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O duelo de Quixote e Hamlet

por Juliana Amato (15/04/2020)

Se no personagem Pável, de Turguêniev, é possível identificar Dom Quixote, em Bazárov vemos Hamlet.

Ivan Turguêniev

No fim da edição que li de Pais e filhos, de Ivan Turguêniev (Companhia das letras, 2019, tradução de Rubens Figueiredo), há um texto do próprio autor chamado “Hamlet e Dom Quixote”, de uma palestra proferida em 10 de janeiro de 1860 — dois anos antes da publicação do romance. Nesse texto o autor menciona o surgimento quase simultâneo de Dom Quixote e Hamlet na linha do tempo do mundo afirmando que, “nesses dois tipos, se encarnam as duas propriedades fundamentais da natureza humana — as duas extremidades do eixo em que ela gira”. Ele continua, dizendo que pertencemos a um dos dois tipos, e que sua época certamente — e infelizmente — tinha mais Hamlets que Dons Quixotes.

Turguêniev desenvolve a sua teoria dizendo que:

Todos vivem — de forma inconsciente ou não — em razão de seus princípios, de seu ideal, isto é, em razão daquilo que acreditam verdadeiro, belo e bom. Muitos encaram o seu ideal como algo já de todo acabado, em formas precisas, históricas, estabelecidas; vivem e apreendem sua vida conforme esse ideal, às vezes se afastam dele sob a influência das paixões ou dos acasos — mas não o põem em discussão, não o põem em dúvida; outros, ao contrário, submetem o ideal à analise do seu próprio pensamento. Seja como for, nós, ao que parece, não estaremos muito enganados se dissermos que, para todas as pessoas, esse ideal, o fundamento e o propósito da existência, se encontra ou fora delas, ou dentro delas mesmas: em outras palavras, para cada um de nós, ou é o próprio eu que está em primeiro lugar, ou se reconhece em alguma coisa superior.

A partir disso, apresenta os dois personagens mais marcantes da literatura ocidental de acordo com essa oposição, lembrando de Dom Quixote como a própria encarnação da fé,

a fé em algo eterno, inabalável, a fé na verdade, numa palavra, numa verdade que se encontra fora da pessoa isolada, porém que se entrega facilmente a ela, que exige cultos e sacrifícios, mas um culto acessível e constante, e sacrifícios de peso. Dom Quixote está inteiramente compenetrado da fidelidade ao ideal, em cujo nome é capaz de sofrer todas as privações possíveis e de sacrificar a vida; à sua própria vida, ele só dá valor na medida em que pode servir como um meio para encarnar o ideal, para instaurar a verdade, a justiça, na terra. Alguém me dirá que esse ideal foi extraído do mundo fantástico dos romances de cavalaria pela imaginação perturbada do herói; de acordo — e exatamente nisso reside o aspecto cômico de Dom Quixote; mas o próprio ideal perdura em toda a sua pureza intocada.

Enquanto que Hamlet é retratado como seu oposto, como a incredulidade:

Ele vive totalmente para si, é um egoísta; mas nem o egoísta pode crer em si mesmo; só se pode crer no que está fora de nós e acima de nós. Porém, esse eu em que ele crê não é caro a Hamlet. Esse é o ponto de partida, para o qual retorna sem cessar, porque não encontra em todo o mundo nada a que sua alma possa aderir; é um cético — e vive eternamente preocupado consigo e obcecado por si mesmo; o que o ocupa não é o seu dever mas sim a sua situação. Ao duvidar de tudo, Hamlet, é claro, não poupa nem a si; seu intelecto é desenvolvido demais para satisfazer-se com aquilo que encontra em si mesmo: está consciente de sua fraqueza, mas qualquer consciência de si mesmo é uma força; daí decorre a sua ironia, o oposto do entusiasmo de Dom Quixote.

Turguêniev também afirma que o ridículo de Dom Quixote, até mesmo em sua descrição física, o torna facilmente amável — no entanto, não há quem queira receber tal alcunha —, enquanto a atraente aparência de Hamlet, seus modos distintos e seu ar superior, fazem que a todos agrade serem chamados de Hamlet, ao passo que é impossível amá-lo.

