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O Paraíso segundo Millôr

por Carlos Orsi (21/07/2014)

Se o patriotismo é o último refúgio dos canalhas, o fervor religioso é o primeiro

"Esta é a verdadeira história do Paraíso", de Millôr Fernandes. (Companhia das Letras, 2014, 152 páginas)

“Esta é a verdadeira história do Paraíso”, de Millôr Fernandes. (Companhia das Letras, 2014, 152 páginas)

A verdadeira história do Paraíso ou Esta é a verdadeira história do Paraíso é, na verdade, duas histórias. Ou três. Todas extremamente relevantes para o mundo atual, como veremos a seguir.

A primeira dessas histórias é a graphic novel – talvez fosse melhor dizer, graphic poem – criada por Millôr Fernandes para a revista O Cruzeiro, publicada em 1963, onde o grande escritor, ilustrador e humorista reconta os eventos dos capítulos 1 a 4 do Gênesis, pontuando-os com alfinetadas céticas, filosóficas e poéticas: Deus fez o Sol, Deus fez a pedra, mas será que também fez a sombra da pedra, ou foi pego de surpresa? Se tinha toda a eternidade à disposição, por que criou o mundo assim nas coxas, em apenas seis dias?

A segunda é a história de como o comando de O Cruzeiro, pressionado por um lobby de trinta e seis “carolas do interior” (palavras do próprio Millôr) publicou um virulento editorial acusando o humorista de ter feito imprimir sua História do Paraíso à revelia da chefia de redação – em linhas gerais, a revista não só renegava o material, como acusava o autor de ter cometido o equivalente um ato de sabotagem, ou traição. O editorial pedia perdão a Deus pela publicação do trabalho blasfemo de Millôr, e prometia ao Todo-Poderoso que o autor seria demitido.

A terceira história é a versão revista e ampliada do poema gráfico publicado em O Cruzeiro, lançada como livro por Millôr em 1972, e que está sendo republicada, com extras, pela Companhia das Letras, com o título Esta é a verdadeira história do Paraíso. Entre os extras há uma série de “histórias do paraíso” desenhadas por cartunistas e quadrinhistas brasileiros da atualidade – algumas até interessantes, como a de Luiz Gê, mas no geral simplesmente supérfluas, dado o poder da obra principal – e, esta nada supérflua, uma edição fac-similar da história original, tal como veiculada por O Cruzeiro.

A comparação das versões de 1963 e 1972 mostra que a edição final em livro tem um final diferente – e ainda mais cáustico – que o da história que causara escândalo nas páginas da revista. E mais não digo, porque todo mundo hoje parece morrer de medo de levar “spoiler”.

Este volume da Companhia das Letras é a segunda reedição da História neste século, e a primeira depois da morte do autor, falecido em 2012. Ela aparece no ano em que Millôr é o homenageado da Flip. A editora Desiderata já havia publicado uma edição em capa-dura em 2006, quando o autor ainda estava vivo.

Há algumas diferenças curiosas entre as versões da Cia. Das Letras e da Desiderata, tanto de diagramação do texto e das ilustrações – algo extremamente relevante num poema gráfico – quanto no conteúdo do prefácio do autor. Fica a dúvida sobre qual deveria ser considerada a edição mais próxima dos desejos do autor: teria Millôr supervisionado a publicação da Desiderata?

Em ambas as edições, no prefácio, Millôr narra seus dissabores com a direção de O Cruzeiro. Na versão presente no tomo da Desiderata esse texto é um pouco mais extenso, e nele é mencionada a organização “TFP”, enquanto que a sigla que aparece no prefácio da Cia. Das Letras é “TFM”. Dado o contexto, é mais provável que o erro esteja na publicação mais recente.

A impressão geral é de que o prefácio da edição da Cia. Das Letras foi editado em busca de maior concisão. Se isso foi feito para abrir espaço para a introdução (simpática, mas também supérflua) de Antonio Prata, perdeu o leitor. A apresentação do fac-símile da versão de 1963 compensa, em parte, essa perda, mas ter o prefácio original na íntegra, e também o fac-símile, teria sido uma combinação ainda melhor.

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– Millôr Fernandes –

Nada disso, no entanto, reduz o brilho da releitura da Bíblia feita por Millôr, nem a torna menos inteligente e divertida – ou, como escrevi lá no primeiro parágrafo, relevante. Um leitor (ou leitora) mais mal-humorado talvez torça o nariz para algumas das piadas, que hoje podem soar machistas (Deus, ao fazer Adão dormir para lhe tirar a costela que dará origem a Eva, agraciou o homem com “seu primeiro sono e seu último repouso”; Eva tenta redecorar o Paraíso, reclamando das cores de plantas e animais), mas a verdadeira graça está na forma leve com que Millôr apresenta questões embaraçosas da teologia (ou, ao menos, embaraçosas para quem acredita nesse tipo de coisa), como a teodiceia – como um criador perfeito pode permitir o mal? – e a responsabilidade moral pela Queda (sendo onisciente, Deus sabia que o homem não resistiria à tentação da serpente: isso não configura uma armadilha, uma emboscada?).

Além de seu valor poético, humorístico e filosófico perene, A verdadeira história do Paraíso se reveste de uma inesperada atualidade pelo conflito que desencadeou entre imprensa e religião, e pela pusilanimidade dos empresários de comunicação – no caso, os responsáveis por O Cruzeiro – no episódio.

Mais: como Millôr escreve no prefácio, se seu trabalho foi renegado, seu nome caluniado e seu emprego, extinto, por conta da covardia dos patrões diante de três dúzias de “carolas do interior”, entre centenas de manifestações de apoio, solidariedade e desagravo que o autor recebeu, não houve “nem uma palavra favorável de um líder, um prelado ou um pensador católico”.

Se o patriotismo é o último refúgio dos canalhas, o fervor religioso é o primeiro: trata-se de um refúgio confortável, onde, como o caso de Millôr bem exemplifica, a maioria moderada tem o hábito arraigado de se calar, aquiescente, diante dos desmandos dos fanáticos mais estridentes – quando não, de defendê-los em público.

Hoje em dia, os “carolas do interior” não são só trinta e seis, e nem são mais todos católicos. Têm ampla representação parlamentar, ocupam postos de destaque no Judiciário e são ativamente cortejados por todos os principais candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais. Enquanto isso, o silêncio dos “líderes e prelados”, a cumplicidade dos “pensadores” e a covardia dos empresários parece ainda maior do que em 1963. Para piorar, não temos mais Millôr do nosso lado. Mas, felizmente, a obra fica.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.