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Chomsky e a direita delirante, lado a lado na biblioteca de Bin Laden

por Carlos Orsi (22/05/2015)

O diagnóstico chomskiano de que o império americano põe a sobrevivência da humanidade em risco dissolve-se facilmente nas grandes visões conspiratórias

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Já tem gente nas redes sociais tirando onda com o fato de que dois livros de Noam Chomsky foram encontrados na biblioteca pessoal de Osama Bin Laden, mas devagar com o andor: como todo fã de heavy metal, histórias em quadrinhos e role-playing games sabe, a associação entre ícones e hábitos culturais e o comportamento de seus fãs psicóticos é geralmente injusta, frequentemente penosa e, quase sempre, só vale para o “outro”. Um leitor habitual de Chomsky pode achar um absurdo óbvio que se veja na retórica do autor um estímulo ao terrorismo islâmico, mas talvez não relute tanto em fazer ilações a respeito da presença de um livro de Reinaldo Azevedo na estante de algum pitboy espancador de homossexuais.

O mais curioso da biblioteca de Bin Laden, ao menos para mim, é como ela vara o espectro ideológico: há Chomsky, sim, mas também há um clássico indisputável da ultradireita cristã mais reacionária: o imortal Secrets of the Federal Reserve, de Eustace Clarence Mullins, Jr., ou apenas, como assinava, Eustace Mullins (1923-2010).

Este senhor era um antissemita hidrófobo, um dos teorizadores do “racismo científico” por trás do movimento norte-americano de supremacia branca e um dos pais intelectuais do movimento das “milícias constitucionais” nos Estados Unidos, que na década de 90 preconizou a ideia de que os cidadãos “de bem” deviam se armar e se organizar em milícias voluntárias, numa preparação para resistir à crescente tirania do governo. Esse movimento ganhou impulso após a ação de forças federais contra o complexo do Ramo Davidiano em Waco, Texas, para prender o líder cristão David Koresh, que vivia lá com seguidores fiéis e um harém de meninas de 12 a 14 anos, no melhor estilo dos patriarcas do Velho Testamento. O ataque das forças da lei à fortaleza de Koresh resultou num massacre de 74 pessoas, em 1993.

Mullins também foi amigo pessoal e biógrafo do poeta Ezra Pound (1885-1972), e dizia ter iniciado suas pesquisas sobre a grande conspiração por trás do Federal Reserve – o Banco Central dos Estados Unidos – sob instigação e com apoio financeiro do grande escritor fascista. Fundamentalmente, Secrets of the Federal Reserve descreve uma conspiração para pôr o sistema monetário e de crédito dos Estados Unidos nas mãos de um punhado de magnatas inescrupulosos, empenhados em escravizar o povo americano por meio da emissão de dinheiro de papel sem valor intrínseco e da imposição de dívidas espúrias e impagáveis. Por trás de tudo? A Casa de Rothschild, esse titânico bicho-papão (judaico!) das finanças internacionais.

Antissemitismo também é o forte de Bloodlines of the Illuminati, de Fritz Springmeier, um teórico da conspiração mais contemporâneo que aparece na lista de leituras de Osama Bin Laden. Se a conspiração judaica de Mullins é financeira, a de Springmeier é satânica – literalmente. Ele revela que Satanás, o próprio, estabeleceu 13 tribos demoníacas na Terra, em contraponto às 12 tribos escolhidas de Deus, e que essas tribos ainda hoje governam o mundo em segredo, como os tais Illuminati. Há famílias de origens variadas na lista, mas não se engane: Springmeier se desdobra para apontar que cada uma delas é, no fundo, judaica, ou fruto de miscigenação com judeus.

“A totalidade das 13 famílias é aparentada de vários modos, e suas ascendências remontam à antiga nobreza Europeia, à Tribo de Dan e aos cázaros”, escreve ele. Dan é uma das tribos do Reino de Israel, desaparecida quando esse reino foi conquistado pelos assírios, por volta de 740 AEC. Por algum motivo, ela é a única Tribo de Israel que não tem membros “assinalados” no Apocalipse (7:4-8), o que sugere muita coisa para quem tem tempo para pensar nessas coisas.

Já os cázaros, por sua vez, eram um povo nômade da região do Mar Negro que talvez tenha se convertido em massa ao judaísmo na Idade Média, o que fez com que a identidade étnica/cultural cázara sumisse da história. Esse é um ponto que às vezes suscita algum debate acadêmico entre historiadores, embora a evidência genética atual pareça militar contra a hipótese de que parcela significativa da população judaica de hoje tenha ascendência cázara. Onde se vê mais dessa “Hipótese Cázara”, no entanto, é em teorias de conspiração como a de Springmeier, onde os cázaros e a Tribo de Dan costumam desempenhar o papel de “judeus do mal” (Rothschild, o Estado de Israel, etc.), em contraposição ao “verdadeiro” Povo Eleito, que na verdade é… Bom, enfim.

