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Superman é o herói de aspiração por excelência: um órfão cósmico que optou por proteger um planeta perdido num canto qualquer da Via Láctea.

 

Há oitenta anos desta quarta-feira, 18 de abril, um dos artefatos culturais mais significativos do século 20 veio a público: o primeiro número da revista em quadrinhos Action Comics, anunciando em sua capa a primeira aventura do Último Filho de Krypton – Superman, que se disfarça sob a identidade do tímido repórter Clark Kent.

Como costuma acontecer em momentos históricos, naquele momento ninguém se deu conta de que Action Comics #1 abria duas novas eras: a da revista em quadrinhos e a dos super-heróis, que neste século entra em nova fase, inspirando diversos sucessos de público (e alguns de crítica) no cinema.

Outras revistas já haviam sido lançadas antes, mas o mercado de quadrinhos da época era dominado pelas tiras de jornal. O que não é difícil de entender: para ficarmos no ano de 1938, comparar um episódio do Flash Gordon de Alex Raymond – que naquela época liderava uma guerra civil no Planeta Mongo – ou do Príncipe Valente de Hal Foster (lançado em 1937) ao material que saía em revistas como Detective Comics ou Action Comics seria como comparar o mais recente thriller de John Le Carré à última aventura assinada por Dan Brown: há alguma semelhança inegável de gênero, mas o desnível é gritante.

A despeito disso, foi o sucesso de Action Comics, alavancado por Superman, que acabou transformando a revista no meio preferencial de publicação e o super-herói, no protagonista preferencial dos quadrinhos. Qual, então, a mágica do Último Filho de Krypton?

Com o benefício da visão – telescópica? – de oito décadas já passadas, não é difícil enxergar a panóplia de referências que devia habitar a cabeça dos dois dois jovens de Ohio responsáveis por trazer Superman ao mundo: Jerry Siegel e Joe Shuster.

Em 1930, o escritor de ficção científica Philip Wylie havia publicado o romance Gladiator, sobre um homem dotado de força descomunal que encontra sua vocação na guerra; em 1933, o mesmo Wylie, em parceria com Edwin Balmer, lançou When Worlds Collide, história em que um planeta – no caso, a Terra – é destruído, mas do qual um grupo de sobreviventes escapa, a bordo de um foguete.

Em 1934, Lee Falk apresentara ao mundo um herói de quadrinhos dotado de poderes extraordinários – Mandrake, o Mágico. Em 36, o mesmo Falk criava O Fantasma, um herói de traje colante e (algo que chamaria a atenção de satiristas por décadas afio) cuecas por fora das calças, figurino inspirado nas roupas usadas por acrobatas e outros artistas de circo. No universo dos “pulps” – obras de ficção sensacionalista, publicadas em papel barato – os principais heróis eram o destemido cientista Clark “Doc” Savage Jr. e Kent Allard, que combatia o crime sob a identidade de O Sombra.

Ainda antes, em 1919, Johnston McCulley apresentara ao mundo Zorro, herói destemido que se esconde sob a identidade de um janota tímido e incompetente (recurso usado, ainda antes, pelo Pimpinela Escarlate, criação da Baronesa Orczy).

Como no caso do desafio ovo de Colombo, óbvio depois de realizado, não parece espantoso que, desse redemoinho, emergisse o Superman. Mas o herói original tinha pouco a ver com aquele a que as gerações seguintes se acostumaram.

O primeiro Superman não era nada mais do que um bully do bem: numa história, ele sequestra o governador de um Estado americano para forçá-lo a assinar a anistia de um homem condenado injustamente à morte; e em uma de suas primeiras aventuras mais longas, usa sua força descomunal para intimidar o proprietário de uma fábrica de armas, forçando-o a se alistar como soldado raso e a sentir na pele os efeitos do produto que vende.

Aqueles eram os anos de ascensão do nazismo e do fascismo, e a ideia de que um poder acima da lei, mas disposto a fazer a coisa certa, poderia pôr o mundo em ordem provavelmente fazia sentido para muita gente – ainda mais para jovens de ascendência judaica, como eram Siegel e Shuster. A relação entre a perseguição antissemita na Europa do período nazifascista e o sonho de ter superpoderes para consertar o mundo é, aliás, muito bem explorada no romance The Amazing Adventures of Kavalier and Clay, de Michael Chabon.

Com o passar do tempo, porém, Superman foi se domesticando, na mesma medida em que seus poderes cresciam. Originalmente, ele apenas saltava sobre edifícios – não era capaz de voar – e “apenas balas de canhão” poderiam penetrar sua pele.

