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Resenha de "O Professor", de Cristovão Tezza

"O professor", de Cristovão Tezza. (Record, 2014, 240 páginas)

“O professor”, de Cristovão Tezza. (Record, 2014, 240 páginas)

A ficção, vista como a margem de um rio, tem, em sua face oposta, a realidade. Entre ambas, está o curso da memória, uma corrente caudalosa de reminiscências, culpas e devaneios, que banha intensamente os dois lados, extraindo desse movimento literatura.

De Marcel Proust (Em busca do tempo perdido) a James Joyce (Retrato do artista quando jovem), de Samuel Beckett (Primeiro amor) a Fiódor Dostoievski (Crime e castigo), de Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas) a Clarice Lispector (A hora da estrela), a plurivalência do monólogo interno, definido pela associação de ideias descontínuas, pelo livre acesso a latentes declarações e sensações variantes, pela perseguição inútil a uma espécie de redenção final, ganha direcionamentos e densidades através de técnicas capazes de represar esse fluxo e convertê-lo em literatura de qualidade.

Um exemplo formidável é o recém-lançado romance de Ricardo Piglia, Caminho de Ida. Um professor argentino é convidado a ministrar um seminário numa universidade estadunidense, nos anos 1990, e se vê levianamente atado a uma esteira de fatos inexplicáveis, que culmina na morte da diretora do departamento docente (a Ida do título), por quem se sentia seduzido. Embalada por um relato arguto incidido por tintas autobiográficas, a narrativa recorre a ares detetivescos para dissecar a sociedade americana da época, articulando temas variados que envolvem política externa, consumismo, terrorismo e desnaturação da violência. Olhando para as próprias referências, Piglia desvenda o cenário estrangeiro em que ocorre sua ficção.

Em O professor, seu novo livro após um hiato de quatro anos, o escritor catarinense Cristovão Tezza emprega da mesma forma o curso da memória na tessitura de um enredo ficcional. Guardando aspectos aparentados aos do romance de Piglia, pedaços de lembranças de diversas tonalidades se cruzam, fundem-se e se aliam a momentos-chaves e especificidades de um país, evocando um espectro temporal dissipado no processo de composição que parece presentemente acontecer na comunhão com o leitor. A distinção eminente fica por conta da estrutura; instável e desconexa, no caso de Tezza. Não que isso seja mau (muito pelo contrário!), porém evidencia escolhas que tornam o livro emperrado, enfadonho e desestimulante.

Heliseu, um docente de 71 anos, acorda no dia em que será homenageado pela universidade onde lecionou durante grande parte da sua vida. Ainda contaminado pelos efeitos do sono agitado, começa a confabular o discurso de agradecimento, enquanto é acessado por necessidades e distrações corriqueiras. A construção do discurso é a que se resume o romance. Durante esse processo, um sentimento intratável de rivalidade para com o passado desperta culpas, arrependimentos e dúvidas que se intercalam a reflexões sobre o Brasil do regime militar ao período recente, atravessadas por questões contemporâneas e informações de diversas espécies. Heliseu não passa a limpo apenas a própria vida, mas tenta dar conta de fatos além da sua capacidade de decisão.

Desse modo, a narrativa transcorre num turbilhão de ideias descompassadas. As que cabem ao eixo afetivo do protagonista deslindam os relacionamentos malogrados com a esposa Mônica e com Therèze, e mais ainda com o filho homossexual. Flagrá-lo numa cena com um colega o perturba profundamente. E os trechos reservados a entender essa relação são os melhores do livro, em especial aquele em que descreve a autoanulação que se inicia após o nascimento de um filho. Therèze é uma paixão tardia, cuja sensível construção tenta se reapegar, porém o peso do abandono não permite. O casamento com Mônica, por outro lado, infecciona as memórias mais vivas, por conta de um paralelo suscitado por fatalidades e incriminações. Heliseu culpa o pai pela morte da mãe e, anos depois, é visto com suspeita pelo próprio filho em função de um incidente similar. Ou seja, desconcertos emocionais que dariam uma novela impecável, do mesmo porte de Um erro emocional, obra anterior do autor.

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Ocorre que a potência desses momentos acaba por se diluir na insistência por escolhas duvidosas, ao exemplo da obsessão do professor de Filologia Românica pelo português arcaico, principalmente pela queda das consoantes intervocálicas, ocorridas entre os séculos X e XI, tema a que se volta reiteradamente, sem qualquer contribuição maior para o enredo, e acaba por emperrar o andamento do texto. Reflexões sem densidade, tal qual a comparação entre religião e televisão (“a religião é o contrário da televisão”) abrem zonas de frouxidão, ora ocupadas por frases que combinam a indestreza para fritar um ovo à renúncia papal, ora permeadas por um humor frio, sardônico, sobre o qual não haveria qualquer problema, caso o narrador não se preocupasse em retornar ao comentário mais a frente para explicá-lo.

É verdade que, diante de um procedimento que requer um esforço mental, todos somos atacados por um enxame de ideias que vão sendo domadas à medida que o relato vai ganhando forma, porém isso não faz dessas visitações algo necessariamente estimulante. No romance em questão, serve apenas para obliterar o poder do embate entre o protagonista e os fantasmas que lhe assombram.

Tezza é, indubitavelmente, um dos principais escritores brasileiros em atividade, dono de uma prosa forte e engenhosa, em que fica evidente o total domínio sobre a linguagem, capaz, por exemplo, de oscilar a narrativa em primeira e terceira pessoa sem embaralhar a leitura. É notório também uma opção de olhar cada vez mais para si, valendo-se de uma temática que se alimenta da própria biografia, cujo ápice está no multipremiado O filho eterno.

O professor confirma esse direcionamento (e suas referências), aventando a célebre teoria de Jorge Luis Borges de que todo escritor, de fato, escreve um único livro. Um rio, um curso de memória que banha intensamente suas margens, movido também por correntes fracas, mas que não se independem de um fluxo maior com energia para superá-las. Na literatura, não existem águas passadas.

Sérgio Tavares

Jornalista e escritor, autor de Queda da própria altura (2012), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (2010), vencedor do Prêmio Sesc.