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A evolução e seus descontentes

por Carlos Orsi (27/06/2017)

O islamismo do governo turco viu a trabalheira que os fanáticos cristãos do Ocidente estão tendo e não quer ter de passar por isso.

Junho está se mostrando um mês eclético em termos de recepção pública da ciência. Iniciou com a mídia fazendo fanfarra para a anunciar a publicação de mais uma evidência concreta de evolução biológica envolvendo a espécie humana, encontrada no Marrocos, e termina com a notícia de que o governo da Turquia proibindo o ensino da evolução nas escolas de segundo grau.

Começando pelo começo: a revista Nature, na primeira semana do mês, trouxe dois artigos discutindo a descoberta de fósseis humanos, datados de 300 mil anos atrás, no Marrocos. A imprensa em geral deu mais atenção à questão da datação – se ela estiver correta, sugere que o Homo sapiens teria entrado em cena cem mil anos antes do que indicavam descobertas anteriores – mas o fato é que os crânios encontrados têm face compatível com a dos seres humanos atuais, mas uma caixa craniana diferente, mais alongada, o que sugere que o formato e a função do cérebro evoluíram dentro da linhagem do Homo sapiens.

De acordo com os autores da descoberta, citados em nota do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, mudanças evolutivas na caixa craniana estão provavelmente ligadas a mudanças genéticas que afetam a conectividade, a organização e o desenvolvimento do cérebro, fatores que “distinguem o Homo sapiens de seus parentes e ancestrais extintos”.

Duas semanas depois da publicação na Nature, a cerca de 4 mil quilômetros do sítio marroquino de Jebel Irhoud, onde os fósseis foram encontrados, o ministro da Educação da Turquia, Alpaslan Durmuş, anunciou que a teoria da evolução seria excluída do currículo do ensino médio porque, segundo citação no jornal britânico The Guardian, “essas questões estão além da compreensão dos estudantes”.

Durmuş explicou que o capítulo sobre evolução seria removido dos livros didáticos de biologia, e o tema, transferido para os cursos superiores. Em janeiro deste ano, o vice-primeiro-ministro turco Numan Kurtulmuş havia dito que a evolução era uma teoria “arcaica e refutada”.

É claro que os ataques à evolução na Turquia são parte da agenda política de islamização do país – assim como a recente aliança entre a Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, e o think-tank criacionista americano Discovery Institute faz parte de uma tentativa de reafirmar o caráter cristão da instituição.

A meta declarada dos fundadores do Discovery Institute é substituir o que eles acreditam ser a visão de mundo hegemônica hoje no Ocidente – ateia, materialista, marxista, freudiana, darwinista, caótica – por uma visão cristã, encantada, divina, plena de propósito. O criacionismo, que oferecem sob o tênue disfarce de Teoria do Design Inteligente, é apenas uma ferramenta de propaganda para isso.

Aqui é importante notar que “criacionismo”, em geral, tem duas acepções. A menos usada no debate público hoje em dia é a que eu chamaria de criacionismo metafísico, a ideia de que o Universo tem sua origem na vontade de um ser sobrenatural. Ela é provavelmente a posição default de boa parte da população. Mais importante para o assunto aqui, ela pode ser formulada de modo a não entrar em atritos óbvios com a ciência e o método científico (a lubrificação está longe de ser perfeita, no entanto, mas isso é outra história).

A segunda acepção, que podemos apelidar de criacionismo efetivo, é a que vê a explicação baseada na vontade sobrenatural como existindo no mesmo plano, e portanto como concorrente direta – quando não superior – à dada pela ciência e pelo método científico.

O que deixa aberta a questão de por que os fanáticos não se satisfazem com o criacionismo metafísico e deixam a evolução em paz. Meu palpite é que o recuo ao criacionismo metafísico torna a vida dos apologistas religiosos muito mais difícil: em especial, ela bombardeia dois dos argumentos favoritos dos teólogos de fim de semana, o “deus das lacunas” e a “teologia natural”.

