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Dostoiévski antes de ser Dostoiévski

por Gustavo Melo Czekster (12/07/2013)

Dostoiévski tem um estranho senso do que é engraçado

"A aldeia de Stepántchikovo e aeus habitantes", de Fiódor Dostoiévski

“A aldeia de Stepántchikovo e aeus habitantes”, de Fiódor Dostoiévski

Seria ingênuo imaginar que um grande escritor nasce pronto, com o seu fazer literário e o estilo lapidados. Antes de chegar a tal momento, o autor passa por uma enorme sucessão de fracassos e dúvidas internas. Um escritor não se constrói somente com as obras essenciais que lhe dão o renome, mas também nos seus erros e nas suas imprecisões. Considerando-se que um autor também é o reflexo da sociedade em que vive, não é exagero dizer que escritores são seres em constante mutação, e a dimensão da sua grandeza é dada pela capacidade que as obras possuem de ecoar a alma alheia, tanto redimensionando o passado quando ecoando no futuro. Mas, para chegar a este instante, eles precisam amadurecer e evoluir, em um movimento nem sempre pacífico.

Em A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes, o leitor encontrará um Fiódor Dostoiévski que ainda não escreveu as obras que lhe deram fama e incluíram o seu nome no rol dos grandes escritores universais. É um autor que ainda procura o estilo e os temas que lhe consagrarão, apesar de já surgirem alguns dos traços que serão confirmados nas obras posteriores. Detectar os rompantes dostoievskianos dentro da sua própria obra é algo que reveste a leitura de interesse extra para os aficcionados pelo trabalho do escritor russo: na construção dos personagens, é possível distinguir o embrião de Aliêksei Karamázov ou a sombra de Raskólnikov espreitando a trama, ansiosos para contarem os seus dramas ao mundo.

A aldeia… foi publicado em 1859. Foi o primeiro livro escrito por Dostoiévski após o exílio de quase dez anos na Sibéria, onde ocorreu o famoso incidente que marcaria a sua índole: o quase-fuzilamento que sofreu por ordem do czar, e que foi revogado no último minuto. Para aqueles que estão familiarizados com a temática sombria do russo, a primeira surpresa: é um livro cômico. Sempre existiu uma espécie de humor rasgado nas obras dele, mas nenhum de maneira tão evidente como neste livro. No entanto, não é algo fácil ou descuidado; é aquela comicidade que fica no fim da risada, quando a piada já desapareceu e somente permanece o pensamento que lhe gerou, o qual, não raro, é perturbador. Poderíamos dizer que Dostoiévski tem um estranho senso do que é engraçado. Não é feito de piadas fáceis ou de declarações de duplo sentido; ao contrário, é um humor de situações, uma maneira de se posicionar diante do mundo que soa mordaz e corrosiva. É repleto de ironia e raiva, o que justamente o deixa ainda mais interessante – e espantoso.

Podemos imaginar o motivo pelo qual um escritor sai de uma experiência tão traumatizante quanto o exílio na Sibéria, sempre sob o risco de morrer, e escreve uma comédia. No entanto, a obsessão de Dostoiévski em contar cada mínimo de detalhe das alegrias e misérias dos habitantes de Stepántchikovo deixa entrever o desejo de segurar a vida que lhe foi negada por tantos anos. Comentando esta obra, ele disse que nela colocou “sua alma, sua carne e seu sangue”. Ainda que tenha passado quase despercebida quando foi publicada pela primeira vez, percebe-se com clareza que é uma obra de transição, uma ponte que separa o primeiro Dostoiévski daquele que o mundo conheceria.

