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Diálogo surdo com cegos

por Lucas Baqueiro (21/08/2021)

Nem o mais ensandecido lulalivrista pode ser páreo para o nível de psicodelia argumentativa e dissociação da realidade que hoje temos.

Há muito tempo o debate político no Brasil é interdito. Lentamente aquecido em estufa desde o início do governo Dilma, o clima da zoosfera política começou a desmanchar a frágil amálgama da tessitura social em 2014, quando o país ficou claramente rachado em duas metades. Com o impeachment, um terço da população contrário ao impeachment ‒ é o que indica a média dos resultados das pesquisas divulgadas por Datafolha e Ibope no período ‒ decidiu divorciar-se de vez do debate, acusando a contraparte de golpismo. Mas, depois de 2018, e sobretudo da parte dos eleitores de Jair Bolsonaro que permaneceram ao seu lado até aqui, a discussão tornou-se um surreal diálogo surdo com cegos.

Acordar e ler as notícias quando se é lúcido e capaz é fazer um constante exercício de pensar: “isto é verdade ou estou louco?”. O óbvio precisa ser afirmado cotidianamente, quando ainda insistimos em mostrá-lo, porque encontramos do outro lado as mais absurdas negativas do que é aparente e claro. Mas não adianta sequer apelar para o que é visível, para o que é afirmativo, para o que é inegável. Se antes achávamos, em sendo aqueles distantes dos extremos políticos, que a verdade vinha sendo relativizada continuamente, hoje já sequer podemos crê-la, sobretudo quando todos parecem dizer que o azul é verde e que o rotundo é quadrado.

Recolhi, ao longo de uma década envolvido em atividades políticas ‒ partidos, organizações estudantis, associações liberais, campanhas legislativas ‒ amigos e colegas dos mais distintos espectros partidários. Antes, julgava como delirantes os eleitores de Dilma e os criptopetistas (isso é, aqueles que diziam “não sou petista, mas…”) com quem tinha contato. Por conta do envolvimento no movimento liberal, terminei conhecendo inúmeros indivíduos que, embora antes me parecessem ter um raciocínio político equilibrado dentro dos meus termos, debandaram de corpo e espírito para o bolsonarismo. Dado isto, posso afirmar categoricamente: nem o mais ensandecido lulalivrista, daqueles que iam acampar em Curitiba para gritar, junto ao sol raiando, um sonoro “bom dia, Presidente Lula!”, pode ser páreo para o nível de psicodelia argumentativa e dissociação da realidade que hoje temos. Aqueles ‒ não sei se é o efeito de compor a mesma oposição, de assumir uma posição de um pouco mais de razoabilidade ‒ francamente parecem ser os mais arrazoados e dotados de bom-senso quando comparados a essa turba que aí está.

Achávamos graça, meus senhores, quando uma senhora aparentemente desajuizada berrava em vídeo apontando para um painel no Congresso ‒ em homenagem ao centenário da imigração japonesa para o Brasil ‒ que aquela bandeira (a japonesa!) era um projeto dos comunistas para substituir o pavilhão nacional. Era só mais uma louca. Assim como era uma idiotice a história da mamadeira de piroca. Para muitos, a “tia do zap” era folclore, não se travava contato direto com essa gente, e quando se travava, tinha-se na conta de gente desqualificada para opinar. O problema, hoje, é que temos gente que sempre pareceu arrazoada, de boa formação, que primava por verdade, enfim, pessoas que conhecemos, era do nosso convívio e tínhamos na mais alta conta disparando inverdades sem fim. É o médico de família falando sobre como as vacinas pretendem implantar um microchip chinês sob a pele; é o cabeleireiro replicando histórias sobre a fraude do voto; é o professor falando para os amigos e alunos sobre como o Supremo Tribunal Federal, aliciado por pagamentos do Partido Comunista Chinês, pretende derrubar o Presidente da República; é o vigário da paróquia, durante a missa, pedindo orações contra o marxismo cultural da “Globolixo”. É gente que nos era referência até ontem nadando de braçada no mar da loucura.

