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A Revolta do Subsolo (III): Brexit, Matteo Salvini e Viktor Orbán

por Elton Flaubert (25/04/2020)

A confusão no mundo ocidental abre as brechas para o crescimento geopolítico de regimes autocratas.

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Matteo Salvini e Viktor Orbán

Brexit: a revolta para além da União Europeia

A Segunda Guerra Mundial trouxe a convicção entre muitos de que a construção de uma nova ordem mundial era necessária. Essa nova ordem seria construída através de instituições que afirmassem o direito internacional e estabelecessem parâmetros legais para as relações interestatais. Porém, não só uma instância formal que garanta direitos e deveres entre as nações, mas com três pilares substantivos: prosperidade econômica, direitos humanos e segurança coletiva. Com diversas instituições e mecanismos, nascia a ordem internacional liberal, tendo nos Estados Unidos o papel de principal fiador. Ela viveu o seu auge após a desintegração da União Soviética.

Na Europa, as ruínas do pós-guerra eram simbolizadas por uma Alemanha dividida e envergonhada. No plano partidário, ascendiam duas forças para reconstruir o continente: a democracia cristã e a social-democracia. Com suas diferenças, ambas defendiam a democracia liberal, a economia de mercado, e a nova ordem internacional. Um democrata-cristão será essencial para unir a Europa. Robert Schuman, considerado Servo de Deus pela Igreja Católica, foi o arquiteto da Alemanha Ocidental – fruto da união das zonas de ocupação americana, inglesa e francesa. Em 1950, como ministro francês dos Negócios Estrangeiros, lançou a Declaração Schuman, que propunha a construção de uma autoridade transnacional para cuidar do carvão e do aço na Europa. Dois anos depois, nascia a CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), unindo Alemanha Ocidental, França, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo. Era o início da construção de uma “comunidade europeia”.

A ideia de uma Europa unida por cultura e instituições já vinha desde a Segunda Guerra, contrapondo-se ao nacionalismo racial dos nazistas. Churchill falava na construção de um “Estados Unidos da Europa”. Para o inglês, a civilização se unia nos fundamentos semelhantes das instituições internas, pela sua história e nas bases comuns de cultura. A tradição é a garantia dessa civilização. A experiência é um encontro entre os homens que não pode ser transportada e nem forçada para outros lugares.

Embora Churchill fosse entusiasta da construção de uma comunidade europeia, não pretendia envolver o Reino Unido nesse arranjo transnacional. Churchill repetia as crenças de uma tradicional política externa inglesa de que a ilha da Grã-Bretanha e a Europa continental são distintas em cultura, instituições, e direito, cabendo aos ingleses apenas fomentar laços pragmáticos que equilibrem o poder no continente. Na verdade, o que desejavam os ingleses era uma “união continental da Europa”. O eurocetismo britânico sempre foi tradicional e particular, não se confunde com o continental.

O Reino Unido entrou na União Europeia (na época, CEE) em 1973. Em 1975, um referendo aprovou a sua permanência. O euroceticismo era bipartidário, mas definhava num período de forte comoção pela união do “mundo livre” contra o bloco comunista. Com o tempo, a insatisfação com a UE foi crescendo. A União Europeia ganhou prerrogativas e mais poder. A sua burocracia cresceu e a necessidade de mais financiamento também. A falta de transparência da UE com burocratas desconhecidos decidindo sobre assuntos fundamentais para a vida, a sociedade e a economia do Reino Unido, causava descontentamento. Os custos de adesão também irritavam os ingleses.

A União Europeia – como outras instituições internacionais – foi criada para ser uma arena formal de diálogo e acordos entre países, dirimindo potenciais conflitos. O seu espírito era pragmático, dominado pela formalidade jurídica, estabelecendo direitos e deveres para os entes estatais que assinavam o “contrato social” dessa comunidade. Com o tempo, a instituição foi ganhando novas expectativas. Uma compreensão de que a UE deveria ser afirmativa para além dos acordos jurídicos, unindo valores, compromissos e políticas públicas dos países signatários. Passos deveriam ser dados na construção de uma grande governança continental. Essa visão é utópica porque acredita no papel da instituição como produtora do fim da história, o paraíso liberal que está para chegar. Saturada de grandes expectativas, a UE tornou-se sinônimo da prepotência da ordem liberal triunfante e tornou-se alvo de crítica em muitos países.