Ler a palestra logo após terminar a leitura do romance foi uma grata surpresa (obrigada, editor!), pois com o enredo e seus personagens frescos na memória foi possível observar o caminho do autor, que colocou a sua teoria em movimento e construiu no enredo de Pais e filhos seu próprio Dom Quixote, seu próprio Hamlet, os dois espíritos da modernidade. Além de criá-los, fez que interagissem, e que chegassem mesmo ao extremo repúdio enfrentando-se em um duelo proposto por Dom Quixote, ou melhor, Pável Petróvitch.

Pais e filhos começou a ser escrito em 1860, no ano da palestra, e foi publicado dois anos depois. Conta a história de um encontro de gerações: o viúvo Nikolai Petróvitch, pequeno proprietário de terras, e Pável Petróvitch, irmão de Nikolai, um refinado ex-integrante do Exército, recebem em sua casa em Márino o jovem Arkádi Nikoláievitch Kirsánov, filho de Nikolai recém-formado na Universidade de São Petersburgo, e Evguéni Vassílievitch Bazárov, amigo de Arkádi, médico formado e niilista convicto, que iniciara Arkádi no movimento da negação de tudo. Enquanto pai e filho se reconhecem e tentam reconstruir a relação depois de anos de separação, os dois agregados funcionam como críticos dos costumes.

Se em Pável é possível identificar Dom Quixote, em Bazárov vemos Hamlet. Em Pável está a admiração diante das artes e pela beleza, enquanto Bazárov tudo critica e põe em cheque, e em seguida tudo despreza. Pável representa a tradição, a vida e o tempo são os seus ideais, a continuidade e a perpetuação — é preciso manter o mundo girando, com tudo o que ele tem. Bazárov traz o rompimento, exalta o niilismo, a vida sem fundamento — ele mesmo na vida, no fim das contas: a referência subjetiva, os critérios próprios, a própria visão e a própria crítica, obedecendo exclusivamente a si mesmo. Uma vida alheia à realidade, diferentemente da vida de Pável, tem um olho no passado para entender o presente e prever o futuro, não para jogá-lo fora.

Na própria descrição física de ambos identifica-se tal diferença de comportamento. Bazárov era

Comprido e magro, de testa larga, alta e reta, de nariz pontudo e curvado para baixo, com grandes olhos esverdeados e suíças pendentes cor de areia, seu rosto ganhava vida graças a um sorriso calmo e expressava auto-confiança e inteligência.

Enquanto que Pável

Aparentava uns quarenta e cinco anos; os cabelos grisalhos, curtos, de pontas arrepiadas, emitiam reflexos escuros, como prata nova; o rosto mal-humorado, mas sem rugas, tinha traços extraordinariamente regulares e distintos, como que entalhados por um cinzel fino e leve, exibindo sinais de uma beleza notável; em especial, eram belos os seus olhos negros, brilhantes, alongados. Toda a figura do tio de Árkadi, elegante e nobre, conservava a graça da juventude e aquela aspiração de ir para o alto, para longe da terra, que na maior parte das pessoas desaparece depois dos vinte anos de idade.

A descrição de Bazárov é enxuta, precisa, sem comparações ou divagações, e ele sorri. Ao mal-humorado Pável, por sua vez, é dedicada uma descrição mais longa, mais romântica e repleta de comparações, unindo o risível — as pontas arrepiadas dos cabelos — ao etéreo — a graça, a aspiração de ir para o alto: um autêntico fidalgo, para lembrar a personalidade em que se inspira, e de fato, durante todo o romance, acompanhamos os modos gentis e respeitosos de Pável, em contraste à ausência de cerimônia e eloquência petulante de Bazárov.

Ao serem apresentadas, colocadas frente a frente, as duas personalidades tão diferentes logo anunciam o estranhamento mútuo:

Nikolai Petróvitch apresentou-o [Pável Petróvitch] a Bazárov; Pável Petróvitch inclinou ligeiramente o corpo flexível e sorriu de leve, mas não lhe ofereceu a mão, e até a enfiou no bolso.