Quanta gente que se julgava séria não vemos, hoje, repetindo à exaustão que a CPI da COVID é uma palhaçada ou uma ilegalidade? Mesmo que esteja, branco no preto, demonstrado que foi intenção de um conluio entre oficiais da reserva do Exército e operadores da corrupção antigos no Ministério da Saúde, entre eles o deputado federal e ex-ministro Ricardo Barros, superfaturar a vacinação no Brasil, ainda repetem: “esta CPI é uma palhaçada”. Oras, gente que se cria ordeira e pacífica até ontem acha plenamente natural que Roberto Jefferson ‒ um salafrário, bandido, ex-presidiário, que se envolveu em todo o tipo de esquema de corrupção durante os governos de Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, quiçá Dilma, e com muita força durante o governo de Temer, a ponto de fazer nomear sua filha como ministra do Trabalho ‒ agora elevado a virgem vestal do patriotismo e cândido anjo da decência e da anticorrupção, poste vídeos armado com espingardas e fuzis ameaçando os ministros da Suprema Corte, senadores, deputados, e cometendo todo o tipo possível de crime de opinião. “Sua prisão é ilegal”, repetem, mesmo que fosse já impensável um sujeito que recentemente cumpriu pena por corrupção posar com uma pistola ameaçando invadir o Congresso. “A prisão de Roberto Jefferson é um atentado à liberdade de expressão”, mesmo que a liberdade de expressão seja limitada pelas leis quando incorre em fato criminoso como racismo, apologia ao crime ou ameaça à ordem política e social.

É muito natural para esta malta que o Presidente da República ameace a todo o tempo dar um golpe de Estado, sobretudo caso não se faça isso ou aquilo. Até colocam adesivos no carro que dizem “eu autorizo”, como se fosse um cheque em branco a autorizar o chefe de Estado a violar a Constituição e instalar sua autocracia mambembe. Mas, antidemocrático é quem aponte o absurdo da situação. Se bobear, mesmo usando o adesivo que “autoriza”, com estas aspas aí, a criatura bolsonarista é capaz de dizer que o Presidente nunca disse isso. Nem Bolsonaro, nem os filhos de Bolsonaro, nem o ministro da Defesa, nem sua caterva que frequenta o Poder Executivo ou Legislativo. Ninguém. Tudo invenção da mídia comunista.

Também é normal, fato da vida, de menor importância, e que se bobear jamais aconteceu, que o governo sabote continuamente as intenções de produzir vacina, de autorizar vacina, de vacinar a população. Aliás, costumeiramente quem falava que a vacina causava efeitos eletromagnéticos poderosíssimos a ponto de ligar o vacinado a qualquer dispositivo de Bluetooth, hoje é aquele que tenta creditar a todo custo o recente sucesso da vacinação ao Governo Federal. João Dória, o governador que o Presidente da República alcunha de “calcinha apertada” (que decoro, senhores!), caso dê-se vazão à loucura argumentativa, é o real culpado das mortes por COVID-19, veja só.

O problema é que esse diálogo com surdos incapazes de ouvir o óbvio e absolutos cegos à verdade é o que temos todo dia. É a conversa no almoço de domingo com a família, no bar com os amigos, no grupo de WhatsApp do condomínio, no refeitório do trabalho. Não é coisa mais distante, muito distante, impensável ao nosso lado: é o que acontece em tempo integral a qualquer lugar. Um terço da população, de acordo com as pesquisas, ainda apoia o governo de Jair Bolsonaro. E este terço está, na imensa maioria das vezes, imerso no mais profundo estado de indigência mental. A bem da verdade, não há outra possibilidade além das de romper definitivamente o convívio, silenciar absolutamente o debate e só pregar para os convertidos, ou fingir tolerância e burrice. Porque nem mudando de assunto esta súcia se aquieta, e é súcia composta por pais, amigos e colegas. O bolsonarismo é mais do que um vírus comedor de cérebros: é algo que destrói as famílias e a harmonia. É como um “kit gay” na cabeça de Silas Malafaia, só que desta feita de verdade, e não mais fake news.

Se o homem é um animal político, zoon politikón, como apontava Aristóteles, este neoconservadorismo populista de araque é uma zoonose perigosíssima e sem antídoto ou antibiótico que cure. Aparentemente, o único tratamento adequado é o tempo, esperando que isso passe e que, quem sabe, quando as feridas se curarem, as coisas possam voltar ao normal.

Lucas Baqueiro

Bacharel em Humanidades pela UFBA. Editor de política e atualidades da Amálgama.

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