O euroceticismo do século XXI explora essa ambiguidade das instituições internacionais. Ele nega a União Europeia como se apenas a abordagem utópica de alguns internacionalistas fosse possível, mas o faz porque tem a sua própria utopia (nativista, localista e, em alguns casos, étnico-racial). O aspecto jurídico, a afirmação do direito internacional, a importância dessa instituição para dirimir conflitos pelo diálogo é recalcada numa disputa entre duas utopias. O novo euroceticismo joga fora o bebê junto com a água do banho.

No Reino Unido, essa confusão foi potencializada. Há uma longa tradição de ceticismo não com a União Europeia, mas com a participação do Reino Unido nela. No entanto, esse espírito foi instrumentalizado por uma rebeldia nativista, vinda direto do “subsolo da existência”. Por isso, o Brexit representou não só a permanência ou a saída do Reino Unido da UE, mas também uma captura mais ampla sobre toda sociedade britânica.

Para compreender a revolta que manuseou o antigo euroceticismo britânico e o transformou – em parte – no euroceticismo do século XXI, precisamos compreender os motivos materiais dos seus eleitores. Podemos identificar três grupos de eleitores do favoráveis ao Brexit: a) a antiga base eleitoral trabalhista do Norte da Inglaterra, região decadente que sofreu com a desindustrialização e os efeitos da globalização liberal; b) um grupo ideológico de irritados com a corrosão da identidade nacional, e que adotou um discurso anti-imigração; c) liberais críticos do poder ampliado e das regulações da União Europeia. O terceiro grupo está vinculado ao tradicional euroceticismo britânico, os outros dois são uma novidade.

A globalização acelerou os processos imigratórios e conectou cadeias de produção. Muitas pessoas se beneficiaram, mas outras ficaram para trás. Várias empresas levaram suas fábricas para países com menores custos dentro da própria União Europeia. A competição aumentou, mas as condições de investimento e de financiamento dependem das regras e instituições nacionais. Além disso, muitos trabalhadores perderam empregos para imigrantes que aceitavam salários menores. Em especial, a indústria pesqueira inglesa foi muito atingida, pois barcos franceses, dinamarqueses, espanhóis, ganharam acesso ao Reino Unido. 30% do que é pescado por franceses são em águas britânicas. Esses eleitores do Brexit acreditam que a globalização – tal como feita – trouxe muitos benefícios para consumidores e alguns grupos, enquanto eles foram deixados para trás.

Regiões industriais antigas – como Sunderland, Birmingham, Wigan, Newcastle – votaram para saída do Reino Unido da União Europeia. A demografia aponta que esse voto foi maior em áreas com baixa renda e maior desemprego, em regiões de desindustrialização, e com grande fluxo de imigrantes da Europa Oriental.

Esses aspectos materiais potencializaram o discurso nativista e anti-imigração. Ninguém soube aproveitar melhor essas circunstâncias do que Nigel Farage, líder do UKIP (UK Independence Party), partido fundado em 1993 e dedicado exclusivamente à saída da União Europeia. Durante as duas primeiras décadas do século XXI, a influência do partido foi crescente em cada eleição para o Parlamento Europeu, ganhando muitos votos de conservadores e trabalhistas. Com a ascensão do UKIP, David Cameron comprometeu-se nas eleições gerais de 2015 com a realização de um referendo sobre a saída da UE. Pressionado por sua base eleitoral, o primeiro-ministro cumpriu a promessa e o referendo foi marcado para 2016. Cameron defendia a permanência na UE com a defesa de reformas internas na instituição.

Uma figura central na campanha para saída do Reino Unido é a do estrategista político Dominic Cummings. Consultor do político conservador Michael Gove entre 2007 e 2014, Cummings era um descrente das velhas estratégias políticas baseadas em dinheiro e autoridade, e um visionário na aplicação de suas teorias sobre os jogos, os riscos, e as redes sociais. Como figura marginal e desacreditada no mundo do marketing político, Cummings ganhou a sua grande oportunidade para triunfar e provar as suas teorias contra as tradicionais elites de Londres. Com dados obtidos das redes sociais de maneira ilegal, Cummings montou uma agressiva estratégia de propaganda de acordo com o público-alvo.