Anos mais tarde, ele já voava acima da velocidade da luz e sobrevivia a explosões nucleares. Ao mesmo tempo, o respeito pela lei e a disposição em colaborar com as autoridades tornava-se cada vez mais evidente (em parte, provavelmente, por pressão do famigerado Comics Code).

Na década de 70, numa de suas aventuras mais frequentemente reimpressas em antologias – Must There Be a Superman?, de 1972, escrita por Elliot S! Maggin e desenhada por Curt Swan – Superman é levado a confrontar o impacto de suas ações sobre o curso da história da humanidade. O conto conclui com o herói traçando uma distinção entre proteger o mundo e tutelá-lo, e abdicando da segunda opção – uma escolha oposta à do Superman mais fraco e imprudente dos anos 1940, e de inúmeros super-heróis (ou super-anti-heróis) que surgiriam, ou ressurgiriam, na era da “grande desconstrução” dos anos 80, quando, sob a influência de Alan Moore e Frank Miller, o gênero passou por uma cruenta autópsia.

O meu Superman favorito é esse dos dos anos 70, quando as aventuras eram escritas, em sua maioria, por Maggin ou Cary Bates, e quase sempre ilustradas por Swan. Foi a década de minha infância, o que certamente pode ter algo a ver com isso, mas mesmo quando relidas com os olhos adultos de hoje essas narrativas de 40 anos atrás trazem duas características encantadoras que derivam, exatamente, do que muitos críticos consideram o maior problema dessa fase da história do personagem – sua virtual onipotência.

Primeiro, a contenção: o poder com responsabilidade. Não é porque o Superman pode fazer tudo que ele deve fazer tudo. Se as leis da natureza não lhe impõem limites, Superman os impõe a si mesmo. Há coisas que ele não faz e jamais fará. Há meios que nenhum fim justifica.

Segundo, a inteligência: muitas das histórias desse período são puzzles. Todo mundo sabe que o Superman vai salvar o dia. Afinal, ele é o Superman, é isso que ele faz. Está na descrição do cargo. A questão é: como? Que poderes vai usar? De que modo, sem violar seu código pessoal de ética ou as leis dos homens? O fato de seu maior inimigo, Lex Luthor, ser um gênio científico, não um brutamontes cósmico, é bastante sintomático.

O que nos traz à questão da longevidade do personagem, contrastada com sua queda de popularidade em décadas recentes. Se, ao contrário de outros ícones culturais do início do século passado – Tarzan, por exemplo, ou mesmo Zorro – Superman nunca precisou de um revival e sempre teve fãs suficientes para manter sua revista nas bancas, é também verdade que já faz algum tempo que a coisa cool a dizer, num encontro de fãs de quadrinhos, é “sou mais o Batman”.

Por quê?

Vou chutar aqui. Não acho que seja porque o Batman é mais “real” (ele é só um filho de bilionários que treinou a vida inteira até se tornar o cara mais competente do Universo em tudo, e que sai por aí fantasiado de morcego – o que há de inverossímil nisso?). Acho que a chave está numa distinção (que inventei agora, a menos que alguém tenha pensado nisso antes e, neste caso, desculpas) entre heróis “de identificação” e heróis “de aspiração”.

Um herói “de aspiração” é um modelo, um ideal. Você sabe que nunca vai chegar lá; e que sempre que se medir com o padrão que ele define, vai ficar devendo. Superman é o herói de aspiração por excelência: um órfão cósmico que optou por proteger um planeta perdido num canto qualquer da Via Láctea.

É uma criatura cujo único limite é dado pela própria consciência, da qual nunca se desvia. É alguém absolutamente comprometido a fazer omeletes sem quebrar ovos. Que tem serenidade suficiente para ser Clark Kent, um pobre mané assalariado, mesmo tendo o poder de desviar o curso do Rio Amazonas com as próprias mãos.

Já Batman é o herói de identificação clássico: sua identidade secreta (playboy milionário) é divertida. Ele dá porrada. Ele se vinga.  Aceita quebrar quantos ovos forem necessários, desde que a omelete fique boa.

Meu chute é de que, de uns trinta anos para cá, as pessoas passaram a preferir heróis de identificação a heróis de aspiração. “Ser” o Superman é uma responsabilidade terrível. “Ser” o Batman é uma catarse. Logo, Batman. Desconfio de que muitos criadores, de quadrinhos e de cinema, chegaram a conclusões parecidas – daí as tentativas de transformar o Superman num herói de identificação também, criando um Clark Kent mais hipster e um Superman que derruba prédios e quebra pescoços.

Vai funcionar? Taí uma pergunta para os próximos 80 anos.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.