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Em defesa da música clássica contra Leonardo Martinelli

por André Egg (21/06/2012)

Comentário sobre um texto do crítico da revista Concerto a respeito da turnê de André Rieu no Brasil

-- André Rieu --

Leonardo Martinelli é um bom crítico musical – um dos principais em atividade no Brasil. Talvez por isso ele tenha achado que tinha o dever de defender a música clássica do que considera uma ameaça: o kitsch que arrebata grandes plateias e amealha fortunas.

Já aviso de antemão que não conheço a música de André Rieu, não preciso e nem quero conhecer. Faço uma vaga ideia do que seja, pelo que vejo em comerciais ou mesmo pelo texto de Leonardo Martinelli. Entendo que ela não seja o tipo de música que deva preocupar nosso diligente crítico. Não me parece sequer que ela ofereça qualquer ameaça à música clássica.

A música clássica já está, aliás, severamente ameaçada por ela mesma, e não há Rieus que possam piorar a situação. Talvez seja a hora de tentarmos aqui uma definição do que seja música clássica, para sabermos o que se quer (ou não) defender: imagino que Martinelli tenha em mente o grande repertório da tradição oitocentista europeia, levando em conta a temática recorrente dos textos do crítico e da própria revista em que ele escreve, a Concerto.

Talvez o conceito de música clássica pudesse ser um pouco ampliado para incluir a produção do século XX, mas aí começamos a encontrar problemas, porque há uma série de correntes de vanguarda que trabalharam para ameaçar e solapar as bases da tradição clássica, rompendo com o ideal de beleza que ainda está a nortear a pena de Martinelli. Talvez, se a música clássica não estivesse tão preocupada em excluir os compositores contemporâneos da cena musical e repetir ad nauseam o mesmo repertório, não precisaria se preocupar com o exagero apelativo.

Neste sentido, apesar das diferenças no tipo de público e no detalhe com que muitos músicos se especializaram em minúcias interpretativas, o mercado de música clássica não está tão além de André Rieu – e talvez por isso se sinta tão ameaçado. Afinal, que sentido faz continuarmos indo a salas de concerto para ouvir orquestras caríssimas de se manter, se elas não nos trazem nada de novo, nada de significativo para o século XXI? Quem precisa ouvir a trocentésima interpretação daquela sinfonia de Mozart, Beethoven ou Tchaikovski?

Ninguém precisa, muitos ainda querem. Martinelli parece querer nos dizer que todos devem – que o acervo do passado é uma coisa que deve ser preservada com cuidado. É fato que deve, e esse acervo não está sob ameaça, basta ver a miríade de gravações notáveis, edições de partituras, trabalhos musicológicos, biografias e histórias da música – somando-se isso aí à absoluta dominância da música que se ouve “de cor” em salas de concerto por este mundão afora. Salas onde desconfio que tenhamos mais gente preocupada em parecer importante (nesse sentido a comparação com André Rieu é mesmo absolutamente necessária) do que exatamente em fruir a música.

André Rieu é inofensivo, exatamente como Michel Teló, cujo sucesso internacional foi amplamente comentado no último verão (mas duvido que o será no próximo). Leonardo Martinelli parece preocupado com o gosto massivo, com o grande público. No dizer do crítico, todos deveriam ouvir os clássicos em interpretações autênticas, não em uma imitação barata e brega. Que Rieu lote plateias seria símbolo de um atraso, duma falta de intelectualidade, etc.

Que o raciocínio de Martinelli está todo errado ficamos sabendo exatamente na hora em que ele tenta comparar Rieu com o fenômeno literário de Harry Potter. Não li os livros, apenas vi os filmes com minhas crianças, mas desconfio que, em termos de valor estético, haja oceanos de distância entre J. K. Rowling e André Rieu. De modo que não dá muito certo atirar numa coisa tentando acertar em outra. O raciocínio de Martinelli é que ler Harry Potter não levou uma geração a procurar a alta literatura – do mesmo modo, ouvir André Rieu não levaria ninguém a procurar música clássica de verdade.

O problema com esse raciocínio é que ele pressupõe que as pessoas de hoje precisam ouvir música clássica. Não é bem assim. Cada um ouve o que gostar. Não é o homem do século XXI que precisa ouvir música clássica para que as coisas façam sentido. É a música clássica que está precisando achar um jeito de fazer sentido para o século XXI. Desconfio que não será com o repertório do século XIX que isso vá acontecer. E estou certo de que o texto de Martinelli não contribui – não é por remorso que alguém irá se aproximar dos clássicos.


André Egg

Professor da UNESPAR, professor colaborador no PPGHIS-UFPR, colaborador da Gazeta do Povo. Um dos organizadores do livro Arte e política no Brasil: modernidades (Perspectiva, 2014).