A campanha montada por Cummings construiu três argumentos para persuadir os eleitores. O primeiro era um lema que defendia o uso do dinheiro repassado para a UE no NHS (sistema de saúde pública do Reino Unido). Os conservadores Michael Gove e Boris Johnson deram visibilidade a esse argumento, mas usaram uma cifra (350 milhões de libras por semana) claramente mentirosa. Um ônibus foi pintado com esse argumento e percorreu toda Grã-Bretanha. O segundo argumento foi contra a imigração, pois o Reino Unido teria perdido o controle das suas fronteiras, sendo obrigado a aceitar um grande fluxo através das decisões dos burocratas de Bruxelas. Farage defendia que apenas 50 mil imigrantes por ano deveriam ser aceitos para trabalho. O argumento foi sedutor aos de baixa renda. O terceiro foi um alerta sobre a entrada da autocrática Turquia na UE. Cifras alarmantes foram usadas, como a possível entrada de cinco milhões de turcos como mão-de-obra no Reino Unido até 2030.

A imigração teve um forte apelo para saída da UE. O chão material de desemprego e empobrecimento em várias regiões foi manuseada pela ideologia do UKIP – um partido que ajudou bastante os conservadores ao conquistar os votos de antigos trabalhistas. Nigel Farage se opõe à utopia internacionalista que tomou conta da ordem liberal, mas oferece no lugar um novo tipo de utopia – local, nativa, nacionalista.

A compreensão de que há algo universal, único, comum entre os povos é propriamente cristã. No entanto, na concepção cristã, esse elo só ganha unidade através do que transcende esse mundo. Quando esse “para-além” foi trazido para o aqui e agora desse mundo, a transcendência cristã tornou-se a utopia do futuro reino de liberdade que está para chegar. A utopia internacionalista acredita que as instituições externas são um passo a mais em direção a essa liberdade. Ela acredita que a ordem liberal é o fim da história. A liberdade torna-se um projeto sempre em desenvolvimento em direção ao seu fim. As instituições internacionais seriam um passo para esse reino na integração de políticas públicas e na ampliação dos direitos fundamentais (como se cada grupo estivesse sendo libertado dos grilhões da opressão). As instituições deixam de ter um lastro de experiências que lhe amparam. Essa não é a visão que fundou a UE, mas é usada pelos eurocéticos como se fosse a única opção.

Os novos céticos quanto à construção de uma sociedade internacional negam que a liberdade possa ser internacionalizada porque acreditam que a liberdade política é uma utopia com os olhos voltados para o passado – a realização mítica do seu povo através dos valores do nacionalismo e do nativismo. Esta utopia é local, específica, só pode ser construída pelo seu próprio povo, logo, não pode ser internacionalizada. A resposta dos céticos dirige-se à utopia internacionalista e é tão utópica quanto a dos seus rivais. A reciprocidade é a marca de toda rivalidade.

No lugar da ordem liberal, Farage propõe um outro horizonte de expectativas – uma utopia que se realiza no local, é nativista, e só pode funcionar para um povo específico. A nação ocupa o lugar de Deus. A nação é o que re-liga e universaliza toda história – que não pode ser da humanidade, mas só de um povo específico.

Por isso, Farage afirma que o Brexit é só o começo da revolução política. O objetivo é erodir a autoridade, o papel mediador das instituições, e entregar à vontade abstrata da multidão (o que chamam de ‘povo’) o poder. Farage defende mecanismos de democracia direta, a constante mobilização popular contra as suas elites, a abolição da Câmara dos Lordes, a eliminação da taxa de licença da BBC, e votações para juízes. Seria o novo “contrato social” contra as elites políticas. O exercício do poder pelo caos da multidão sem a mediação das instituições e de suas autoridades. Todos esses compromissos foram inseridos na fundação do Brexit Party – partido construído em defesa da realização do Brexit, mas que não escondia os seus reais objetivos.

