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Você está errado, e eu também

por Carlos Orsi (20/09/2017)

Somos plenamente capazes de aceitar a ideia de que ninguém é perfeito, mas péssimos em enxergar nossas próprias imperfeições.

Todo mundo acredita em bobagens. Cada um dos leitores deste artigo. E eu também, claro. É óbvio: o ser humano é falível. Qualquer pessoa mentalmente sã deve ser capaz de admitir que, em algum canto do cérebro, haverá pelo menos uma crença falsa, uma convicção inválida, uma opinião que não corresponde aos fatos. Uma bobagem.

Isso, em teoria. Mas, e na prática? Quando analisamos criticamente o conteúdo de nossas mentes e verificamos as crenças que temos, uma a uma, é raro conseguirmos achar algo de errado: mesmo quando nossos amigos ou adversários nos oferecem argumentos que contrariam nossas opiniões, caímos muito facilmente num diagnóstico do tipo “eu sou racional, meu amigo é teimoso, meu adversário é um idiota”.

Enfim, todas as crenças que mantemos nos parecem certas. Mas, ao mesmo tempo, o mais simples bom-senso nos garante que algumas estão erradas. Que paradoxo é este?

Existe muita pesquisa em psicologia sugerindo que a inteligência humana é excelente para defender as próprias crenças, e não tão boa assim em discriminar as crenças corretas das bobagens. Um dos principais mecanismos dessa defesa é o viés de confirmação – a busca de casos que confirmam nossas ideias preconcebidas, e uma espécie de cegueira seletiva em relação aos exemplos contrários.

Digamos: você pode estar orgulhoso porque o desemprego caiu durante o governo do seu político favorito. Mas o que aconteceu com a inflação? E como comprovar que foram as políticas dele, e não uma outra coisa, que fizeram o desemprego cair?

Outro mecanismo mental bem documentado recebe o sugestivo nome de “fez sentido, pare”: reflete a tendência que temos de parar de buscar explicações para algo assim que encontramos uma que nos pareça “fazer sentido” – isto é, que se casa bem com nossas emoções e preconceitos.

Digamos: você lê na internet que o político que você mais detesta é citado num documento da CIA. Isso faz sentido – esse sujeito tem que ser um agente estrangeiro! Mas, será que a citação existe mesmo? O documento é legítimo? E, por falar nisso, o que a citação diz? Você se daria ao trabalho de checar todos esses dados, ou clicaria, gostosamente, em “compartilhar”, deixando-se levar pela emoção?

Quando uma afirmação nova agrada nossas preconcepções, a reação emocional imediata é de entusiasmo, é de perguntar “posso acreditar nisso?” E a busca sôfrega por argumentos a favor da nova crença tem início. Já quando uma afirmação desafia as preconcepções, a emoção é de desalento, é de perguntar “mas eu preciso mesmo acreditar nisso?” E a busca sôfrega, aí, é por desculpas para pôr a crença de lado.

A culpa, como de costume, é provavelmente da evolução. Milênios de luta por sobrevivência e sexo, em comunidades de primatas hierárquicos, fofoqueiros e ciumentos, produziu um cérebro para o qual status e reputação, incluindo o status e a reputação que ganhamos quando nossos amigos, amantes, chefes e parentes acreditam que acreditamos nas mesmas coisas que eles, muitas vezes são mais importantes do que os fatos da realidade.

Mas, à medida que os grupos humanos foram se tornando cada vez maiores e mais interligados, e o impacto de nossas crenças sobre vida dos outros cresceu, os fatos da realidade começaram a ganhar uma importância para a qual nossos instintos primitivos não estavam – não estão… – muito bem preparados. O preço da verdade, para citar uma frase célebre, é a eterna vigilância.

Uma das definições usuais de “animal racional” é um ser que age de modo coerente com suas crenças. Crenças falsas, portanto, dão um verniz de racionalidade às ações mais estúpidas. Crenças falsas, defendidas com arte e competência, podem levar nações inteiras ao abismo, como vimos acontecer algumas vezes no século passado.

Ainda antes, no século 19, o matemático e filósofo britânico William Clifford propôs uma “ética da crença” – o princípio de que, e eu cito, “é sempre errado, para qualquer um e em qualquer lugar, acreditar em algo sem evidência suficiente”.

Clifford foi criticado por outros filósofos, que acharam sua regra exagerada, mas o espírito dessa ética da crença – a de que cada um de nós tem a responsabilidade de fazer uma espécie de curadoria do conteúdo da própria mente – é mais importante hoje do que nunca, num momento em que crenças se espalham pelo mundo à velocidade da luz, e a humanidade é chamada a decidir coletivamente sobre questões de relevância global.

Essa curadoria é algo muito difícil de fazer sem ajuda: as mesmas pesquisas que apontam a existência de vieses, como o de confirmação, mostram que somos cegos para a maioria de nossos próprios vícios de raciocínio. Em compensação, com um pouco de treino, tornamo-nos muito bons em enxergar os vieses dos outros.

Conversar e debater sem ódio, tratando quem discorda de nós não como um adversário numa disputa, mas como um colega na busca pela verdade, é uma das poucas formas de escaparmos de nossas limitações.

É claro que a boa vontade para debater pode ser manipulada e explorada, mas sem ela continuaremos, para sempre, presos nas bolhas construídas pelas mentiras que contamos a nós mesmos, e que podem acabar nos transformando em verdadeiras ameaças, sem que percebamos.

William Clifford dizia que a pessoa que foge dos questionamentos sobre aquilo em que acredita comete um “pecado contra a humanidade”. Dá para criticar a retórica sisuda, mas, cada vez mais, fica difícil discordar do sentimento.

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Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.