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De Mário para Drummond

por André Egg (25/10/2015)

Mário de Andrade funcionou como um importante estímulo para a escrita de Carlos Drummond de Andrade

"A lição do amigo: Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade" (Companhia das Letras, 2015, 440 páginas)

“A lição do amigo: Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade” (Companhia das Letras, 2015, 440 páginas)

Em 1982, um octogenário Carlos Drummond de Andrade, àquela altura já reconhecido como um dos maiores poetas do século, decidiu organizar e publicar a correspondência que tinha recebido de um amigo importante, falecido 37 anos antes.

Mário de Andrade lhe escrevera 91 cartas, entre novembro de 1924 e fevereiro de 1945. Estas, diagramadas em livro e fartamente acrescidas de notas explicativas do destinatário, chegaram às 360 páginas, mais os apêndices na edição que agora traz novamente à baila a editora Companhia das Letras.

O trabalho que a editora vem fazendo, com as obras completas dos grandes nomes da literatura brasileira em edições bem cuidadas, é coisa de imensa responsabilidade. Em primeiro lugar, por tratar-se de autores consagrados e que vendem sempre, há décadas, é de se imaginar o tamanho do investimento envolvido na aquisição dos direitos de publicação. Esse tipo de edição em formato obras completas, com uma tipografia e capas padronizadas (tudo de muito bom gosto), são um brinde aos leitores. Afinal faziam umas boas décadas que as obras de Jorge Amado, Érico Veríssimo ou Carlos Drummond de Andrade não recebiam edições completas e tão caprichadas.

Drummond não foi o primeiro a ter a ideia de publicar suas cartas de Mário de Andrade. Antes dele, já o tinham feito Fernando Sabino, Murilo Miranda e Manuel Bandeira. Tampouco seria o último. Como escrever cartas era quase um vício, ou no mínimo uma ocupação central na vida de Mário de Andrade, sua epistolografia é um importante campo de estudo para as áreas de Letras, História, Música, Artes, entre outras. Mário de Andrade se dizia tímido para a argumentação oral, o que o levava a preferir articular as ideias por escrito. Assim, escrevia suas conferências, discursos, palestras e aulas, e também preferia escrever longas cartas para os interlocutores que considerasse interessantes ou importantes de se influenciar. Por outro lado, tinha intenção de que seu pensamento ficasse para a posteridade, e acreditava que suas cartas teriam valor para estudiosos da cultura brasileira, por isso se dedicava tanto à atividade de ler e escrever correspondências, e se deu ao trabalho de guardar tudo cuidadosamente.

A correspondência de Mário de Andrade, junto com todo seu acervo documental, já estava sob guarda do Instituto de Estudos Brasileiros da USP na época em que Drummond publicou pela primeira vez A lição do amigo (esse é o título dado às cartas em forma de livro). O poeta não tinha consigo cópia das cartas que escreveu, não dispôs do tempo necessário para consultá-las no IEB, ou achou melhor não se expor. Oficialmente, explica na apresentação do volume, era um correspondente menos dedicado e produziu um volume bem menor de cartas. Preferiu assim publicar apenas as de Mário de Andrade, e deixar as suas ainda desconhecidas. Não demoraria para algum pesquisador fazer uma edição completa, cartas de Mário a Drummond intercaladas com as cartas de Drummond a Mário. Marcos Antonio de Morais fez isto com a correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, em uma edição de 2001 para a EDUSP. Silviano Santiago fez também uma edição incluindo a correspondência de ambos, Drummond e Mário, em volume de 618 páginas publicado pela Bem-te-vi em 2002. Este livro está à venda em capa dura, por uma pequena fortuna – sai em conta, portanto, comprar A lição do amigo, por um quinto do preço.

O valor documental destas cartas é impossível de exagerar. Em sua tese de doutorado Embates de um intelectual modernista: papel do intelectual na correspondência de Mário de Andrade, Sidney Pires Jr demonstra que Mário de Andrade dava às suas cartas importância de obra literária. Na verdade, dava mais importância do que à obra literária constituída de poemas e romances. Tanto que o autor de Macunaíma decidiu pelo “sacrifício do artista”, parando de publicar conto poesia ou romance a partir de 1928 – ficando apenas com as conferências, ensaios, estudos e, sobretudo, cartas, muitas cartas. Era sua “obra de circunstância”. Mais importante ser capaz de deixar alguma influência importante no trabalho de artistas relevantes, ganhá-los para a causa da criação de uma arte brasileira. Assim, Mário de Andrade sabia da importância das cartas que escrevia e, no dizer de Sidney Pires Jr, escrevia “posando”. Sabendo que seria lido pela posteridade.