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Clarisse Goldberg
Clarisse Goldberg
Excelente análise. O mais curioso é que os que atacam Rieu, criticos ou não, são de uma agressividade impressionante. Não gosta? Não vá, simples assim. Quanto à tentativa da comparação com a série Harry Potter, segue um dado: os livros criaram, sim, uma nova geração de leitores. Esses dados são estatísticos e têm movimentado o mercado editorial. Essa leitura não leva aos grandes clássicos? E por que deveria? Rieu sempre afirmou que não é seu papel levar as pessoas à música erudita. O que ele pretende – e consegue, pude confirmar em seus shows – é proporcionar momentos de emoção… Leia mais »
Leonardo
O texto do Martinelli me pareceu pressupor coisas mais óbvias do que esse conservadorismo ou essa apologia enfezada dos clássicos, que quisesse empurrar à força no mundo música considerada autêntica sob o crivo da crítica. Primeiro, creio que escapou vermos aqui que a acusação do Rieu “ameaçar” a noção de música clássica se refere não a um reacionarismo, mas a algo concreto: embora ele execute arranjos pop, ele anuncia as músicas simplesmente como “Beethoven”, “Vivaldi”, etc. Mas a intervenção dos arranjos é radical demais pra que pudesse haver essa identificação, são arranjos que achatam e mutilam o repertório para o… Leia mais »
Gabriel Araújo
Gabriel Araújo

Parabéns por provar que não sabe nada de música erudita, literatura e arte.

nina
nina
WOOOOOOOOOOOOW WHAAAAAAAAAAAAAAAT? Quem provou o que mesmo, minha gente? O autor do livro ou o Gabriel Araújo? Porque pelo que conheço de -UUUU- música erudita (porque obviamente o autor desse comentário deve se achar muito original por pensar ‘dã, música clássica é do período clássico’, mas obviamente – também – entende lhufas de sociedade e sobre discussões sobre qual seria – inclusive – o termo correto por haver controvérsias até para “música erudita”), literatura (aposto que nasceu lendo kafka, nunca passou a infância e pré-adolescência lendo nada senão kant) e arte (tudo aquilo que provavelmente não sabe definir mas que… Leia mais »
Juliana
Juliana

Na minha opinião, seu texto releva um fato importantíssimo para a compreensão do que Martinelli quis dizer com sua crítica: o próprio crítico é um compositor de música contemporânea, caindo assim por terra a sua hipótese de que o século XIX é o ideal de beleza que o norteia.

Catatau
Catatau
Parabéns pelo texto André! É sempre bom atacar esses extremismos, que não à toa sempre conduzem historicamente no Brasil à figura do intelectual ornamental de sarais, cheio de si e bebendo seu Black Label enquanto aprecia o mar e abstrai as favelas. Mas acho importante notar que valeria sim uma crítica ao popular, tanto quanto ao eruditismo Black Label. Eu gostaria muito de poder ouvir mais trozentésimas interpretações de Bach em orquestras caras multiplicadas mundo afora (e vejo que isso seria uma espécie de necessidade cultural sim, caso pressuponhamos que vivemos atravessados pela dita “cultura ocidental”), pelo simples fato de… Leia mais »
Allan Olimpio
Allan Olimpio
Críticas: 1) “Talvez o conceito de música clássica pudesse ser um pouco ampliado para incluir a produção do século XX, mas aí começamos a encontrar problemas, porque há uma série de correntes de vanguarda que trabalharam para ameaçar e solapar as bases da tradição clássica, rompendo com o ideal de beleza que ainda está a nortear a pena de Martinelli.” – Você deveria conhecer um pouco mais o trabalho do Leonardo como compositor, e aí você verá que a linha estética de composição dele não tem nada a ver com esse ideal de tradicionalista e anti-contemporâneo. Você atribui a ele… Leia mais »
Marcos
Marcos
Sinto discordar da sua análise. O Leonardo Martinelli além de jornalista é compositor, e faz justamente a música do século XXI a que você se refere. E as apresentações do Sr. Rieu no Brasil, com ingressos a 600 reais, são muito mais caras que os concertos de música clássica, que em grande parte são mais baratos que ir ao cinema, e tantos outros têm entrada franca. Outro dado é que em grandes temporadas, como a da Osesp, há sempre encomendas de novas obras a compositores e um número considerável de peças dos séculos XX e XXI. Concordo que a música… Leia mais »
nina
nina

Lembrando que música do séc.XXI não é exatamente música feita no séc.XXI.

Leandro Pires
Leandro Pires
Pelo que entendi, você não conhece André Rieu, não conhece o trabalho do Martinelli e não leu os livros do Harry Potter. Então qual é o seu ponto de partida? Leonardo Martinelli não defende uma única vez em seu texto o repertório tradicional que ouvimos em sala de concerto, ele fala da música de forma geral.Que há pessoas que vão por status a salas de concerto, isso é verdade, mas não é sobre isso que estamos falando, são problemas que existem, mas não é o teor da crítica de Martinelli. Para artistas autênticos, que querem se expressar através da arte,… Leia mais »
Marcel Oliveira
Marcel Oliveira

“Já aviso de antemão que não conheço a música de André Rieu, não preciso e nem quero conhecer.”
“Não li os livros [do Harry Potter], apenas vi os filmes com minhas crianças, mas desconfio que…”
“…o ideal de beleza que ainda está a nortear a pena de Martinelli.”

Prontinho, já perdeu a oportunidade de ficar quietinho e refletir um pouquinho mais. Abraços!

luis
luis

Talvez ele nem tenha lido o artigo do Martinelli…

Leonardo
Creio que além de tudo o André partiu do conteúdo geral da Revista Concerto para supor que a tal defesa da música clássica que o Martinelli estaria fazendo era algo reacionário, ignorante da própria música erudita contemporânea e suas próprias transgressões a qualquer paradigmatismo conservador. A partir disso o André engaja uma crítica que é de fato pertinente com a aituação geral da música clássica, com uma petição de princípio em favor da música contemporânea. Mas o grande problema é que o Martinelli não foi defensor de paradigmatismo nenhum, pois ele próprio é compositor moderno, e tudo o que fez… Leia mais »
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