A revolução política de Farage é a expressão mais clara da revolta do subsolo no Reino Unido. Uma rebeldia do “homem comum” contra as instituições e suas autoridades, pois tudo que existe merece fenecer. A resposta de um terrível ressentimento contra as elites liberais. O que Farage não desvela é que ao fazer das elites liberais o seu modelo, tornou-se escravo delas. Todas as suas respostas são reciprocidades mal dissimuladas. Como expliquei aqui, o homem no subsolo precisa ocultar o modelo para não demonstrar as suas frustrações com a rejeição.

Boris Johnson, atual primeiro-ministro do Reino Unido, é outra figura interessante dessa revolta. Diferente de Farage, ele é mais oportunista do que ideólogo. Pessoalmente, Boris é um one-nation tory, um conservador que defende a democracia liberal, uma economia de mercado regulada pela solidariedade social, as instituições como fruto da tradição de um povo aperfeiçoada pelo tempo, e políticas sociais para o homem comum. É uma visão orgânica da sociedade, pois esta é compreendida como uma construção particular e local de longa duração, necessitando da construção de um amplo consenso nacional entre classes e grupos. Com a ascensão do liberalismo de Thatcher, esse estilo de conservadorismo mais orgânico e paternal entrou em decadência.

A ascensão de David Cameron no século XXI marcou a volta do estilo one-nation tory. Uma das marcas desse conservadorismo social é a defesa de um sistema público de saúde bem estruturado e com farto financiamento. Como prefeito de Londres, Boris Johnson ascende no partido com uma abordagem mais social e orgânica, atraindo eleitores trabalhistas. O Estado deveria intervir para ajudar as classes mais baixas, revitalizar infraestrutura, garantir saúde, educação, segurança e um salário adequado para todos.

No entanto, diferente de Cameron, Boris deu um novo passo nessa abordagem mais organicista ao apoiar a saída do Reino Unido da União Europeia. Os argumentos de Boris estavam mais relacionados ao euroceticismo britânico clássico (como o de Churchill) do que à revolução política de Farage. O argumento de Johnson era de que o Reino Unido tinha outra tradição de direito e instituição da Europa continental, devendo retomar o seu controle sobre comércio, imigração e leis. Além disso, Boris promete um investimento maciço no NHS, tornando-se a prioridade do governo conservador.

Boris Johnson não é um nacionalista nativista como Nigel Farage, mas um conservador ao estilo de Benjamin Disraeli. No entanto, por motivos próprios do sistema político britânico baseado em distritos, foi o principal beneficiado da revolta conduzida por Farage. Ninguém pode garantir que, no futuro, Boris não seja mais um chamuscado pelas chamas da revolução política vinda do subsolo.

Não existiria Brexit sem um tom eloquente contra imigrantes. Ele poderia ser defendido com argumentos clássicos do euroceticismo britânico, mas a verdade é que o seu triunfo foi conduzido pela ascensão de um novo euroceticismo que traz consequências imprevisíveis e perigosas. A primeira é a ascensão de um nacionalismo localista, anticivilizatório, antiglobal, diferente daquele nacionalismo organicista, etnocêntrico, e global do antigo Império Inglês. A segunda é o reforço ao nacionalismo na Escócia e na Irlanda do Norte, o que pode levar – paradoxalmente – à desintegração do Reino Unido. A terceira é a condução de uma rápida quebra de unidade do Ocidente. Como em política não há vácuo, quem está preenchendo esse vazio é a Rússia de Putin e a China de Xi Jinping. A confusão no mundo ocidental, dominado pela luta fratricida entre utopia liberal e utopia nativista, abre as brechas para o crescimento geopolítico de regimes autocratas. Um dos assuntos mais interessantes da atual Europa é como Putin está quebrando as pernas das democracias liberais jorrando dinheiro para a direita populista ou liberal. Nem os conservadores britânicos escaparam.

Matteo Salvini: a nação como afirmação étnica

Em 1989, o muro caia em Berlim e a ordem liberal montada no pós-guerra entrava no seu apogeu. Pouco mais de mil quilômetros dali, Umberto Bossi fundava, em Milão, a Lega Nord – um movimento separatista que defendia a autonomia do norte italiano. No ano seguinte, com apenas dezessete anos, o jovem Matteo Salvini tornava-se membro do movimento.