Assim, não se tratou de nenhuma indiscrição da parte de Drummond a publicação, como ele quer fazer entender na apresentação do seu livro. Não, Mário de Andrade não estaria ressentido se visse aquele calhamaço todo de confissões vindo a público. As cartas estavam ganhando o lugar que o autor sempre lhes imaginara: documentos públicos do importante processo de criação de uma literatura brasileira moderna. Da qual os dois escritores constituíram pilares fundamentais. Drummond dá às cartas uma grande importância, pois considera que o estímulo de Mário de Andrade lhe foi significativo.

Quase uma década mais velho, não tanto pela idade, mas pela primazia que os modernistas de São Paulo tiveram no movimento de renovação estética e das instituições culturais no país, Mário de Andrade funcionou como um importante estímulo para a escrita de Drummond. Mário já tinha publicado alguns livros em 1924, e Drummond publicaria seu primeiro volume em 1930. Nas cartas é possível vê-lo cobrando do amigo que se livre das formalidades dos grandes autores franceses que Drummond leu, indicando os caminhos para escrever brasileiro, coisa na qual Drummond se tornaria o maior dos mestres, sem nunca deixar de ser universal.

Isso está descarado desde logo na primeira carta, escrita em 1924, pouco após os dois se conhecerem. O encontro foi a propósito da viagem de descoberta do Brasil que os paulistas fizeram a Minas junto com Blaise Cendrars no mesmo ano. O tímido paulistano encontra o tímido itabirano. E ainda bem que pelo menos por carta, o Mário de Andrade não era nada tímido. E assim já vai se esparramando e dando puxão de orelha no amigo que acaba de fazer:

Você é uma sólida inteligência e já muito bem mobiliada… à francesa. Com toda a abundância do meu coração eu lhe digo que isso é uma pena. Eu sofro com isso. Carlos, devote-se ao Brasil, junto comigo. (…) Nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá felicidade. (…) Eu não amo o Brasil espiritualmente mais que a França ou a Cochinchina. Mas é no Brasil que me acontece viver e agora só no Brasil eu penso e por ele tudo sacrifiquei. (p. 21-22)

Mas engana-se quem pensa que é só o Mário que aparece no livro, afinal, não estão ali as cartas que Drummond escreveu. É que o mineiro trabalhou muito na organização do material, e deu de presente para o leitor um monte de notas explicativas. Como ele mesmo diz na introdução, parte delas são desnecessárias para os que entendem alguma coisa de literatura ou de cultura brasileira (e quem não entende, leria um livro de cartas?) – hoje em dia poderíamos acrescentar que as notas são desnecessárias para quem pode pesquisar na internet. Mas não são só notas pra apresentar quem são Osvald de Andrade ou Tarsila do Amaral (mencionados nas cartas); há outras muito interessantes sobre detalhes que jamais saberíamos se Drummond não nos contasse.

E há um trabalho ainda mais impressionante do poeta sobre as cartas do amigo (que nos faz supor que ele passou muito tempo preparando uma edição tão cuidadosa). Por exemplo: lá pelas tantas, Mário de Andrade conta em alguma carta que está mal de dinheiro, endividado, e precisando dar muitas aulas e palestras por causa disso, e que isso o fazia atrasar alguma carta que devia ao amigo. Bem, vai lá o Drummond e faz todo um apêndice encontrando outras menções de Mário de Andrade a perrengues financeiros em cartas a outros escritores, e ficamos sabendo muito sobre a relação do escritor com esse mundo das responsabilidades financeiras (Apêndice 1, p. 365-380).

E, para a gente não pensar que está comprando um volume já ultrapassado, com cartas escritas entre 1924 e 1945, mais as explicações feitas por Drummond para a publicação de 1982, vem de brinde um ótimo Posfácio, escrito por André Botelho para esta edição (“Brasil caixa postal: por uma educação modernista”, p. 414-434). Ali ficamos inteirados de coisas importantes dos atuais estudos sobre Mário de Andrade e sobre sua correspondência com Drummond e as relações culturais nisso implicadas.

Então a Cia. das Letras já está aí criando um problema, porque teremos que arrumar lugar nas nossas parcas estantes para essas obras obrigatórias, que vão precisar figurar ao lado de outros volumes dessas obras completas, e que consultaremos sempre, depois mostrando aos filhos e aos netos (para os alunos também, no caso dos que, como eu, dão aulas que envolvem estes assuntos).

André Egg

Professor da UNESPAR, professor colaborador no PPGHIS-UFPR, colaborador da Gazeta do Povo. Um dos organizadores do livro Arte e política no Brasil: modernidades (Perspectiva, 2014).