Seguindo a antipatia inicial de Pável, quando Bazárov sai da sala, ele comenta com Arkádi:

— Quem é esse? — perguntou Pável Petróvitch.

— Um amigo de Arkádi e, segundo ele, um homem muito inteligente.

— Vai ficar hospedado em nossa casa?

— Vai.

— Esse cabeludo?

— Sim, ora essa.

Pável Petróvitch bateu com as unhas na mesa.

As batidas das unhas na mesa, sem mais palavras, dão o veredito do desprezo de Pável. E as mesmas unhas não passam batido a Bazárov:

— Que tipo excêntrico, esse seu tio — disse Bazárov para Arkádi, sentando-se de roupão na beira da cama e fumando um cachimbo curto. — Tamanha elegância aqui no campo, quem diria! E aquelas unhas, as unhas deveriam estar expostas numa galeria!

— Você não pode imaginar — respondeu Arkádi —, mas ele foi um grande conquistador no seu tempo. Um dia vou lhe contar a história dele. Foi um belo homem, deixava as mulheres completamente loucas.

— Ah, então é isso! Em honra aos velhos tempos, às lembranças. Infelizmente, aqui não há ninguém para se deixar seduzir. Observei todos os detalhes: aquele colarinho assombroso, que mais parece de pedra, e o queixo barbeado com todo o esmero. Arkádi Nikolaiévitch, não acha isso ridículo?

— Talvez, mas posso lhe garantir que é um homem bom.

— Um fenômeno arcaico! Mas o seu pai é um bom sujeito. Lê poemas sem tirar nenhum proveito, e duvido que saiba como cuidar de uma propriedade rural, mas é um bom sujeito.

A antipatia inicial de Pável em relação a Bazárov justifica-se adiante, quando aquele vai perguntar ao sobrinho Arkádi:

— O que Bazárov é? — sorriu Arkádi. — Tio, o senhor quer que eu lhe diga o que ele é, precisamente?

— Faça-me esse favor, meu sobrinho.

— É um niilista.

— Como? — perguntou Nikolai Petróvitch, enquanto Pável Petróvitch se punha imóvel, a faca erguida no ar com um pouco de manteiga na borda da lâmina.

— Ele é um niilista — repetiu Arkádi.

— Niilista — disse Nikolai Petróvitch. — Vem do latim nihil, nada, até onde posso julgar; portanto essa palavra designa uma pessoa que… não admite nada?

— Digamos: que não respeita nada — emendou Pável Petróvitch e novamente se pôs a passar manteiga no pão.

— Aquele que considera tudo de um ponto de vista crítico — observou Arkádi.

— E não é a mesma coisa? — indagou Pável Petróvitch.

— Não, não é a mesma coisa. O niilista é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com base na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito.

— E o que há de bom nisso? — interrompeu Pável Petróvitch.

— Depende, titio. Para uns é bom, mas para outros é péssimo.

— Está muito bem. Mas, pelo que vejo, isso nada tem a ver conosco. Somos gente do tempo antigo, acreditamos que, sem princípios — Pável Petróvitch pronunciava essa palavra com suavidade, ao estilo francês, ao passo que Arkádi, ao contrário, a pronunciava à maneira russa, “príntsip”, acentuando a primeira sílaba —, sem princípios aceitos, como você diz, com base na fé, não se pode dar nem um passo, nem mesmo respirar. Vou vez changeant toou cela, que Deus lhes dê saúde e o posto de general, mas quanto a nós, nos contentaremos em admirar as futuras realizações dos senhores, os… como os chamou?

— Niilistas — pronunciou com clareza Arkádi.

— Sim. Antes, foram os hegelianistas e agora são os niilistas. Veremos como os senhores vão viver no vácuo, no espaço sem ar; e agora, por favor, me perdoe, meu irmão Nikolai Petróvitch, está na hora de beber o meu cacau.