Outra peça conspiracionista da biblioteca é Conspirators’ Hierarchy: The Committee of 300, de John Coleman, que se apresenta como um ex-agente de inteligência. O livro descreve uma enorme conspiração para o estabelecimento de um governo mundial ateu, e da qual todo mundo – mesmo – faz parte, incluindo os socialistas, os comunistas, os maçons, o governo dos Estados Unidos, a monarquia britânica, ordens religiosas católicas e mesmo a extrema-direita cristã, que na verdade é controlada por “um grupo de homossexuais”. Coleman diz que o objetivo final do “Comitê dos 300” é reduzir drasticamente a população mundial, bloqueando as vias de desenvolvimento econômico e violando o mandamento divino de “crescei e multiplicai-vos”.

E o que todas essas teorias da conspiração estão fazendo na biblioteca do homem que articulou a conspiração seminal deste século? Como bem notou o filósofo Matthew R.X. Dentith, a expressão “teoria da conspiração” tornou-se problemática porque, como vivemos num mundo onde conspirações realmente acontecem, a simples ideia de que se pode jogar uma proposição fora porque ela tem viés conspiracionista não se sustenta – dá até para taxonomizar uma nova falácia retórica, ad coniuratium, o “apelo à conspiração”.

Mas as teorias da conspiração de Mullins, Springmeier e Coleman são de um tipo especial: elas são escaláveis, expansíveis e totalizantes. Começando pelo final: são totalizantes porque tentam abraçar o Universo. Mesmo a de Mullins, que parece ter o objetivo mais modesto de expor a origem do Federal Reserve americano, acaba atribuindo duas guerras mundiais (incluindo ascensão de Hitler), a Revolta dos Boxers na China e a Grande Depressão à ação deliberada de agentes conspiratórios, numa cadeia de atrocidades e conjurações interligadas de fazer inveja à Hidra ou à Spectre.

São escaláveis porque permitem que se encaixem conspiradores sobre conspiradores, conspirações dentro de conspirações, num jogo de bonecas russas: a decisão é do Congresso americano? Não, na verdade é dos banqueiros. Dos banqueiros? Não, na verdade de Rothschild. De Rothschild? Não, na verdade dos judeus. Dos judeus? Não, na verdade dos cázaros. Dos cázaros? Não, na verdade das 13 Tribos Satânicas. Das 13 Tribos? Não, na verdade de Satã em pessoa. E dá para acrescentar Cthulhu acima de Satã, e o Monstro de Espaguete Voador acima de Cthulhu, e o Partido Comunista Venusiano acima do Monstro, e tudo continua funcionando muito bem.

E são expansíveis porque, assim como os mundos ficcionais de onde saíram a Hidra e a Spectre, essas teorias se amoldam para acomodar todo tipo de história, todo tipo de evento, todo tipo de eventualidade. São capazes de absorver retcons e crossovers com maior facilidade que a linha narrativa principal da Marvel Comics. Por exemplo: edição recente da revista Fortean Times (periódico que recomendo fortemente a qualquer um que tenha algum interesse em folclore contemporâneo, ou em acompanhar o produto alucinógeno dos fungos e leveduras que vão digerindo as bordas do zeitgeist) informa que vem ganhando adeptos a tese de que o naufrágio do Titanic foi causado para matar os banqueiros “do bem” que se dirigiam aos EUA para interferir – adivinhe só? – na fundação do Fed.

Essas características – expansividade, totalidade, escalabilidade – pode muito bem explicar a presença concomitante dos delírios de Springmeier e das críticas mais bem embasadas de Noam Chomsky na estante de Bin Laden.

Um diagnóstico como o apresentado por Chomsky em seu Hegemony or Survival – um dos livros da lista de Osama –, de que a hubris imperial norte-americana põe a sobrevivência da humanidade em risco, somada à ideia, também defendida por ele, de que a democracia ocidental é imperfeita, já que guiada e manipulada pelas elites, deixa-se dissolver muito facilmente na matrioska amorfa das grandes visões conspiratórias.

Em seu já clássico, e muito frequentemente citado, ensaio sobre teorias da conspiração, The Paranoid Style in American Politics, o historiador Richard Hofstadter (1916-1970) enuncia o perigo desse tipo de pensamento:

O porta-voz paranoico (…) está sempre defendendo as barricadas da civilização (…) não vê o conflito social como algo a ser mediado e negociado, como o político profissional. Já que o que está em risco é sempre o conflito entre bem e mal absolutos, o que se faz necessário não é transigência, mas a vontade de lutar até o fim.

O que se pode deduzir disso tudo é que Bin Laden provavelmente via a si mesmo como um defensor das barricadas da civilização contra o monstro do imperialismo americano, que talvez fosse apenas um títere de – quem sabe? – as Tribos de Satã. Citando mais uma vez Hofstadter: “Fica difícil resistir à conclusão de que o inimigo é, de muito modos, a projeção do ego; tanto os aspectos idealizados quanto os inaceitáveis do ego são atribuídos a ele”. A advertência de Nietzsche sobre monstros e abismos revela-se, aí, um fato urgente e material.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.