“Deus das lacunas” é uma espécie de preguiça mental disfarçada em teologia. Basicamente, você aponta para uma lacuna no conhecimento humano (ou no conhecimento de seu interlocutor) e diz que foi deus que fez. Se o interlocutor insistir perguntando como e por quê, você faz um ar indignado, condena a arrogância dos que ousam questionar o senhor, solta alguns clichês sobre linhas tortas, caminhos misteriosos, e estamos conversados.  Mas, embora a evolução preencha algumas lacunas, não acaba com elas. Aqui, o bombardeio da evolução é apenas relativo.

Já “teologia natural” é a ideia de que a existência de uma divindade pode ser deduzida da natureza. Embora, dizem os teólogos, seja necessária uma revelação sobrenatural para informar a humanidade de alguns detalhes a respeito das intenções e do caráter dessa divindade (tipo, ela não gosta de prepúcios, quer que você doe 10% de tudo que ganha ou que coma biscoitos oferecidos por um cara de saia na manhã de domingo), a presença da divindade no mundo – ou, no mínimo, sua inteligência criativa – seria autoevidente para qualquer um que não seja idiota, louco ou turrão demais para acatar a evidência dos próprios olhos.

O bombardeio da evolução sobre a teologia natural é muito mais sério: se a “evidência dos próprios olhos” pode ser explicada pelo processo de evolução por seleção natural, então a divindade torna-se supérflua. Ou, como escreve A.C. Grayling em seu The God argument: The case against religion and for humanism, a partir do instante em que há uma explicação natural para a cor das flores, não precisamos mais imaginar que são fadas invisíveis que pintam as pétalas de amarelo e de vermelho. Isso não prova que fadas invisíveis não existem, mas elimina uma das razões que tínhamos para supor que existiam.

Não que a teologia natural fosse inatacável antes disso: incluindo Demócrito e David Hume, vários filósofos duvidaram, antes de Darwin entrar em cena, da ideia de que o mundo natural apontava para a necessidade de um criador. Hume, especificamente, chamou a atenção para o fato de que uma das analogias favoritas dos teólogos naturais – entre deus/relojoeiro e natureza/relógio – se realmente fosse levada a sério, indicaria a existência não de uma divindade única onipotente, mas de uma oficina de deuses, sendo um projetista, um vidraceiro, um metalurgista etc.

Mas foi a ideia de evolução por seleção natural, e as seguidas provas de que o processo funciona como criador de complexidade e da aparência de projeto, que puxou de vez o tapete de debaixo dos pés dos teólogos naturais.

A partir de então, o antigo argumento do design – demonstrar a existência da divindade apontando para os sinais de projeto inteligente na natureza – teve de ser substituído por um argumento pelo design: a tentativa de demonstrar que há um projeto racional por trás da natureza. O islamismo do governo turco, ao que tudo indica, viu a trabalheira que os fanáticos cristãos do Ocidente estão tendo e não quer ter de passar por isso. Então, resolveu cortar o problema pela raiz.

É sempre importante reafirmar que não existe controvérsia científica real entre evolução e criação. Um livro recente de filosofia da ciência, Creating scientific controversies, cita o “debate” em torno do design inteligente como caso exemplar de falsa polêmica.

A evidência a favor da evolução, encontrada no registro fóssil, na anatomia dos seres vivos atuais, na próprio bioquímica, é esmagadora: quem deseja postular um criador que produziu as formas de vida da Terra num estalar (metafórico) de dedos fica com o ônus de explicar, entre inúmeras outras coisas, por que baleias têm pélvis, ou por que esse criador teria equipado os seres humanos com todo o maquinário genético necessário para produzir vitamina C – capacidade que teria poupado gerações e gerações de nossos ancestrais dos flagelos do escorbuto e dos comerciais de Cebion – só para desligá-lo em seguida.

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Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.