Nesse breve diálogo, sintético e revelador, vemos a faca erguida — com manteiga na ponta — como elemento quixotesco, uma ameaça inicial que revela-se inofensiva e transforma-se em objeto de riso. No fim, “a hora de beber o meu cacau” confirma aos leitores, não sem certa malícia, o quanto Pável mantinha-se apegado às próprias tradições, mesmo nas coisas mínimas. À poesia de Pável e Nikolai, os pais, contrapõe-se a autonomia e ceticismo de Bazárov e Arkádi — este, que estava se iniciando no caminho niilista. Num questionamento a seu tutor cético, o jovem recém-formado escuta:

— Todo homem deve educar-se a si mesmo… como eu, por exemplo… E, quanto à época, por que eu deveria depender dela? É melhor que a época dependa de mim. Não, meu caro, tudo isso é leviandade, frivolidade! E o que são essas misteriosas relações entre homem e mulher? Nós, fisiologistas, sabemos que relações são essas. Estude a fundo a anatomia do olho: de onde vem esse olhar enigmático, como você o chamou? Tudo isso é puro romantismo, fantasia, podridão, belas-artes. É muito melhor irmos examinar o besouro.

Fica estabelecida assim a oposição, que crescerá e irá culminar no duelo proposto por Pável, em nome da honra daquela casa. Ao leitor, assim como a Bazárov, aquela parece ser uma ideia absurda, mas o Dom Quixote de Turguêniev estava determinado a lutar contra os seus moinhos de vento. Bazárov, mesmo impressionado com a proposta, deixou que Pável fizesse tudo como achasse devido, afinal, não faria diferença interferir em procedimento algum. Mas não deixou de manifestar o seu sarcasmo, parte integrante de seu ser:

— Portanto, tenho a honra de lhe propor o seguinte: bater-se amanhã cedo, digamos, às seis horas, atrás do bosque pequeno, com pistolas; a barreira ficará a dez passos…

— Dez passos? Está bem; nos odiamos um ao outro a essa distância.

Acreditando firmemente em seu heroísmo, Pável também propõe levarem bilhetes nos bolsos declarando a responsabilidade pela própria morte, o que Bazárov rejeita, por soar demasiado inverossímil, “um pouco a romance francês”. O diálogo que precede o duelo entre Quixote e Hamlet, no capítulo 24, oscila entre gravidade e ironia — a maneira como cada um vive a própria vida e enxerga o mundo — e somos obrigados a rir de nervoso, aguardando o terrível fim. Assim, nós, leitores, somos convocados junto com Piotr para testemunhar o evento.

A tensão cresce à medida que o momento se aproxima, o duelo enfim se inicia. Porém, por um vacilo em meio a tão nobre missão, Dom Quixote-Pável Petróvitch, mesmo mirando com atenção, mesmo tendo em mente toda a grandeza de seu ideal naquele momento, não consegue abater o seu inimigo — apesar de chegar muito perto — e leva um tiro na perna, saído aleatoriamente da pistola de Hamlet-Bazárov, que logo corre em sua direção para acudir. Nesse momento Pável ganha toda a simpatia do leitor, que solta um suspiro quixotesco de alívio, pena e compaixão pela situação risível de seu herói desajeitado.

O duelo do amor

Outro aspecto da vida desses personagens que podemos comparar é o amor e sua relação com as mulheres. Arkádi conta a Bazárov que seu tio Pável tivera no passado uma grande desilusão que o fez enlouquecer, perder o rumo e mudar completamente a sua vida, abandonar-se à própria sorte. Ao ouvir tal história, Bazárov desdenha do comportamento do homem:

[…] — No entanto devo dizer que uma pessoa que pôs a sua vida em jogo por causa do amor de uma mulher e que, ao ver que havia perdido a aposta, deixou-se abater e decaiu a ponto de não mais ser capaz de nada, essa pessoa não é um homem, não tem brios.

