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Summertime, o novo livro de Coetzee

por Amálgama (08/09/2009)

por Marilia Bandeira * — Summertime, o mais novo romance autobiográfico de J. M. Coetzee, chegará às livrarias em breve. É um livro que foge ao modelo de narrativa convencional e linear, trazendo ao leitor vários narradores, cada qual contando, em forma de entrevistas, suas experiências e impressões sobre o “falecido” autor John Coetzee. Um jovem […]

por Marilia Bandeira * — Summertime, o mais novo romance autobiográfico de J. M. Coetzee, chegará às livrarias em breve. É um livro que foge ao modelo de narrativa convencional e linear, trazendo ao leitor vários narradores, cada qual contando, em forma de entrevistas, suas experiências e impressões sobre o “falecido” autor John Coetzee.

Um jovem biógrafo, cujo objeto de pesquisa é o período de 1972 a 1977 da vida de Coetzee (que coincide com o período das revoltas estudantis, o recrudescimento da repressão policial e o assassinato de Steve Biko, na África do Sul), entrevista um amigo, uma prima e três ex-paixões do “morto”, buscando compreender quem era de fato o escritor. Ao biógrafo foi concedido acesso aos escritos e diários deixados pelo autor, de onde seleciona os entrevistados, pessoas importantes na vida do biografado. Ele teme tratar as páginas do diário como retratos fiéis da realidade, pois desconfia das anotações deixadas, que bem poderiam ser, segundo ele, um misto de ficção e realidade. Sai, então, em busca das experiências pessoais de quem o conheceu, tentando descobrir algo mais sobre o homem por detrás do escritor. É nesse período, desconfia o biógrafo, que John encontrou o caminho para a ficção.

Summertime expõe as angústias de Coetzee, porém sob o filtro do olhar e das memórias de outras pessoas. Como em Boyhood e Youth, ele fala de si mesmo na terceira pessoa, surgindo ao leitor através das lembranças de quem o conheceu “em vida”. O período abrange os cinco primeiros anos do seu retorno à África do Sul após ter vivido na Inglaterra e nos Estados Unidos, quando, desempregado e sem perspectivas concretas, é visto por alguns como um desajustado, um homem sem vigor e fracassado, “a cold fish”. Para a família, é o estranho que tentou fugir da tribo e agora retorna castigado pela vida. Com longos cabelos, barba, e uma insistência em fazer trabalhos manuais na casa de seu pai, numa África onde somente os negros trabalhavam sob o sol, parece ainda mais um estranho no ninho. Summertime é o retrato pungente de alguém dolorosamente consciente do local onde vive, e de sua própria e arredia personalidade.

Um livro cheio de emoção, algumas vezes engraçado, muitas vezes angustiante. No último capítulo, “Notebooks, undated fragments”, um Coetzee torturado por pequenos e grandes remorsos, e pelos dilemas impostos pela vida, surge aos olhos do leitor com intensidade. Nele emerge o homem John Coetzee, que tem dentro de si um turbilhão de sentimentos e emoções, sobre as quais tem total consciência, sem saber, no entanto, o que fazer com elas. É também nesse último capítulo que, paradoxalmente, a imagem de seu pai se agiganta enquanto definha para a morte.

O leitor que conhece os ensaios críticos de J. M. Coetzee estará consciente de que a memória, para ele, é uma construção; toda autobiografia é contação de histórias, e toda escrita é autobiografia¹. No entanto, mesmo conscientes disso, vemos que, após Boyhood e YouthSummertime aponta para um autor com extrema necessidade de expurgar os próprios fantasmas, e que encontrou na escrita o caminho da salvação.

::: Summertime ::: J. M. Coetzee :::
::: Viking, 256 páginas, a ser lançado no mês de dezembro :::
::: leia um trecho na NY Review of Books — Sérgio Rodrigues traduziu dois parágrafos no Todo Prosa :::

 
* Marilia Fátima Bandeira é Mestre em Literatura Inglesa pela USP. Atualmente trabalha no doutorado com as obras de J. M. Coetzee, Nadine Gordimer, Chinua Achebe e Wole Soyinka.

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(1) “What sets autobiography apart from other biography is, on the one hand, that the writer has privileged access to information and, on the other, that because tracing the line from past to present is such a self-interested enterprise (self-interested in every sense), selective vision, even a degree of blindness, becomes inevitable – blindness to what may be obvious to any passing observer. All autobiography is storytelling, all writing is autobiography” — em Doubling the point: Essays and interviews (Harvard University Press, 1992), pág. 391

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