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Soltando fagulhas por todos os lados

por Gustavo Melo Czekster (26/10/2015)

Affonso Romano de Sant’Anna não hesita em mostrar os cantos sombrios das consequências de viver de literatura

"Entre leitor e autor", de Affonso Romano de Sant'Anna (Rocco, 2015, 240 páginas)

“Entre leitor e autor”, de Affonso Romano de Sant’Anna (Rocco, 2015, 240 páginas)

Ao contrário do que pensa o senso comum, nem todo escritor é um grande contador de histórias. Alguns possuem uma péssima relação com a narrativa que desejam transmitir, as palavras brotando com dificuldade, caudalosas, trêmulas, hesitantes. Contar histórias é uma das artes mais antigas do mundo, e ter o talento de atrair outras pessoas por meio da forma atraente de expor uma narrativa é algo que nos remete ao prazer genuíno de se envolver com uma trama como se estivesse a vivenciando.

No entanto, existe uma classe de escritores que consegue transformar cada mínimo evento da sua vida ou cada reflexão literária em relatos capazes de prender a atenção da plateia, fascinando-a da mesma forma que um encantador de cobras atrai o olhar da sua venenosa adversária. Um observador incauto poderia ler Entre leitor e autor, de Affonso Romano de Sant’Anna, como uma série de ensaios sobre literatura, mas também pode permitir-se desfrutar de uma sucessão de relatos, anedotas e impressões sobre outros escritores e livros, relatadas por alguém que, além de dominar a arte de contar uma história, sabe como seduzir um leitor.

A singeleza do título, “Entre autor e leitor”, revela o objetivo maior da obra: Affonso Romano de Sant’Anna descreve situações que vivenciou como autor e as leituras que realizou sobre as obras de outros escritores. Os textos mesclam-se, deixando a sensação de fluidez entre leitor e autor; escritores são leitores que escrevem, mas leitores também participam do ato de escritura, acrescentando novos detalhes ou percepções sobre uma obra literária.

Um crítico ou teórico da Literatura reclamaria que falta seriedade – ou “academicismo”, para usar um termo mais frequente neste tipo de crítica – para as análises literárias, assim como um leitor eventual poderia reclamar que, em alguns momentos, o livro fica denso demais. No entanto, a proposta de Affonso Romano de Sant’Anna é não fazer um livro excessivamente voltado para a crítica literária e nem uma sucessão de anedotas sobre a vida literária. Conforme o autor anuncia na introdução, “alguém pode dizer, portanto, que este é também um livro de memórias. Aí estão experiências que podem servir para quem pensa em ser escritor. É um livro de aprendizagens do autor enquanto escritor e leitor”. Pensar no livro como uma série de aprendizados e dicas é mais apropriado do que imaginá-lo como uma coletânea estática de ensaios literários.

Os leitores que desejarem ver as reflexões de Affonso Romano de Sant’Anna sobre literatura ou sobre o fazer literário irão aprender com a sua experiência de autor já consagrado pelo público e pela crítica. Em alguns textos, inclusive, o escritor dá conselhos para os escritores iniciantes que, mais do que representar uma visão particular da literatura, transbordam generosidade, algo incomum em ver em outros textos nos quais os autores pretendem dar “dicas” e acabam se tornando arrogantes e irônicos.

Em “Onde a porca torce o rabo”, Affonso Romano afirma que, mais do que cobiçar prefácios escritos por autores famosos, um escritor iniciante deve se perguntar se está disposto a assumir um projeto de vida literária. Tirando o foco da fama buscada por caminhos literários, ele pergunta ao escritor iniciante se está disposto a ser um autor profissional, alertando sobre os riscos desta decisão:

Ultrapassar essa linha divisória entre o amadorismo e o profissionalismo, entre o episódico e o sistemático, entre o aleatório e um projeto estético-existencial, eis o desafio. E nisto, de novo, há uma pesada solidão. Solidão difícil de ser compartilhada. Tenho dito a algumas pessoas que surpreendi na soleira desse rito de iniciação: agora depende de você. De você e de uma série de fatores aleatórios. Pois assim como o criador tem que cavar no escuro de si mesmo a sua pretensa riqueza, entrar no sistema literário e artístico é entrar numa selva escura.

É um conselho realista para os novos autores, muito mais válido do que sugestões estéreis para conseguir mais leitores ou publicações. Publicar um livro não é uma tarefa tão complexa nos tempos atuais, ainda mais com o relativo barateamento dos custos de edição e as possibilidades de autopublicação digital, mas entender o processo criativo, os seus dilemas e conflitos, demanda muita reflexão, e Affonso Romano de Sant’Anna não hesita em mostrar os cantos sombrios das consequências de viver de literatura. Em muitos textos do livro, o escritor pretende mostrar que, mais do que uma expressão artística, literatura é comprometimento não só com a arte, mas consigo mesmo, envolvendo escolhas dolorosas e até mesmo cruéis. Não é algo que se acha em qualquer manual literário ou frases pretensamente motivacionais de autores famosos.

Por sua vez, os leitores que desejarem mergulhar na vida literária nos últimos anos terão um prato saboroso para se deliciar. Affonso Romano de Sant’Anna conviveu com alguns dos maiores escritores do Brasil e do mundo, trazendo histórias miúdas que escondem grandes lições de vida. No texto “Encontro com Bandeira”, ele relata como, aos 17 anos de idade, encontrou-se com Manuel Bandeira, levando as suas poesias para serem apreciadas. Em “Uma história de Octavio Paz”, ele conta como, em uma reunião privada, Octavio Paz surpreendeu os convidados com uma história tão inverossímil que parecia ser parte de um filme de Carlos Saura – mas era real. Ao prestar uma homenagem para Clarice Lispector em “Sete anos sem Clarice”, Affonso Romano revela detalhes pitorescos do seu relacionamento com a escritora, alternando entre reminiscência e saudade:

Clarice era imprevista. Convidada para um jantar formal em Brasília, resolve pedir à dona de casa justamente a única coisa que não existia: um copo de leite. E quando a anfitriã despacha o chofer para ir ordenhar o leite em algum bar longínquo, Clarice desiste da espera e vai para casa. Era uma pessoa muito especial e seus amigos tudo lhe permitiam porque sabiam estar convivendo com uma das maiores escritoras do seu tempo.

Graças à linguagem precisa, utilizada sem nenhum pedantismo e sem subestimar a inteligência do leitor, é possível ler os textos de Entre leitor e autor quase como se o autor estivesse sentado na nossa frente na sala de estar, contando histórias e recordações de livros ou de palestras, mal esperando uma risada desaparecer para engatar outro relato.

Contudo, no meio das histórias, podemos aprender muito através das lições ensinadas por Affonso Romano de Sant’Anna, refletindo sobre o mercado editorial, sobre alunos concretistas, sobre o atelier de Cézanne, sobre escritores que leem autores, sobre a concentração de Drummond na própria subjetividade, sobre um livro não-escrito por Vargas Llosa e Carlos Fuentes, sobre o desencontro entre Fernando Sabino e Pablo Neruda, sobre um velho álbum repleto de escritos de personalidades, sobre o artista velho e a sua luta inconsciente contra o jovem. Ao tratar de Moacyr Scliar, Affonso Romano conclui suas considerações afirmando que “escritor bom é assim, solta fagulhas por todos os lados”, e é uma definição excelente para a sua própria obra: um livro que solta fagulhas de histórias, de críticas, de reflexões e de muito bom humor.

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.