf, tinha em sua ficha um governo incontestavelmente competente, que verdadeiramente mudou a cara do estado de São Paulo. Maluf ainda se jacta, hoje, de suas realizações: “no meu tempo tinha ROTA na rua”; “essa estrada, esse viaduto, o caminho inteiro que você usou para chegar aqui, fui eu que fiz”, são frases comuns encontradas em vídeos ao longo de sua carreira política. Sua política de segurança, que exterminava a bandidagem – deixando, é claro, inúmeros inocentes mortos no meio do caminho – virou modelo no populismo brasileiro de direita. Suas obras faraônicas, que modernizaram a locomotiva do Brasil, também compõem a fundamentação de algumas das suas prisões por corrupção nos últimos anos. Mas, nada disso era o que pesava contra Maluf, que era um candidato que prometia calmaria e seguimento na normalização do Brasil: o que pesava era o fato de ter sido o candidato a presidente, na eleição anterior, pelo PDS, partido das grandes figuras do regime militar.

Logo abaixo dele, estava Mário Covas, que possivelmente teria sido o melhor presidente diante dos seus outros vinte e um concorrentes, mesmo com inúmeras deficiências e vacuidades de plataforma. Mário Covas promovia a ideia da social-democracia européia, da modernidade, que era a coqueluche do momento – algo parecido com o discurso de desenvolvimento sustentável, hoje em voga como a última palavra em se tratando de novidade política. Seu entorno agregava os empresários bem-intencionados. Sua posição era a mais centrista – e por isso, talvez insípida – entre todas as lançadas ali. Covas fez parte da oposição aguerrida na ditadura, integrando a ala dos autênticos do MDB. Teve o mandato cassado, mas deu a volta por cima, fazendo uma boa gestão na prefeitura de São Paulo, sob nomeação de Franco Montoro – naquele tempo, pré-restabelecimento das eleições diretas, os prefeitos de capital eram nomeados pelo governador do Estado. Saiu, por fim, do grande partido governista, o PMDB, para fundar aquele que se colocava àquela altura como a nova plataforma de terceira via, o PSDB.

Fechando a conta histórica, e fazendo um paralelo entre 1989 e 2018, Lula era Jair Bolsonaro, Brizola era Ciro Gomes, Maluf era Geraldo Alckmin, e Mário Covas era Marina Silva. Podem estranhar os amigos equalizar gente de posição tão antagônica, mas o que se aponta aqui é como estavam os candidatos com relação ao cenário.

Maluf, por exemplo, representava o discurso de centro-direita, com pitadas populistas, de segurança, fazendo o tipão do “tocador de obras”. Sua “caixinha” – isso é, as polpudas contas na Suíça – era famosa, mas não era isso que se levava em consideração, mas sim o competente governo que fez em São Paulo. Tal qual Alckmin, que reduziu os índices de homicídio do estado mais rico e populoso do Brasil, e realmente foi extremamente competente no papel que se propôs ocupar. Lula representava o discurso anti-sistema, de mudança, de revolução, de campanha popular, exatamente como está posto Jair Bolsonaro hoje – com a coincidência, de quebra, de todos terem emergido do sindicalismo, do grevismo (para que não se esqueça, Bolsonaro virou manchete pela primeira vez brigando por aumento de salário para os militares). O velho populista de esquerda, experimentado, puta velha na boa gíria baiana, com discurso desenvolvimentista, boquirroto, se enquadra perfeitamente para Brizola e Ciro Gomes, que cônscio ou inconscientemente o emula. A terceira via, o candidato que abandonou o governismo para se redimir com o que parece ser mais moderno, o que dialoga com esquerda e direita, a grande novidade – ainda que cheirando um pouco a naftalina, requentada de eleições – é o mesmo papel que se põem Marina Silva, com a sua novíssima Rede Sustentabilidade, e Mário Covas, com o seu PSDB.

Tivemos nesse cenário, inclusive, o nosso Sílvio Santos, cuja candidatura foi abatida antes de ser testada nas urnas: foi Luciano Huck, sujeito que teria virado as cadeiras da sala de chá da política de pernas para o ar.

Um adendo, aliás, importante, para quem não captou a atmosfera do passado: o PSDB era a grande novidade de 1989. Àquele tempo, se definia publicamente como um partido de centro-esquerda, não se envergonhava de ser social-democrata (ou no jargão olavete, socialista fabiano), e não tinha sido testado nas urnas numa eleição majoritária. Era o que havia de diferente, porque não era o PMDB que decepcionou – apesar de ter emergido dele; não era o então PT radical; não era o brizolismo apaixonado; não era nada daquilo. O PSDB era a nova política, em oposição à velha política. O partido só se transformaria radicalmente com a eleição de Fernando Henrique Cardoso à presidência, na eleição seguinte. O PSDB era a Rede Sustentabilidade, por assim dizer. E ouso arriscar, aliás: Marina Silva, se eleita presidente algum dia, se transformará num FHC por completo, e será empurrada para a direita no imaginário popular – mas, isso é assunto para ser desenvolvido em outro texto.

