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Vladimir Nabokov, muito mais do que “Lolita”

por Gustavo Melo Czekster (23/10/2013)

Ao realizar o percurso criativo de Nabokov, percebe-se uma evolução nítida

"Contos reunidos", de Vladimir Nabokov

“Contos reunidos”, de Vladimir Nabokov

Entre as muitas maneiras que existem de se matar um escritor, a mais eficaz é considerá-lo como o criador de uma obra só. É evidente que nenhum artista se forma em torno de um único trabalho; ele também é constituído por dezenas de outras obras de menor dimensão, por esboços, por rascunhos natimortos que não chegam à vida por meio das editoras, e, em última análise, ele também se forma nas entrevistas, nas fotos, nas palavras que deixa à solta pelo mundo. Considerar qualquer pessoa pelo viés de um ato solitário ou de uma única faceta é esquecer a sua complexidade. Na área da literatura, vários são os escritores que atingem a excelência em público e crítica através de uma obra singular, que se destaca das demais como o Sol de um sistema planetário. No entanto, isto não impede que o autor possua outras obras que mereçam igual destaque. Para um leitor capaz de abstrair a sombra incômoda da comparação com a obra canônica e abrir a mente para novas experiências, descobrir textos de um escritor pode ser tão fascinante quanto achar pequenos sóis a circundarem outros sistemas planetários.

Quando falamos em Vladimir Nabokov, logo pensamos em Lolita, o livro incandescente e com ares de polêmica que acabou se inserindo no restrito clube de livros que necessitam ser lidos. Mas Nabokov foi muito mais do que o autor de um livro só, e isto fica demonstrado pela publicação de Contos Reunidos, compilação que pretende juntar, em um exemplar, todas as short stories realizadas em vida pelo escritor russo.

No prefácio, escrito por Dmitri Nabokov, filho do autor, revela-se a intenção da obra: reunir, da forma mais extensa possível, a produção contística completa de Nabokov, inclusive contos que se imaginavam perdidos ou colocados em edições esgotadas de revistas que só transitaram na então União Soviética. O resultado deste esforço de coleta salta aos olhos: ao lado de pequenas joias de estilo e qualidade literária, encontram-se textos quase juvenis e outros em que o esforço ideológico prepondera sobre o conteúdo humano da história. Tal impressão é acentuada quando se percebe que o critério para a listagem dos contos foi o momento em que eles foram publicados, ou seja, observa o máximo possível a ordem cronológica.

Ao realizar o percurso criativo de Nabokov, percebe-se uma evolução nítida dos primeiros contos até os últimos. Os temas deixaram de ser o estranhamento de um russo vivendo no ambiente ocidental e ganharam intensidade e vibração. A evolução da forma, a progressiva diminuição dos textos em busca das palavras corretas para exprimir o sentimento exato, o posicionamento do narrador, tudo demonstra o crescimento interno de um escritor em busca da saciedade das suas vozes criativas. Nos primeiros contos, fica nítido que Nabokov tentava ser um escritor; nos derradeiros, resta claro que, mais do que um simples autor, ele se esforçava para ser humano e, assim, atingir as almas de todos os seus leitores.

Como toda coletânea que tenta condensar diferentes épocas do fazer literário de um autor, Contos Reunidos também mostra certa irregularidade. No entanto, mesmo nos seus piores momentos, a prosa de Nabokov refulge e jamais perde o rumo. Os seus contos mais simples figurariam com honra no livro de qualquer escritor. As descrições vívidas dos sentimentos experimentados pelas personagens encantam pela sua simplicidade e, ao mesmo tempo, pela forma quase poética com que são construídas, como o exemplo abaixo, tirado do conto “Sons”:

Naquele dia feliz em que a chuva castigava e você tocava tão inesperadamente bem, veio a resolução de alguma coisa nebulosa que tinha surgido imperceptivelmente entre nós depois de nossas primeiras semanas de amor. Eu me dei conta de que você não tinha poder sobre mim, de que não era você apenas a minha amante, mas a terra inteira. Era como se a minha alma tivesse estendido incontáveis sensores e eu vivesse dentro de tudo, percebendo simultaneamente as cataratas do Niágara ribombando muito além do oceano e as longas gotas douradas farfalhando e estralejando na alameda. Olhei a casca brilhante das bétulas e de repente senti que, em vez de braços, eu possuía ramos inclinados cobertos de pequenas folhas molhadas e, em vez de pernas, mil delgadas raízes, retorcendo-se para dentro da terra, embebendo-se nela. Eu queria assim me transfundir em toda a natureza, experimentar como era ser um velho cogumelo boleto com sua parte inferior esponjosa, ou uma libélula, ou a esfera solar. Estava tão feliz que de repente explodi em riso, beijei você na clavícula, na nuca. Eu até recitaria um poema, mas você detestava poesia.

