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Dumas leva mais de mil páginas montando o mais intrincado e genial plano de vingança já concebido

“O conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas

Jogue a primeira pedra quem nunca teve vontade de se vingar de alguém. Não existe nada no mundo comparável à satisfação que percorre o corpo quando enfim nos vingamos por uma injúria sofrida em silêncio, por um ato de covardia que nos espantou, por uma traição ignóbil que atormentou os nossos sonhos por meses. Anos de civilização, de práxis social e de doutrina religiosa foram incapazes de apagar o instinto primário, selvagem, de devolver uma desfeita na mesma moeda ou de forma mais violenta. A literatura se apropriou deste tema, explorando-o em todas as vertentes possíveis. Melhor do que buscar a vingança pelos próprios meios é ler a história de alguém que se vingou, acompanhar cada nuance do seu plano, ver os inimigos outrora sorridentes encolhendo-se de medo.

Depois de Caim ter se vingado de Abel por ele ser o favorito, a história de vingança mais vibrante está presente em O conde de Monte Cristo, escrito por Alexandre Dumas. A trajetória de Edmond Dantès – homem inocente envolvido em uma sórdida rede de intrigas e traições, que acaba conduzindo à ruína os seus inimigos através de um plano repleto de desdobramentos e reviravoltas – continua atraindo leitores por ser uma narrativa atemporal. Relendo o livro quase com o mesmo fascínio que me levou, ainda criança, a procurar aventuras de capa-e-espada, é possível entender o motivo pelo qual a história atravessou mais de 150 anos sem perder a magia: Dumas é um mestre da narrativa e, como tal, acompanha detalhe por detalhe a queda de um homem bom, levando-o até o mais fundo e miserável dos poços, para, em seguida, levantá-lo, fazê-lo retornar para a luz e buscar implacável vingança contra aqueles que destruíram os melhores anos da sua juventude.

Não é do meu feitio ter medo de livros longos. No entanto, confesso que me assustei ao ver a edição de bolso de O conde de Monte Cristo lançada pela Zahar: são 1.664 páginas enganosamente embaladas em um livro pequeno e fácil de manejar, ideal para ler em qualquer lugar e com um peso discreto. É um grande mérito da editora conseguir colocar uma obra tão vasta em uma embalagem tão portátil, sem perda do conteúdo e sem ter que diminuir a letra. Desconheço as técnicas de editoração capazes de proporcionar tal milagre, mas é um feito impressionante. Para alguns leitores, o tamanho de um livro importa, tornando-se um desafio a ser quebrado ou um obstáculo intransponível. Como é uma obra de Alexandre Dumas, o tamanho acaba se tornando imperceptível à medida que a trama caudalosa envolve o leitor, conduzindo-o pelos meandros da vingança planejada nos mínimos detalhes pelo protagonista.

Dumas escreveu a obra entre agosto de 1844 e janeiro de 1846, lançando-o no formato de folhetim. Na época em que a televisão ainda não tinha sido inventada, o folhetim era o que mais se aproximava de uma novela. Os leitores esperavam cada capítulo com ansiedade e, não raro, os rumos da história se alteravam, personagens eram modificados e a trama até mesmo era espichada em virtude da recepção do público. Para manter o interesse dos leitores (e vender mais jornais), o autor lançava mão do suspense, invariavelmente deixando “ganchos narrativos” no final dos capítulos, que preparavam os leitores para a sequência. Nos tempos atuais, ao ler a obra, este recurso típico do folhetim revela-se de grande tensão dramática. Toda vez que se termina um capítulo e se percebe o que pode acontecer no outro, o leitor não resiste à curiosidade e continua a leitura.

Não surpreende que as 1.663 páginas passem com tamanha rapidez, pois a agilidade da história move o leitor em constante tensão até o seu final. Ajuda muito a esplêndida tradução feita por André Telles e Rodrigo Lacerda, que retiraram o ranço das palavras antigas e atualizaram a prosa, privilegiando a velocidade da leitura em detrimento da precisão. Não que a tradução esteja com defeitos, longe disto; é elogiável a intenção de preservar o caráter burlesco da trama, tratando-a com a contemporaneidade que um folhetim merece. As frases são reduzidas e de uma clareza vocabular que teria orgulhado Dumas, um homem mais preocupado em alegrar seus leitores do que em criar obras de arte insondáveis.

