PESQUISA

Um livro trêmulo como a vida

por Gustavo Melo Czekster (31/08/2012)

A história principal trata de como pessoas diferentes podem se unir em busca do objetivo de se entenderem

“Quiça”, de Luisa Geisler

Escreveu Tolstói, em um dos inícios de livro mais presentes no imaginário dos leitores, que “todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Ao ler esta frase, podemos pensar que todas as infelicidades são maiúsculas, descomunais, únicas na sua destruição sistemática do núcleo familiar. A tristeza deixaria marcas infinitas e, por este motivo, seria inesquecível. No entanto, a infelicidade das famílias nem sempre é uma ruptura absoluta com as suas expectativas; ela pode ser sutil, um leve desvio, um ponto fora da linha do gráfico e, apesar disso, não será menos destruidora.

Em Quiçá, novo romance da escritora Luisa Geisler, a infelicidade de uma família jamais é claramente demonstrada, mas espreita em cada página do livro. A tragédia se esconde por trás de cada situação e, quando se fala em tragédia, não é o lugar-comum das novelas e filmes dramáticos, mas a tragédia entoada pelos coros gregos e ecoada nas peças de Shakespeare. Nuvens negras pairam sobre as personagens, que aproveitam os últimos resquícios de sol antes das situações os arrastarem com a fúria das correntezas. Por trazer tal intranquilidade ao leitor, Quiçá não é para ser lido de forma descompromissada, indiferente. Ao contrário: é um romance que mora na instabilidade das situações humanas, na zona sem contornos definidos que separa o certo do errado. É uma literatura trêmula, a gota de orvalho que ameaça se precipitar da folha e permanece, equilibrista, na sua extremidade, ansiando por ficar, mas também disposta a se libertar.

A trama de Quiçá desenvolve-se em três esferas principais. A história central conta a relação de Arthur e Clarissa, dois primos sem muita intimidade, que começam um relacionamento no período em que Arthur vai fazer os seus estudos na cidade grande e passa a morar no mesmo apartamento que Clarissa. A segunda linha narrativa trata do almoço de Natal da família. A superficialidade dos relacionamentos esconde-se sob o verniz da alegria. Os integrantes da família desempenham papéis estereotipados (o tio que fotografa de forma compulsiva e cria poses de felicidade artificial, as tias que fazem uma lasanha e escondem a receita, a “mesa das crianças” onde os menores se concentram pelo enganoso critério etário e sonham com a “mesa dos adultos”). Na terceira esfera, várias pequenas histórias e fragmentos desordenados compõem um mosaico sufocante de vivências e sensações, quase todos rondando a ideia de morte, de suicídio ou do fim de qualquer coisa, desde o término (ou a manutenção) de um relacionamento natimorto até as perguntas falsas de um questionário de jornal em que a entrevistada, no afã de mostrar para os desconhecidos uma felicidade que não possui, tece uma sucessão de inverdades a fim de disfarçar o tédio da sua vida.

Luisa Geisler desobedece as regras do tempo, fazendo com que a trama se desloque do presente para o passado e vice-versa. É inquestionável o domínio narrativo da autora, pois seria grande a possibilidade de perder-se ao assumir desafios tão instáveis em meio a três histórias diferentes. No entanto, ela quer contar a história e, para isto, deforma o tempo até o limite. A forma com que se trabalha o tempo da narrativa é essencial para o sucesso da trama e para a sensação de sufocamento que acomete o leitor, em um crescendo de emoções que chega ao ápice na última folha do livro – e, sem querer adiantar o final, não se resolve. Afinal, há alguma situação que se resolva por completo? A família está na iminência de um tornado e podemos considerar todo o livro como os primeiros ventos que irão sacudir suas estruturas.

No epicentro das três histórias que esbarram umas nas outras, gerando faíscas de compreensão e dúvida, está a relação entre Arthur e Clarissa. São duas personagens quebradas, que crescem no decorrer do livro, saindo de pontos equidistantes para encontrar uma improvável amizade naquilo que os une. Arthur foi morar na casa dos tios porque tentou cometer suicídio; tem um relacionamento complicado com a mãe e é o protótipo do jovem rebelde, achando mais importante o viver com liberdade do que o viver (por mais paradoxal que seja um suicida ansioso por viver ao máximo). Clarissa tem onze anos e uma agenda repleta de atividades que a impedem de viver, é aluna exemplar e filha modelo. Os pais são impermeáveis ao seu mundo interior e limitam-se a cobrar notas, presença em aula e apresentações de piano, num simulacro de cuidado afetuoso.

Os primos são forçados a conviver sob o mesmo teto e, após um longo tempo, derrubam as barreiras que os separavam, permitindo o surgimento de um companheirismo genuíno entre eles. Arthur nota que as expectativas dos pais de Clarissa a estão conduzindo para o extremo de, além de não aproveitar a vida, acabar com a própria existência em busca de uma aprovação que nunca virá. Ao mesmo tempo, Clarissa detecta a falta de compromisso do primo e a carência afetiva em que ele se encontra, ignorado pela mãe. Por tal motivo, acaba assumindo de forma inconsciente a posição de anteparo emocional de alguém solitário, ensinando que responsabilidade também é uma forma de amor. Os dois jovens se aproximam por causa da indiferença dos pais e da incapacidade que eles têm de dialogar com os próprios filhos, deixando-os sozinhos para resolver conflitos existenciais. Ainda que a culpa não seja exclusiva dos pais (a autora evita cair neste maniqueísmo), a história principal trata de como pessoas diferentes podem se unir em busca do objetivo de se entenderem, aprendendo um pouco com o espelho do outro. De certa forma, Arthur e Clarissa constatam que podem ser o outro sem perder as suas características principais. As personagens são tão bem construídas que a trama principal domina todo o livro, permitindo ao leitor sentir na própria pele o que os dois primos vivenciam. Em alguns momentos, a fala de Clarissa destoa do universo de uma jovem de onze anos, assim como as suas construções frasais e termos parecem ser de alguém adulto (nem tanto pela linguagem, mas pela visão de mundo). Esta aparente discrepância não prejudica o desenvolvimento da trama ou lhe traz menos verossimilhança.

