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Cultura de interdição

por Carlos Orsi (12/09/2017)

O caso da mostra do banco espanhol é apenas o mais recente, aqui no Brasil.

A peça As Nuvens, de Aristófanes, contém uma sátira virulenta contra o filósofo Sócrates, vivo e ativo na cidade de Atenas quando da estreia do espetáculo, em 423 AEC. Sócrates, que segundo as fontes da época era extremamente feio, prestava-se com muita facilidade à caricatura pelos artesãos que produziam as máscaras usadas no teatro da época. Não há registros de que ele ou seus amigos tenham tentado proibir a peça, agredir o comediógrafo ou confiscar as máscaras.

Pelo contrário. Há relatos de que Sócrates compareceu a uma apresentação da peça e, quando a plateia, vendo as constrangedoras peripécias do filósofo-personagem no palco, começou a murmurar “mas quem é esse Sócrates?”, levantou-se, em silêncio, com uma mesura, para que todos pudessem identificá-lo.

Mais de mil anos mais tarde, em 1946, a parlamentar trabalhista inglesa Bessie Braddock abordou o então líder da oposição e ex-primeiro-ministro Winston Churchill dizendo, “Winston, você está bêbado”. Ao que Churchill respondeu, “Madame, você é feia, mas eu estarei sóbrio pela manhã”. Não há registros de processo por quebra de decoro parlamentar contra nenhum dos dois.

No posfácio de uma edição comemorativa de 30 anos de sua novela Behold the Man, de 1966, uma história de viagem no tempo que leva o protagonista à Palestina da época de Jesus de Nazaré, com resultados surpreendentes, o escritor britânico Michael Moorcock conta que o trabalho “recebeu críticas muito boas na imprensa religiosa, especialmente na imprensa católica e judaica, e a maioria das pessoas aceitou que eu examinava, e não atacava, o ethos cristão. Só quando saiu nos Estados Unidos que comecei a receber ameaças de morte”.

A cultura ocidental é muito menos monolítica do que algumas pessoas, tanto as que a defendem quanto as que a atacam, gostariam de acreditar, mas o fato é que, em seus momentos mais civilizados, ela sempre reconheceu o valor uma atitude de tolerância perante a ofensa – o silêncio irônico de Sócrates, transformando o que deveria ser um momento de vergonha em vitória moral – ou, em caso de retaliação, de um uso, digamos, “proporcional” da força: insulto por insulto, piada por piada, poema por poema.

Na moral do Jardim da Infância, eu chamo você de feio, você me chama de bobo e a honra da hora do recreio impede que qualquer um de nós chame a diretora. Em termos mais abstratos, respostas e reparações tradicionalmente se dirigem ao que é dito (melhor), a quem diz (ruim, mas aceitável), mas nunca, jamais, em hipótese alguma, ao direito de dizer.

Repare, por favor, que estou me referindo “aos momentos mais civilizados”. Temos calabouços, fogueiras de livros e sentenças judiciais suficientes para mostrar que nem sempre foi assim. Mas, de uma forma ou de outra, a aspiração estava lá: a de que ideias, palavras e imagens se combatem com ideias, palavras e imagens, que lançar mão de outros recursos – “chamar a diretora” – é desonroso, é falta, como pôr a mão na bola num jogo de futebol ou chutar o adversário no boxe. A censura, lato ou strictu senso, vista como um recurso de trapaceiros e covardes. Uma admissão de derrota.

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Essa noção, essa intuição, essa ideia moral, se me permitem a expressão, parece ter se perdido. Ela não se encontra mais no Jardim de Infância, nem entre os adultos. O caso da mostra do banco espanhol é apenas o mais recente, aqui no Brasil. Antes, houve a peça de teatro com atores pintados de preto que foi impedida de ser encenada, os rosários em forma de pênis da artista Marcia X retirados de outra mostra, o “vamos esmurrar um nazista hoje” como espécie de bordão do novo belo, moral e justo.

Uma série de casos em que a desonra implícita no ato de calar bocas com algo mais forte do que uma resposta do calibre de “estarei sóbrio pela manhã” deixa de ser percebida, em que “chamar a diretora” ou simplesmente apelar à violência para gerar silêncio por intimidação deixa de ser algo vergonhoso.

O Brasil, claro, é apenas parte de um fenômeno maior. A reação do “Bible belt” americano ao livro de Moorcock foi, talvez, um sintoma prévio. A reação pusilânime da intelectualidade ocidental às ameaças da teocracia iraniana contra Salman Rushdie, lá se vão quase 30 anos, mostrou que a infecção já ia bem adiantada. E chegamos aonde chegamos.
Uma fase atribuída a Mahatma Gandhi diz que “olho por olho deixa todo mundo cego”. Gostaria de oferecer uma variante: “calaboca por calaboca deixa todo mundo mudo”. Se não reaprendermos a travar disputas simbólicas como devem ser travadas – com símbolos – só o que nos resta é violência, seguida de um longo silêncio mutuamente assegurado.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor. Em 2011, publicou o paper "The Brazilian Villainesses of the Canon", sobre as vilãs brasileiras que aparecem nas aventuras canônicas de Sherlock Holmes, no periódico The Baker Street Journal. Também foi co-organizador, com Marcelo Augusto Galvão, da antologia Sherlock Holmes: Aventuras Secretas, publicada pela Editora Draco no mesmo ano.