A história mantém-se atual, mostrando que a vingança é algo que escapa de classificações ou de mudanças sociais: é universal. Seria utópico dizer que os seres humanos evoluíram ao ponto de tornar a vingança de Dantès ultrapassada. Muito pelo contrário: a identificação do leitor com o protagonista é grande e, no decorrer do livro, apesar do plano de vingança ser mirabolante e envolver não só o fim dos inimigos como a sua destruição social, moral e econômica, a torcida por Dantès e pelo sucesso do seu plano nunca esmorece. Graças às constantes reviravoltas e coincidências da trama, em muitos momentos o plano encontra-se na iminência de ser descoberto e as intenções do personagem desmascaradas, mas Dantès sempre escapa por pouco. Qualquer escritor inábil transformaria a busca por vingança em uma narrativa cansativa e longa, mas o objetivo de levar justiça aos inimigos possui tantas facetas que, muitas vezes, o leitor se interroga sobre o local em que Dantès pretende chegar agindo de forma tão estranha. Ele vira amigo e confidente dos seus piores inimigos, ajuda-os financeiramente, usa máscaras e disfarces para atingir objetivos e não mede esforços para destruí-los por completo. É normal confundir vingança com a morte dos adversários. Para Alexandre Dumas, a morte é somente uma libertação, um favor feito ao inimigo; melhor do que isso é elaborar uma teia ao redor do outro, envolvê-lo, sufocá-lo até que ele não veja nenhuma alternativa para o seu suplício que não seja a morte ou a prisão. É como uma jiboia lentamente devorando a presa, sentindo cada estertor dela e sabendo que não conseguirá mais escapar da sua voracidade.

Edmond Dantès segue o esquema clássico de herói, enunciado por Aristóteles na sua Poética: é o homem que sofre a adversidade e que, utilizando a inteligência, consegue aos poucos se impor sobre os problemas enfrentados. A função catártica da narrativa é singular, pois tão devastadora é a queda em desgraça do protagonista que o retorno triunfal desperta o entusiasmo do leitor. Da mesma forma que o preceituado na Poética para o sucesso de uma tragédia, o leitor se identifica com o drama da personagem e, de modo substitutivo, suplanta as próprias mágoas e vê satisfeita sua própria sede de vingança. Claro que os nossos olhos pós-modernos podem questionar alguns recursos fáceis, como o tesouro encontrado no momento oportuno, mas Dumas merece crédito, uma vez que até estas facilitações se encaixam na trama, deixando o personagem concentrado somente na pureza da sua raiva e vontade de punir os inimigos. Acaso Dantès precisasse trabalhar, ganhar dinheiro e depois se vingar, a ideia principal do livro – e a sua maior atração – perderia o sentido.

Aliás, um interessante fenômeno ocorreu ao término da leitura: tão longo e difícil foi o processo de vingança da personagem, envolvendo tantas vidas e consumindo um tempo tão precioso, que a lição final a que o leitor chega, exaurido depois desta maratona de leitura, é que talvez a vingança não valha a pena. O paroxismo da vingança demonstra a vacuidade do seu ganho final. Dantès empenhou-se para buscar a vingança perfeita contra os seus inimigos e, consumido na pira da sua raiva e da sua indignação, não percebeu que ele próprio continuou sendo prejudicado, deixando de viver por causa dos inimigos que tentava destruir. É estranho que um livro que idolatre a vingança tenha como resultado final a sensação de que ela não vale a pena. A mão que desfere um soco também acaba se machucando, e Dantès sequer percebe que, na insanidade do seu plano gigantesco, ele está revolvendo uma ferida ainda não cicatrizada. Quando o efeito catártico da vingança perfeita acaba, o leitor tem uma sensação de ressaca.

Dumas leva mais de mil páginas montando o mais intrincado e genial plano de vingança já concebido, para chegar na última linha e mostrar que a felicidade é o único e maior bem que sempre se deve buscar. O leitor não duvida de tal constatação. No entanto, o percurso da vingança é doce e inebriante, pois este é um prato que se come lentamente, começando pelas beiradas, em 1.664 garfadas de puro deleite.

::: O conde de Monte Cristo :::
::: Alexandre Dumas (trad. André Telles e Rodrigo Lacerda) :::
::: Zahar, 2012, 1.664 páginas :::
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Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.