Nenhum escritor é capaz de escrever sobre sentimentos sem se entregar a eles e às palavras que os circundam, e Nabokov é um mestre nesta arte. Contudo, esta é uma constatação perigosa. Na entrevista dada para a Paris Review, presente no delicioso livro Os Escritores: As Históricas Entrevistas da Paris Review (Companhia das Letras, 1988), ao ser perguntado sobre o que achava da frase do crítico Pryce-Jones, que disse que “Ninguém tem sentimentos como os dele”, Nabokov não perdoa: “Se um crítico faz uma afirmação desse tipo, com certeza isso deve significar que ele estudou os sentimentos de, literalmente, milhões de pessoas, em pelo menos três países, antes de chegar a essa conclusão. Neste caso, então sou realmente avis rara. Se, por outro lado, ele se limitou a questionar membros de sua família ou do clube, sua declaração não pode ser discutida com seriedade”.

Apesar de ser uma opinião devastadora sobre a crítica que lhe foi dirigida, a leitura dos contos de Nabokov e a delicadeza com que ele costura os sentimentos das suas personagens deixa claro que era um excelente observador da sociedade e das invisíveis engrenagens emocionais que cercam os seus integrantes. Não são poucas as descrições de Nabokov que repercutem por horas no leitor. É impossível permanecer ileso diante de frases como “Seu amor era um pouco abafado, como a sua voz. Podia-se dizer que você amava de soslaio, e nunca falava de amor”, “Então, numa posição um tanto corcunda, Kern disse: ‘Preciso do seu amor. Amanhã vou me matar’”, ou então:

O fato de estar sentado ao lado dela, sentindo o calor de seu rosto, de seu ombro, do qual, como na pintura, a pele cinza escorregava, e de que ela parecia a ponto de levantá-la, mas se detivera com a pergunta de Simpson, estendendo e juntando em pares os dedos finos e longos, o encheu de tamanha languidez que havia em seus olhos uma faísca úmida do brilho cristalino dos cálices de vinho, e ele ficava imaginando a mesa circular como uma ilha iluminada, girando lentamente, flutuando em algum lugar, conduzindo delicadamente aqueles sentados em torno dela.

Não é necessário estudar milhões de pessoas para concluir que os sentimentos se derramam pela prosa de Nabokov; a urdidura feita para atingir as emoções de um leitor é a mesma necessária para tocar as de milhares.

Os contos de Nabokov resistiram muito bem à passagem do tempo. Ao contrário do que ocorre com outras compilações, não se pode dizer que nenhum deles esteja datado ou se refira a fatos que a História transformou em irrelevâncias. Muito pelo contrário: as histórias do escritor russo são atemporais. O seu estilo é vívido e consistente, ganhando a atenção da leitura frase a frase. Os olhos de um leitor pós-moderno poderiam se incomodar com o excesso de descrições e a adjetivação carregada que infesta alguns parágrafos, mas, se se render à história, começará a escutar a música que existe por trás e entenderá que cada palavra está ali por um propósito. Os 68 contos contidos nas 826 páginas do livro acabam passando rápido, e o final de cada história se torna uma dolorosa despedida da versão da realidade que foi exposta de forma tão intensa no seu interior. A descrição luxuriosa de um hotel nos Alpes franceses (em contraste com as personagens quase patéticas que transitam no seu interior) ou as vicissitudes de russos exilados tentando sobreviver em Berlim tornam-se tão reais que, ao final da leitura, se tem a sensação de que alguém contou uma história verdadeira. Somente um escritor muito hábil é capaz de criar este efeito: transformar algo complexo em palavras imbuídas de vida.

Ainda recordando a entrevista que Vladimir Nabokov deu para a Paris Review, quando confrontado com a opinião de E. M. Forster, para quem as personagens principais ganhavam vida própria e ditavam o curso dos romances, ele é novamente incisivo: “O meu conhecimento das obras de E. M. Forster limita-se a um romance, do qual não gosto. De qualquer forma, não foi ele quem deu início a essa fantasia banal a respeito de personagens que fogem ao controle; isso é mais velho do que o mundo. Se bem que, naturalmente, daria para se sentir solidário com as personagens dele, caso tentassem escapar daquela viagem para a Índia, ou onde quer que ele os estivesse levando. Os meus personagens são verdadeiros escravos”.

Esta opinião cáustica de Nabokov demonstra a força com que ele se entregava para as histórias, escravizando não só personagens, mas os seus leitores. Aqueles que imaginam que Nabokov foi o escritor de um livro só não tem ideia da experiência que estão deixando de lado: descobrir que Lolita não passa de uma obra que se destacou do conjunto de outras igualmente notáveis. Descobrir os contos de Nabokov possui a sensação inebriante de descobrir a gama de planetas que constituem todo um sistema planetário, e ver que existe muito mais além de um Sol.

::: Contos Reunidos :::
::: Vladimir Nabokov (trad. José Rubens Siqueira) :::
::: Alfaguara, 2013, 832 páginas :::

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.