Karl Marx, embora deficiente à luz da doutrina política que esposo ao apontar a gênese de todos os problemas na luta de classes, soube ler como quase ninguém na história da humanidade a política. Em seu clássico O 18 Brumário de Luís Bonaparte, Marx faz uma leitura sobre como uma revolução popular (a de 1848), à semelhança da revolução francesa de 1789, evoluiu de uma quase-anarquia convulsiva para uma ditadura coroada, levando, em um e outro episódio, Luís Napoleão Bonaparte ao trono francês como o imperador Napoleão III, e anteriormente, o seu tio Napoleão. A síntese da obra se encontra nesse excerto:

Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.

Esse parágrafo célebre, resumido no quote “tudo se repete na história, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”, é o que se encaixa para o cenário que aqui converge nas eleições de 2018, em tudo semelhantes àquela de 1989.

Falta, afinal, identificar o personagem que virá como farsa, que cumprirá a vocação de Fernando Collor de Mello. Acreditava, antes do derretimento de sua candidatura à presidência, que o grande farsante seria João Dória, que desistiu de enfrentar a máquina tucana e lançou-se para o governo do estado de São Paulo, na sucessão de Alckmin. Sem Dória no cenário, a figura que tomou força espontânea foi a de Joaquim Barbosa, que pode vir a ser o nosso Luís Napoleão.

Joaquim Benedito Barbosa Gomes é talhado e esculpido em mármore de Carrara para o papel. Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, tornou-se símbolo do combate à corrupção, tendo enfrentado os dois maiores nêmesis da nação, no imaginário do povo brasileiro, na Suprema Corte em diversas ocasiões: os ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Combate à corrupção, aqui, é o caçador de marajás de antigamente.

Joaquim Barbosa tem ligações com o regime velho, tendo votado sucessivas vezes, publicamente, no Partido dos Trabalhadores, e sido indicado para o excelso pretório pelo presidente Lula. Collor, por sua vez, foi cevado no arenismo do Regime Militar.

Joaquim Barbosa é desconhecido, nada diz, nada promete. A doutrina econômica que melhor casa consigo, ninguém sabe. Qual será o seu gabinete, é uma dúvida que paira no ar. Qual será o seu programa, é um mistério. Mas o que impulsiona sua candidatura é a crença na superioridade moral do Poder Judiciário, que poderia colocar o país nos eixos, corrigir injustiças, prender políticos corruptos. Uma crença falsa, uma vez que esse padrão moral dos tecnocratas jurídicos dos tribunais é uma fraude completa, como vemos diante de salários polpudos, sentenças arbitrárias, usurpação judiciária de competências constitucionais dadas ao parlamento, releituras escabrosas da Carta Magna e do ordenamento jurídico à luz da hermenêutica mais duvidosa, enfim: o Poder Judiciário não está melhor do que ninguém.

Mas, o Brasil do PMDB velho de guerra, dos Eduardos Cunhas e Severinos Cavalcantis, não é a França das duas revoluções, a burguesa e a liberal. Um Napoleão III não se cria e nem se sustenta, diante das nossas aves de rapina, ávidas por poder e por dinheiro. Fernando Collor, que não tinha uma bancada de sustentação no Congresso Nacional, sambou. Nessa roda, um Joaquim Barbosa também entraria, e agravaria mais ainda nossa situação política, à espera de um sujeito sem-graça e metido para começar a colocar as coisas no eixo, um Fernando Henrique Cardoso da vida.

A sorte continua lançada, e tudo pode mudar. Só o vidente Carlinhos, talvez, consiga dizer quem levará essa eleição. Mas, até aqui, o papel de novíssimo Collor tem assentado perfeitamente à mão de Joaquim Barbosa como uma luva.

Se estamos condenados a repetir ad infinitum a mesma história, não se pode dizer. Talvez a consciência popular relembre do passado, e se empurre para escolher um candidato do sistema, como Geraldo Alckmin, ou um candidato da terceira via, como Marina Silva. É possível que resolvamos surtar coletivamente e levar Ciro Gomes ou Jair Bolsonaro ao poder. Mas, se for o nosso fado insistir na burrice, eis que temos um vencedor no 16 Vindimiário (7 de outubro) desse ano.

Lucas Baqueiro

Bacharelando em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia. Licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul.