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Novos caminhos para a oposição

por Elton Flaubert (31/10/2014)

Pela primeira vez desde 1990 o PT perdeu o posto de partido com mais votos de legenda para o PSDB

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Eleição não se ganha apenas em período eleitoral. A vitória de Lula em 2002 não começou naquele ano, mas muito antes, desde a criação do mito operário, do partido salvador, além de uma oposição firme contra o governo FHC e a inserção na sociedade com uma plêiade hegemônica de professores e jornalistas. Assim, antes da urna, o partido ou grupo de oposição que pretenda se colocar a dispor da população deve criar uma série de condições: um discurso, simpatizantes que lhe defenderão para outros, inserir-se na sociedade e, acima de tudo, fazer oposição.

Fazer oposição não significa necessariamente sabotar o país, mas ser duro e persistente na tarefa de realçar os pontos negativos do governo. Os positivos se deixam para os aliados. E foram estas condições que a oposição brasileira, capitaneada pelo PSDB, abdicou durante a primeira década de PT no poder. Os tucanos desistiram do convencimento, que alarga seus espaços, para apostar na “política de gabinete” e naquela esperteza pragmática típica dos políticos provincianos.

O primeiro erro começou na incapacidade de dialogar, explicar e convencer a sociedade quanto ao período Fernando Henrique. As críticas se sucediam, e o governo não era capaz ou não estava interessado em demonstrar o seu ponto. A defesa envergonhada das privatizações antes mesmo de 2002 abriu caminho para derrotas futuras. Resultando no equívoco estrondoso de não defender seu próprio governo na campanha de 2002.

No primeiro mandato do presidente Lula, veio à tona um grande esquema de corrupção, que era, na verdade, uma tentativa de golpe contra a tripartição dos poderes, além do uso de caixa dois na campanha presidencial. Com medo de convulsões sociais, a oposição preferiu poupar a figura do presidente, não levando adiante a campanha por impeachment. A ideia era a de que o presidente sangraria e seria facilmente derrotado em 2006. Um erro catastrófico. Lula começou a andar pelo país, a fazer um discurso populista inflamado, a acusar conspiração das elites para tirar um operário do poder, recuperou-se e obteve mais de 60% nas urnas.

A oposição ainda não tinha aprendido que vitórias que caem no colo são exceções e não regra. É preciso criar as condições necessárias. No segundo turno de 2006, o PT impõe a pauta: “a volta das privatizações”. Chega às mãos dos tucanos a seguinte pesquisa: quase dois terços dos brasileiros são contra as privatizações. Há duas opções a se tomar: articular um discurso, fazer política e defender com honestidade e bravura seu ponto, que ainda não é o predominante naquele momento, ou se esconder, tentar apagar a história do seu partido, tentar imitar os adversários e fazer-se de genérico. Os tucanos optaram pelo segundo caminho. Se tivessem defendido as privatizações que foram realizadas, teriam perdido do mesmo jeito, mas estariam criando condições para uma futura vitória.

Entre 2006 e 2010, mais uma oposição vacilante, que tinha como discurso apenas um mote: o governo Lula é a vitória das teses do governo Fernando Henrique. Um erro em todos os níveis: histórico, factual e retórico. A oposição tucana consistia em tentar parecer tão petista quanto os petistas, com duas diferenças: respeito ao erário e sem aparelhamento do estado.

Na campanha de 2010, mesmo com os elogios de Serra dirigidos a Lula, ficou evidente que havia uma onda de reação vindo da sociedade contra o petismo. Mesmo com estrondosa aprovação do governo Lula, foi a menor diferença entre petistas e tucanos desde 2002.

Mais um período na oposição, e os tucanos continuaram se negando a criar as condições recomendáveis para facilitar uma vitória eleitoral, apostando no puro desgaste do governo e da era petista.

Todavia, no transcorrer da última campanha eleitoral, quando Marina ascendia abruptamente e Aécio parecia ter naufragado com 14% das intenções de voto, houve uma dupla reação: primeiro, do seu eleitorado mais fiel, que é o antipetista de carteirinha, descontente com a possibilidade de segundo turno entre Dilma e Marina (que, por sua vez, adotou a estratégia equivocada de poupar o PT e Lula, e atacar apenas Dilma); segundo, do próprio partido, que finalmente encarnou a voz dura que a oposição precisa ter. Este duplo movimento trouxe uma aproximação da identidade entre eleitores e o partido. A atmosfera de recuperação do tucano no final do primeiro turno, a partir do antipetismo, chamou atenção de alguns dos seus eleitores para diversas questões até então ignoradas. Se antes se votava nos tucanos por vago sentimento de inadaptação aos governantes de plantão, iniciou-se um processo de politização dessa oposição. O PT foi colocado na berlinda, como partido que não está atento aos princípios da democracia liberal.

No último debate da Rede Globo, Aécio foi firme e bateu duro no PT. O que vimos foi uma imensa onda antipetista se formando nos grandes centros urbanos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Dali partia uma reação democrática. Contrariando a tese do “não pregue apenas para convertidos”, os tucanos deixaram de agradar os adversários, e perderam a neura de criticar o que está à sua esquerda, conseguindo trazer para seu campo alguns dos “não-convertidos”. Durante o processo eleitoral, houve quase que um espontâneo trabalho de base, até então negligenciado insistentemente pelos tucanos. Como resultado, pela primeira vez desde 1990 o PT perdeu o posto de partido com mais votos de legenda para o PSDB. Um resultado impressionante, tendo em vista a organicidade do adversário.

Jamais uma campanha do PSDB à presidência conseguiu mobilizar espontaneamente tantas pessoas. A vitória eleitoral ainda não veio. Mas, ao contrário de 2010, há muito que se comemorar: a)um congresso menos alinhado com o petismo, b)crescimento da bancada de oposição, c)quase metade do país não só votou nos tucanos, como está sendo politizada na rejeição ao PT.

A campanha de 2014 consolida a força do antipetismo. Fazer uma campanha que negue os atuais governantes e seus projetos também se trata de política. A questão é tornar o antipetismo mais articulado e assertivo. O PT conseguiu tornar seu discurso dominante antes de assumir o poder, porque era capaz de articular essa negação. Depois de bater assimetricamente há trinta anos em seus adversários, o PT finalmente encontrou um opositor a não lhe conceder o monopólio da crítica.

O principal partido de oposição finalmente encontrou-se mais próximo de seus eleitores. É preciso agora construir e consolidar esta ponte. Não foram apenas mais de 48% dos votos válidos, mas 50 milhões de pessoas potencialmente dispostas não só a conceder sua representação a outro, mas a negar os significados do petismo. Os tucanos possuem a obrigação de fazer o que até hoje não fizeram como oposição: criar condições que facilite a vitória em 2018.

Essas condições precisam ser construídas em dois sentidos. Partidariamente, devem se consolidar as pontes com PSB e Rede, e com os elementos dissidentes do PMDB, PSD, PP, PR, PTB, PDT, insatisfeitos com os arroubos autoritários do petismo. Noutro sentido, é preciso se articular com a sociedade civil, organizando think tanks, balanços críticos da era petista, produção bibliográfica acerca do que está ocorrendo no continente, aproximar-se de grupos religiosos organizados, de centrais sindicais não alinhadas, do empresariado desejoso de mais liberdade econômica, dos pobres que anseiam por qualificação profissional e, continentalmente dos grupos de oposição ao bolivarianismo.

Os tucanos precisam ser rígidos fiscalizadores do governo, mas também atuantes na sociedade, entre os formadores de opinião, na mídia, mostrando as mazelas do atual governo. O PSDB tem a obrigação de estender seus laços na sociedade, articular um discurso, e politizar o difuso antipetismo. Hoje, o PT é o partido preferido de 17% dos brasileiros, enquanto o PSDB possui em torno de metade disso. É seu dever chegar em 2018 com o mesmo número de preferência. Os ventos são favoráveis. Precisa-se daqui pra frente de trabalho e talento.

Quem governa, precisa estar preocupado no que vai entregar ao povo ao fim do mandato. A oposição, não. Aécio é o seu líder desde 26 de outubro e, dessa vez, não poderá se omitir nos gabinetes. O mineiro precisa estar na linha frente do enfrentamento desde o primeiro dia. 2018 já começou, e os petistas sabem disso. As perspectivas da oposição nunca foram tão favoráveis, cabe agora realizá-las.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.