O narrador escolhido para relatar a história desmistifica e ridiculariza aqueles que descreve, não demonstrando nenhum tipo de condescendência. Coloca todos sob a lupa do seu espírito crítico e os disseca para o leitor, detendo-se nas suas fraquezas. Neste particular, outra característica do Dostoiévski futuro aparece, ainda em estágio inicial: a extraordinária polifonia da sua obra, característica que fez Mikhail Bakthin escrever Problemas da poética de Dostoiévski, alentado estudo sobre a capacidade do escritor de colocar várias vozes dentro do discurso literário e fazer cada uma soar de forma individual. Na época em que escreveu A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes, este talento ainda não estava plenamente desenvolvido. No entanto, em certos momentos, percebe-se que ele chegou próximo do seu intento, em especial quando relata os dramas miúdos de personagens acessórios. Fica evidente o desejo de buscar a individualidade de cada personagem, mas preso à estrutura tradicional, existindo ainda certo receio de abandonar-se à polifonia. Ver o próprio Dostoiévski buscando a sua força narrativa é uma experiência singular, em especial se compararmos com as obras que vieram depois. Os elementos da sua maturidade literária encontram-se cifrados, misturando-se com traços dos seus primeiros textos, o que talvez explique a irregularidade que se percebe em certos momentos da trama. Nada que prejudique a leitura, mas é gratificante ver aquilo que o escritor descartou do seu fazer literário – e aquilo que utilizou até se aproximar da perfeição.

Um dos exemplos do trabalho de escritura e de reflexão sobre o próprio texto foi a construção de personagens. Neste livro, Dostoiévski nos apresenta Fomá Fomitch Opískin, que entra para a galeria dos seus personagens inesquecíveis. É característica da obra do icônico escritor a incapacidade de definirmos um personagem com adjetivos simplórios como “bom” ou “ruim”. Eles escapam destas construções maniqueístas, constituindo-se em prismas que refletem a luz ora por um ângulo, ora por outro, mas nunca conseguindo se revelarem por completo. Fomá Fomitch Opískin é o exemplo típico: após um passado nebuloso e de muito sofrimento e humilhação, ele vira agregado da família Aleksándrovitch e, com o passar do tempo, acaba se tornando o tirano da casa que lhe acolheu, devolvendo para eles toda a dor que sofreu pelos seus primeiros tempos. O fato deles sofrerem por humilhações que não realizaram revela uma faceta muito típica dos seres humanos: a desproporção e a cegueira da vingança. Ao mesmo tempo em que não é possível coadunar com as maldades praticadas por Fomá Fomitch Opískin, todas são justificáveis à luz da sua moralidade, e é esta dicotomia que atrai o leitor e eleva o interesse no livro: a sensação de que a justiça pode acontecer a qualquer momento, mas não se sabe se ela será redentora ou cruel. O fato do personagem adotar um caráter quase messiânico e divino para subjugar a família Aleksándrovitch, tanto física quanto psicologicamente, revela outro detalhe perturbador, típico de Dostoiévski: a sensação de que existem figuras equiparadas a Deus no meio do nosso cotidiano, utilizando mecanismos escusos para nos dominar, mas somos incapazes de chamá-los ou de vê-los desta forma. De certa forma, todos os homens são escravos das suas próprias crenças, como o autor não cansa de nos mostrar.

Não se pode deixar de elogiar o ensaio crítico que acompanha a edição de A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes, de lavra do próprio tradutor, Lucas Simone. Como tem sido praxe nos lançamentos de autores russos traduzidos diretamente do original pela Editora 34, o ensaio que acompanha o texto acrescenta e não colide com a obra, ajudando a contextualizá-la e inseri-la dentro da tradição literária ocidental. Normalmente, os ensaios críticos que acompanham livros não passam de uma cronologia disfarçada ou de tentativas de superinterpretação do texto, condicionando o leitor. No caso das traduções de Dostoiévski, os ensaios revelam facetas diversas da obra, detalhando tanto a sua recepção na época da publicação quanto revelando detalhes teóricos que poderiam passar despercebidos pelo público.

Quando escreveu A aldeia…, a intenção original de Dostoiévski era realizar uma peça de teatro. Este desejo explica muito da fluidez do texto, assim como o caráter quase realista que é impresso na trama. Como em todas as pessoas, no Dostoiévski jovem já se divisava a maturidade e a desesperança com o mundo que lhe cercava. A ironia quase selvagem com que narra a história revela que o homem maduro estava pronto para revelar ao mundo a sua inquietude tão particular sobre a alma humana – e, assim, mudar a forma com que nos vemos.

::: A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes :::
::: Fiódor Dostoiévski (trad. Lucas Simone) :::
::: Editora 34, 2013, 352 páginas :::

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.