Como burocrata, Salvini foi ascendendo no partido até ganhar o seu controle em 2013. Com ele, veio a mudança de abordagem: no lugar do identitarismo regional, o nacionalismo italiano. A Lega Nord não era eurocética, mas se tornou com Salvini. Na eleição para o Parlamento Europeu em 2014, usou o logotipo Basta Euro. Salvini conseguiu tomar o controle do partido quando expurgou Bossi e os seus antigos fundadores. O seu maior sucesso ocorreu nas eleições legislativas de 2018, quando – junto com o Forza Italia de Berlusconi – formou a coligação mais votada.  Essa votação levou à construção de um governo populista com o Movimento 5 Estrelas de Luigi Di Maio e Beppe Grillo.

No novo governo, Matteo Salvini tornou-se Vice Primeiro-Ministro e Ministro do Interior. O seu objetivo era colocar em prática um plano ambicioso para deportação de todos os imigrantes ilegais e na restrição da entrada legal de novos imigrantes. Em 2018, Salvini anunciou a intenção de um censo racial e étnico, com comentários delituosos contra ciganos. Em setembro do mesmo ano, aprovou o Decreto Salvini, que dificultava a proteção social ao imigrante ilegal e facilitava deportações. A rigidez com a imigração veio num momento onde libaneses desesperados buscavam refúgio fugindo de uma guerra civil.

A Itália de Salvini fechou os seus portos no meio de uma crise humanitária porque não reconhece a unidade da humanidade pelo transcendente (“somos todos filhos de Deus”), mas apenas a unidade da nação, dos valores locais, das experiências tribais condensadas e afirmadas pelo tempo. No lugar do reino de liberdade universal e cosmopolita da utopia liberal, Salvini afirma a utopia dos valores locais, da liberdade restrita à nação e a sua cultura.

Entretanto, não é qualquer concepção de nação que é expressa pelos discursos de Salvini. Para ele, nação não é apenas o resultado da cultura de um povo no tempo, sem hibridismos. A nação não é apenas uma construção jurídica, formal. Para o líder italiano, nação é afirmação étnica. Imigrantes de todos os tipos – como ciganos, africanos, etc. – corroeriam a identidade nacional e tornar-se-iam uma ameaça para pátria mesmo que assimilassem a cultura italiana porque degradariam a etnia que formou o espírito nacional. O nacionalismo de Salvini é étnico. Por isso, quando ministro, tentou impor até um toque de recolher contra “lojas étnicas”, ou seja, que vendiam produtos de cultura estrangeira. No nacionalismo de Salvini, o reino da salvação não está mais no para-além, no paraíso a ser desfrutado depois da salvação eterna, mas volta-se para o aqui e agora. No lugar do eterno, o tempo e as suas ruínas. No lugar de um Deus transcendente, a nação. No lugar da salvação, a etnia. A etnia que formou a nação salvará e redimirá os italianos. Salvini é o “comandante” que trará a utopia de liberdade – com os mitos do passado – aqui e agora para os italianos. A utopia nativista dos novos nacionalistas nega a utopia liberal, mas mostra – no fim – como o homem do subsolo se torna escravo do modelo que rejeita.

Nos últimos anos, a xenofobia aumentou na Itália. Dezenas de ataques a negros, estrangeiros e ciganos foram vistos até em estádios de futebol. Os imigrantes se tornaram o bode expiatório da Lega Nord. Era preciso expulsá-los para que a identidade nacional redimisse e reordenasse a sociedade.

Salvini é um entusiasta do The Movement – movimento de Steve Bannon, um velho conhecido nosso, para unir a direita populista e nacionalista pelo mundo. A revista italiana L’Espresso revelou que empresas vinculadas a Vladimir Putin financiaram campanhas da Lega Nord. Putin joga favoravelmente com o nacionalismo continental para desmantelar a antiga ordem liberal e ganhar espaço nesse vácuo de poder.

