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Ninguém perde a coerência por criticar falsidades políticas ou mostrar seu desgosto político

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A simplorice política dos dias atuais é tamanha e tão indiscutível que às vezes é preciso explicar com todas as letras que não é porque o indivíduo critica qualquer coisa de um governo em curso que está automaticamente dizendo que preferia o anterior ou o vencido no segundo turno das eleições. Nem sempre funciona.

Outra coisa inexplicável é a fidelidade total que as criaturas semoventes têm para com suas legendas e políticos de preferência. Qual o sentido disso? Uma coisa é ser eleitor, outra é ser um soldadinho de chumbo. Qual o receio de criticar um governo, mesmo que eleito com o seu próprio voto, que por conta e risco resolveu adotar uma conduta odiosa ou assumidamente demagógica ou qualquer outra coisa assim? Lavagem cerebral auto-infligida?

Ou que, por criticar alguém, a pessoa denuncie-se como um opositor desembestado e acrítico, incapaz de perceber qualquer política decente e honesta. Há quem diga que já há remédios para esse tipo de alucinação, mas não é mesmo só maldade o que passa pela cabeça desse povo?

Ora, vejamos. Se alguém insinuar que isso é um crime de lesa-pátria, não é possível ter dúvidas: trata-se somente de má-fé. E, se essa minha afirmação não for o suficiente, é bom começar a se preocupar e ir procurar, de repente, uma clínica de reabilitação. Às vezes, se a pessoa for esforçada, dizem que funciona. Vá que…

De minha parte, não vejo problema nenhum – absolutamente nenhum – em votar num determinado candidato e depois criticá-lo abertamente. Desconfio, por outro lado, é de quem faz o contrário. Será que assinaram um contrato leonino que os força a calar mesmo sobre evidências criminosas? Mas que raios de ideologia é que prega uma coisa dessas, afinal? Vergonha, talvez?

Ou então, ali na cabine de votação, deu-se um implante de chip ao mesmo tempo da confirmação do voto, que suplanta aquela coisa, como se chama? Juízo crítico? É espantoso. Ou, se não deveria ser, para mim é mais espantoso ainda.

Na verdade eu penso que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas o mundo anda tão binário, tão yin-yang, tão fla-flu, tão gre-nal, que essa história de acinzamento das ideias já não tem mais vez. Já era. Já deu. Decida-se ou cale-se para sempre, é o que dizem os neodemocratas da internet, palco precípuo da cultura do respeito à diversidade, tolerância e outras inumeráveis pregações, petições e etc.

Ninguém perde a coerência por criticar falsidades políticas ou mostrar seu desgosto político. É claro que a censura pública (eufemismo para patrulhamento), em tempos de redes sociais, é insuportável e ninguém deseja expor-se mais do que as relações sociais reclamem ou possam vir a estremecer, mas chega um momento em que tudo pode passar dos limites. E frequentemente passa. Nunca é demais lembrar que no novo mundo de Oz das redes sociais, o sujeito mediano conectado, ou seja, qualquer um de nós, pensa como um leão, sente como um homem de lata e age como um espantalho. Por um nada faz-se um tsunami de efeito nenhum. E mais um, e outro mais e assim indefinidamente, até onde a scrollbar permitir. Se fatos escandalosos às vezes não geram um esgar sequer, que dizer de uma crítica pessoal? A questão é que cada vez mais as pessoas creem que a benigna tolerância e a maligna indiferença sejam o mesmo e, na hora de aplicá-las, simplesmente se atrapalhem. Acontece.

De outro modo, eu tenho uma inveja total dos meus amigos e conhecidos que não têm nada a se queixar dos seus candidatos. São mesmo pessoas de sorte. Eu vou votando com o fígado (com o cérebro já desisti há tempos) e, se algo me desagrada, faço isso mesmo que vocês estão pensando. A verdade é que na maioria das vezes me falta estômago e dos males digestivos com a “classe política” de um modo geral eu prefiro passar bem longe, na falta de remédios melhores.

Lúcio Carvalho

Editor da revista digital Inclusive. Lançou em 2015 os livros Inclusão em pauta e A aposta (contos).