Depois de ler essa declaração, e observando o comportamento de Bazárov ao longo do romance, o leitor percebe que o personagem vê o amor como um jogo, iguala o sentimento a todas as outras questões do mundo — e, como bom niilista, coloca todas elas abaixo de seu próprio julgamento e de suas impressões. Ele tem duas oportunidades de amar — despreza ambas, pois, assim como o autor fala de Hamlet em sua palestra, “amá-lo é impossível, porque ele mesmo não ama ninguém”. Uma delas é ofensiva à casa que o acolheu, mas não vai adiante; e a outra, em Anna Serguêievna, ele a nega tão logo a percebe possível, viável e atraente. Como ele, Anna via no amor um jogo, e concordou logo em fechar as portas a qualquer oportunidade:

— O que passou, passou — disse ela —, além do mais, para ser sincera, também eu pequei, se não por coquetismo, por algum outro motivo. Numa palavra: seremos amigos como antes. Aquilo foi um sonho, não é verdade? E quem se lembra dos sonhos?

— Quem se lembra? De mais a mais, o amor… enfim, esse é um sentimento falso.

A grande ironia do romance é que logo depois dessa conversa Bazárov adoece, cortando-se ao autopsiar uma vítima de tifo. E é no leito de morte que revelará a Anna o seu amor, a sua redenção, pouco antes de dar o último suspiro. Nenhum dos dois, Pável ou Bazárov, vive a sua história de amor, por motivos totalmente opostos: Pável por acreditar nele e depositar todas as suas fichas, Bazárov por não admiti-lo, por negá-lo e fugir dele. Entre esses dois extremos trágicos (o tragicômico Pável e o trágico-irônico Bazárov — porque não há como fugir da tragédia de ambos) estão Nikolai e Arkádi, fazendo a roda do mundo girar.

Sobre Turguêniev e o romance

Na mesma edição da Companhia das Letras há um ensaio de Henry James sobre Turguêniev, publicado em janeiro de 1884 na revista Atlantic Monthly. Com um texto vibrante, James, que convivera com Turguêniev (uma mesa, num café, com esses dois!) conta como o russo interagia com o mundo à sua volta e como via a arte a que se dedicava.

Pais e filhos teve uma recepção controversa na Rússia do fim do século XIX: ao mesmo tempo que confirmou a fama de Turguêniev e o colocou entre os grandes escritores de seu tempo, o autor foi acusado de ridicularizar a nova geração em relação à geração anterior. Ele estava, na verdade, apenas registrando o que viam seus olhos em meio a mudanças sociais tão importantes da época, pois, segundo Henry James, para Turguêniev “ninguém poderia desejar mais da arte do que ser arte; sempre, invariável e incorruptivelmente arte”. Os dois autores compartilhavam da convicção de que “arte e moralidade são duas coisas completamente distintas”, e que “o único dever de um romance era ser bem escrito; esse mérito abrangia qualquer outro de que ele fosse capaz”.

Isso fica claro na leitura do ensaio sobre Hamlet e Dom Quixote. A partir da observação desses tipos característicos o autor estabeleceu tal tendência e a explorou, com os devidos ajustes, em seu romance. O leitor acompanha, ri e se indigna com o comportamento de ambos — é muito mais fácil a compaixão inicial por Pável, fato, mas a redenção de Bazárov é comovente, assim como acontece aos leitores do engenhoso fidalgo e do nobre atormentado —, e assim não há a “defesa de um lado”, mas a exposição de ambos e de todo o fascínio que despertam as nuances da personalidade humana.

Em uma época em que lemos continuamente nas orelhas e resenhas dos livros que, “com o romance tal, x autorx (sic) pretende fazer uma crítica a…”, vale voltarmo-nos a nossos pais para tentar resgatar a habilidade de criar personagens complexos e narrar, apenas narrar, a sua trajetória. Em uma época em que andamos tão distantes da observação atenta e sem julgamentos, é preciso voltar aos clássicos, como Pais e filhos, para lembrar que não estamos órfãos.

Juliana Amato

Tradutora. Vive em São Paulo. Site: julianaamato.com