A “democracia iliberal” de Viktor Orbán

O atual território húngaro foi alvo de muitos conflitos na história. Os húngaros ou magiares vieram dos montes Urais e se estabeleceram na Europa Central no século X. O primeiro rei húngaro, Estevão I, ajudou a disseminar o catolicismo entre os magiares. A partir do século XVI, o Reino da Hungria seria governado pela dinastia dos Habsburgos, o que só acabou após a derrota na Primeira Guerra Mundial. A dinastia Habsburgo controlava vários reinos na Europa continental e teve por muito tempo pretensões imperiais – uma espécie de Império católico que unisse a Europa pelo poder do monarca. Depois de uma transição turbulenta no período entreguerras, veio a dominação comunista até a retirada das tropas soviéticas entre 1990 e 1991.

A Hungria é um elo simbólico entre a Europa Ocidental e Oriental. Os magiares são um povo eslavo, mas católico. Viveram por séculos com a dinastia dos Habsburgo e depois com o comunismo. A sua tradição institucional não é liberal, apesar do seu povo preferir as relações com o Ocidente do que com a Rússia.

A reabertura na década de 1990 foi turbulenta como em outros antigos satélites soviéticos. O parlamentarismo foi o sistema político escolhido para a Terceira República, e os primeiros governos (que eram conservadores) fracassaram na transição econômica.  A crise trouxe o MSZP (Partido Socialista) para o governo e o atiçamento de antigas rivalidades. Nesse contexto, ascende o Fidesz. Um partido de origem liberal que migrou para o nacionalismo a partir da liderança de Viktor Orbán, um dos jovens líderes da reabertura política. Ele monta governo entre 98 e 2002, e depois retorna ao poder em 2010.

Com Orbán, a Hungria passa por profundas e rápidas transformações constitucionais, limitando os direitos fundamentais, a repartição e a independência entre os poderes. O líder do Fidesz conduziu uma rápida centralização de poder. Diferente de Farage e Salvini, o húngaro é um brilhante orador que defende os seus pontos com bastante persuasão. Orbán afirma que a Hungria – por sua tradição – passou de uma “democracia liberal” para uma “democracia iliberal”. Os seus discursos pretendem formular e justificar essa democracia iliberal.

A democracia iliberal seria um sistema político com eleições, escolha de representantes, divisão de poderes, soberania nacional, mas que toda essa estrutura fosse submetida e vinculada a um projeto nacional encarnado numa autoridade pessoal. Dessa forma, os poderes, a imprensa, a liberdade de fala e consciência estão submetidas aos interesses nacionais representados pela autoridade. Esses interesses não seriam caóticos ou arbitrários, mas a encarnação do espírito da nação através do tempo. A oposição ao governo e a independência dos poderes seriam limitadas pelo “espírito da nação” encarnado na figura do seu autocrata.

Em 2014, Orbán fez um famoso discurso explicando o que era a democracia iliberal e porque os húngaros tinham aderido a ela. O Estado não seria mais organizado por um “espaço em aberto a ser preenchido”, ou seja, pelo poder colocado em disputa ao alcance de todos. A organização do Estado e a sua natureza não deveria ser movida ou transformada por eleições, pois possui uma autoridade que é fruto do espírito daquele povo e não está em disputa na sociedade. Ou seja, o diálogo e a disputa democrática são limitados. Os direitos fundamentais não podem ser exercidos contra aquilo que o autocrata encarna. Por essa visão, a liberdade de consciência sem limitação estatal pode colocar em risco o espírito da nação representado na autoridade do líder. Orbán cita Rússia, China, Turquia e Cingapura como modelos.

Orbán fala num poder nacional e cristão. Os povos existem através das nações, e estas ganham substância através da sua cultura histórica. O cristianismo é manuseado não como uma religião da salvação, uma experiência da Cruz que anuncia o Reino noutro mundo, mas como origem de uma cultura. O que importa para o líder húngaro não é a religião, mas a cultura específica e local que se originou dela. Por isso, Orbán fala e justifica a mudança de regime que vem ocorrendo desde 2010 para que o sistema político se encontre novamente com a experiência do povo húngaro: “The regime change as an experience is very valuable because politics – in spite of what people sometimes think – is not a speculative genre. It has to be built from experimental facts and experiences”.

