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Farol para novos escritores

por Sérgio Tavares (16/09/2014)

Coletânea de ensaios de Ivan Junqueira ilumina caminhos para quem quer ter futuro na literatura

"Reflexos do sol-posto", de Ivan Junqueira. (Rocco, 2014, 304 páginas)

“Reflexos do sol-posto”, de Ivan Junqueira. (Rocco, 2014, 304 páginas)

Em artigo publicado há pouco mais de um ano no New York Times, a professora da Universidade de Princeton Christy Wampole trata o ensaio como a pandemia de uma forma literária. Partindo de um olhar refratário sobre a proliferação do gênero no mercado editorial e nos meios impressos estadunidenses, ela vasculha, do germe da palavra em Montaigne aos discursos políticos contemporâneos, paradoxos para desafiar o leitor a abraçar uma explicação irretorquível para o fenômeno, o motivo para um formato secular progredir num mundo onde os processos de comunicação e de escrita se renovam com a rapidez de um whatsapp.

O ensaio, conjectura, teria se convertido no talismã do nosso tempo. Mas o que se esconde por detrás da atração por ele? Será por acaso suas propriedades terapêuticas? Será porque o ensaio brinda com pequenos prazeres quem o escreve e quem o lê? Sem fechar tais questões, Wampole oferece sua própria conclusão para o pacto entre o apego e a longevidade do gênero. O espírito do ensaio, de acordo com ela, constituiria “uma alternativa ao pensamento dogmático”, “uma resistência contra a fervorosa intransigência das mentes rígidas”, permitindo ao escritor e ao leitor adiarem seu veredito em relação à vida. Dando crédito a essa visão metafórica de que o ensaio constitui uma generalização viral, não há meio mais derradeiro de contaminação do que as páginas do luminoso Reflexos do sol-posto, do poeta e tradutor Ivan Junqueira (1934-2014).

O primeiro sintoma está na precedência dos textos, na citação que captura um excerto de Essais, nome que Montaigne elegeu para publicar suas reflexões, nos anos de 1500, e acabou por definir etimologicamente o gênero. Diz o trecho: “Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas, e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais que glosarmos uns aos outros”. Montaigne parece pressagiar a necessidade contumaz de desplumar um tema e manifestar essa experiência de maneira desbragada; o que, ao assuntar a natureza da escrita ensaística, Wampole enxerga como um “complexo processo de pôr algo à prova”. Mas o que Junqueira pretende provar nesses textos? Em carta ao leitor, o autor minimiza que são “apenas reflexões sobre autores e questões literárias que lhe despertaram a atenção nos últimos cincos anos”. Ao fim da leitura, todavia, ainda que acreditemos que involuntariamente, produz uma força que salta do esmero do olhar para a contundência dos fatos.

Morto em julho recente, Junqueira havia atribuído ao volume a carga de coletânea final de ensaios. São vinte e sete leituras livres, desfeitas à ordem cronológica, que abarcam obras, escritores e movimentos literários, sendo a história da poesia brasileira a principal travessia. Nessa incursão temporal, nomes imponentes como Augusto dos Anjos, João Cabral de Melo Neto, Nauro Machado e Manuel Bandeira partilham níveis de relevância com Izacyl Guimarães Ferreira, poeta premiado que “causa espanto ser tão pouco lido”. Há, de fato, a preocupação em determinar um ponto de partida e, desse cerco individualizado, configurar o espírito criativo de uma época. Ao abordar o volume Primaveras, de Casimiro de Abreu, a produção do poeta fluminense é vinculada à segunda geração da escola romântica brasileira que, por sua vez, faz conexão com Byron, Keats e Shelley. Como atenta, “qualquer tentativa para compreender satisfatoriamente um autor implica o razoável conhecimento da época em que ele viveu e produziu sua obra”.

- Ivan Junqueira -

– Ivan Junqueira –

O que Junqueira atesta, de fato, é que todo exercício de reflexão é também um exercício de desdobramento. “Os cem anos do ‘Eu'”, ensaio que abre a antologia, é tanto uma minuciosa crítica da obra poética quanto um agudo perfil de Augusto dos Anjos, que se desenovela em passagens marcantes da vida do autor até aproximá-lo das escolas do Art Noveau. O mesmo ocorre ao analisar Gonçalves Dias e, das características dos versos indianistas, traçar um panorama do Romantismo no Brasil. Biografia e bibliografia se completam, “o poético e o não-poético de João Cabral de Melo Neto” espraia-se para além das margens das reflexões paginadas que lhe cabem. Com uma linguagem erudita, mas leve e cativante, Junqueira tem múltiplos olhos para múltiplas vozes, a pluralidade da poesia brasileira que é rica justamente por ser tantas, por ser estrangeira em território nativo.

A mesma perícia se repete nos poucos ensaios que abordam outras formas literárias. No obrigatório “Machado de Assis e a arte do conto”, o autor se dedica à análise de algumas das breves narrativas do “bruxo do Cosme Velho”, com ênfase em “Uns braços”, ratificando não somente a grandeza do analisado, mas a profunda capacidade de tradução dos aspectos temáticos que alicerçam sua obra. “Do folhetim à novela de televisão” é uma viagem pelas transformações sociais refletidas na linha temporal que concerne a migração dos dramas folhetinescos dos jornais para o tubo de imagem. Junqueira também visita obras de autores contemporâneos, a exemplo de Antonio Carlos Secchin, relacionando passado e presente de modo a atentar que o fluxo literário não se inicia no abrir de um livro, que o engenho de um novo autor é a amálgama de referências pretéritas, uma literatura invencível ao tempo, indispensável e luminosa. E aqui não é o caso de ser saudosista, mas não ser tapado.

Ocorre que há autosuficiência demais, vaidade demais na nova literatura brasileira, desinteresse demais. Pensa-se muito em escrever, quando apenas ler bastaria. Em “Da utilidade do inútil”, Junqueira recorre ao poeta e ensaísta Antonio Brasileiro para alertar que, ao avesso de Platão que julgava os poetas uma ameaça à boa ordem, o que se vê hoje é justamente o contrário, “nenhum poeta oferece perigo, e podemos deixá-los inteiramente à vontade, já que são inofensivos ou inúteis, na melhor das hipóteses”. Algo a se considerar, visto que a poesia se renova e volta a conquistar espaço em pequenas e grandes editoras. Brasileiro, de fato, é mais incisivo: “Inúteis, parece, somos todos nós”. Diante disso, ou por conta disso, voltamos ao artigo de Wampole, embora não para responder o que tenta provar o ensaio, mas qual a sua finalidade.

No caso dos textos de Junqueira, servem para ser lidos, relidos e consultados por todos que intencionam ter futuro na literatura brasileira.

Sérgio Tavares

Jornalista e escritor, autor de Queda da própria altura (2012), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (2010), vencedor do Prêmio Sesc.