– A autora –

Apesar da força dos sentimentos que as personagens experimentam, alguns defeitos insistem em percorrer a narrativa. A começar pela incessante repetição de “(Full HD, com conexão à internet, 3D, com 52 polegadas)” toda vez que se menciona a televisão: apesar da clareza do seu primeiro contexto (demonstrar que os pais de Clarissa são mais ligados ao aspecto material do que à ebulição interna da filha em crescimento), a repetição incessante acaba se tornando enfadonha e gerando uma chave de interpretação não desenvolvida no decorrer da trama, que seria o aspecto consumista da sociedade em detrimento dos sentimentos alheios. Não se questiona a repetição, mas sim a sua razão de existência dentro do livro, pois tal artifício parece ser um exercício estilístico sem propósito. Da mesma forma, em alguns segmentos, a repetição incessante dos nomes dos personagens, tais como “Arthur disse para Clarissa, que ficou olhando Arthur”, também ajuda a deslocar o foco da história e torná-la um pouco maçante. Contudo, não prejudicou a leitura, em grande parte graças ao domínio da autora sobre o destino dos personagens e sobre a história que desejava transmitir para o seu leitor.

LEIA MAIS  Alê Motta e a obra literária na era da sua interrupção

Com relação ao almoço de Natal, os conflitos familiares são silenciados em benefício de uma harmonia que não existe mais. As personagens assemelham-se a atores interpretando papéis previamente estabelecidos pela convenção social. De tão ocupados em desempenhar tais funções, nenhum escuta o outro. As conversas são anódinas e cautelosamente superficiais. Os assuntos não são estendidos, e nenhuma pergunta ou situação escapa do roteiro tantas vezes ensaiado. Em meio à balbúrdia familiar, Clarissa encontra-se deslocada no ambiente pelo seu amadurecimento interno, ao mesmo tempo em que Arthur anseia pela presença da própria mãe, a qual, em uma atitude de extremo egoísmo, sequer se junta ao filho, preocupada em fofocar com a irmã em um quarto isolado. Egoísmo é uma das emoções chaves de Quiçá, pois se percebe, em especial entre os adultos, que cada um está mais preocupado com a própria vida do que com a dos outros. Arthur tentou cometer suicídio, o gesto máximo do egoísmo, e os adultos minimizam o ato. Dizem que ele precisa relaxar durante um período de tempo, sendo que a mãe tenta inseri-lo em outra família para que tenha uma vivência normal. A família escolhida possui somente uma fachada de perfeição a esconder relações em ruínas, e Arthur logo perceberá que Clarissa é tão solitária e esquecida quanto ele.

Por fim, no terceiro eixo narrativo, Luisa Geisler conta uma série de cenas e pequenas histórias, envolvendo as mais diferentes personagens (inclusive a própria autora em uma delas). Em uma primeira vista, estas histórias não se relacionam com a trama principal, mas se percebem nelas possibilidades de futuros para as personagens. As impressões narradas são de leitura elíptica e, em alguns casos, praticamente criptografada, como o misterioso segmento em que somente é colocado um número de CEP. Nestes trechos, a autora mergulha fundo na intertextualidade e na desconstrução do sentido do texto, utilizando inúmeras formas narrativas (entrevista em jornal, traduções de livros, trechos de romances, cenas vividas, histórias testemunhadas, narrativas em primeira pessoa) para passar a ideia do caos que norteia as relações humanas. Agindo assim, ela destaca a solidão de Arthur e Clarissa através da história de outras solidões, servindo tanto como contraponto de alívio para a trama principal quanto como fator de exacerbação da conflitiva narrada.

No entanto, as melhores histórias são aquelas que se constroem ao redor de personagens fortes, e este é o caso de Quiçá. É fácil identificar-se com dois jovens que, convivendo durante um breve período de tempo, aprendem a ser mais tolerantes. No meio do naufrágio das suas vidas, um se agarra ao outro como boia de salvamento, lutando contra o egoísmo que lhes foi ensinado pelos pais e percebendo que a convivência com o outro ainda é a melhor forma de superar as próprias deficiências. Como o próprio título do livro anuncia, talvez a vida seja isto: uma sucessão de acontecimentos caóticos que valem a pena pelo momento em que encontramos a alma de outra pessoa. Somente assim podemos vencer o egoísmo inerente à natureza humana, somente assim podemos vencer este impulso à morte que começa desde o primeiro ar que toma conta de nossos pulmões. Cada família possui a infelicidade de forma peculiar, distinta, mas nada impede que duas tristezas se encontrem, formando a pequena ilha de alegria que surge quando as pessoas se irmanam na própria infelicidade.

::: Quiçá :::
::: Luisa Geisler :::
::: Record, 2012, 240 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.