Portanto, Orbán não é um metafísico da política. Pelo contrário, a sua concepção é historicista. Ele acredita que o espírito da nação é imanente à cultura do seu povo, mas é constantemente atualizado de acordo com a situação histórica. Por isso, acredita que, depois da crise financeira de 2008, do identitarismo, dos problemas da ordem liberal, a circunstância histórica conduziria a consciência da nação para outro lugar, levando às alterações do sistema político. Sem interferência do Estado, a classe média desapareceria por meio de um capitalismo descontrolado. Rússia e China seriam modelos para essa adaptação. Diz Orbán: “It was unclear in 2008 during the huge Western financial collapse that we are going to live in a different world from now on”. O primeiro-ministro húngaro não é contra a economia de mercado, mas defende a sua submissão aos interesses nacionais. A função do Estado é construir uma nação bem sucedida e não necessariamente mais democrática:

I would articulate this as a race to invent a state that is most capable of making a nation successful. As the state is nothing else but a method of organizing a community, a community which in our case sometimes coincides with our country’s borders, sometimes not, but I will get back to that, the defining aspect of today’s world can be articulated as a race to figure out a way of organizing communities, a state that is most capable of making a nation competitive. This is why, Honorable Ladies and Gentlemen, a trending topic in thinking is understanding systems that are not Western, not liberal, not liberal democracies, maybe not even democracies, and yet making nations successful. Today, the stars of international analyses are Singapore, China, India, Turkey, Russia. And I believe that our political community rightly anticipated this challenge. And if we think back on what we did in the last four years, and what we are going to do in the following four years, then it really can be interpreted from this angle. We are searching for (and we are doing our best to find, ways of parting with Western European dogmas, making ourselves independent from them) the form of organizing a community, that is capable of making us competitive in this great world-race.

A resposta húngara é abandonar os métodos e os princípios liberais de organização do poder e do Estado. No lugar, princípios de solidariedade social dirigidas por uma autoridade central. Diz Orbán que o princípio liberal significa que “você é livre para fazer o que quiser desde que não viole a liberdade do outro”. Para o húngaro, esse princípio de organização gera assimetrias e individualismos, onde o mais forte predomina sobre o mais fraco. O capitalismo cada vez mais monopolizado através de suas elites seria um exemplo disso. No lugar, Orbán propõe outro princípio: “faça com o próximo o que você faria com você”. O húngaro quer passar a ideia de que a comunidade está acima do indivíduo. E a comunidade só pode ser afirmada na tradição do povo e na autoridade nacional que encarna essa tradição. Por isso, a centralização de poder significa, para Orbán, o fortalecimento da comunidade (o povo húngaro). Apesar das suas críticas à democracia liberal, Orbán diz que é possível construir uma democracia iliberal e permanecer na União Europeia desde que as opções da Hungria sejam respeitadas.

A essência da democracia iliberal de Orbán é a defesa de uma síntese entre aparência de legitimidade gerada por eleições e instituições limitadas por um autocrata. O autocrata – no caso, ele – encarnaria os valores do povo húngaro e o caminho correto para adequá-lo às circunstâncias históricas. Esses valores seriam gerados pela cultura cristã. Orbán acusa corretamente a utopia da ordem liberal de ter abandonado as raízes cristãs das suas instituições. No entanto, a sua resposta a essa ordem liberal não é o cristianismo que busca a redenção e a salvação da alma, mas apenas uma cultura esvaziada de transcendente. No lugar de Deus, Orbán coloca a nação húngara.

A democracia iliberal de Orbán só sobrevive como nacionalismo étnico e não como tradução dos desígnios divinos. Por isso, o primeiro-ministro húngaro começou uma guerra contra a imigração. A entrada de imigrantes passou a ser bastante restrita, e imigrantes ilegais (mesmo refugiados de guerra ou tragédia humanitária) tornaram-se intoleráveis. A autocracia de Orbán perverte a universalidade cristã em tribalismo local para justificar a centralização de poder. A consequência mais nefasta da revolta do subsolo aparece como uma síntese na Hungria: a perversão da Cruz de Cristo, uma transcendência desviada pelos modelos humanos (raça, etnia, nação).

Elton Flaubert

Doutor em História pela UnB.