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Quem tem medo da direita?

por Elton Flaubert (12/11/2014)

Todos os profetas da velha ordem aliaram-se para a caçada a este inaceitável campo da democracia

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Um espectro ronda o Brasil – o espectro da direita. Todos os profetas da velha ordem política e intelectual aliaram-se para a caçada a este inaceitável campo da democracia: Renato Janine Ribeiro e sua contabilidade criativa, Mauro Aurélio Nogueira e sua inconsciente confissão de ameaça mal conhecida, e até o candidato da oposição, Aécio Neves, que já tratou de jogar o ameaçador conservadorismo no colo do governo.

Que partido de oposição não foi tachado de conservador pelos adversários no poder? Que partido de oposição não rebateu seus adversários com esta acusação injuriosa? Por isto, a realidade se impõe: a direita já é conhecida como uma força por todas as outras.

Os estrimiliques e surtos de pânico e ódio justificam-se: o velho consenso da política e elite pensante desmorona. E, para aqueles que estão apenas acostumados com as brigas internas da esquerda, toda direita é extrema. O mais moderado dos republicanos seria tratado pela intelligentsia tupiniquim como um extremista. Sarkozy seria um “racista intolerável”.

Lembro-me de dois episódios nos últimos meses que ilustram bem o momento de transição em que vivemos. No dia 22 de setembro, o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, afirmou que os concursos para contratação de professores universitários era um “jogo de cartas marcadas”. Para ele, isto dificultaria a contratação dos melhores quadros. Independente da solução proposta, que me parece ruim, a confissão traz outro problema mais grave do que foi apontado (a falta de qualidade): o corporativismo compromete a falta de pluralismo no meio intelectual e, por consequente, na educação, na formação da elite pensante ou entre os formadores de opinião.

Uma sociedade democrática obriga a existência de pluralismo de posições, liberdade para o pensamento, dissenso real, maneiras radicalmente diferentes de ver o mundo. Sem uma disputa substancial, a política se torna mera administração de problemas internos a um grupo, numa sociedade unidimensional sustentada por um consenso que tende a criar um abismo entre as instituições e a população.

Não faltam bons intelectuais, nem um público para a direita. Conheço dezenas de boas cabeças com mais talento e leitura do que Emir Sader e companhia. Livros de escritores conservadores ou liberais estão constantemente na lista de mais vendidos. Nas redes sociais, eles são mais seguidos e compartilhados do que a maior parte dos renomados da esquerda.

Porém, existe um fosso entre as instituições de conhecimento (refiro-me aqui às universidades públicas) e a sociedade, entre a elite pensante e a população. É óbvio que existem professores não alinhados com a esquerda em todas as universidades federais ou estaduais, mas estão isolados, são casos particulares, as exceções que confirmam a regra. O nível de hegemonia varia de acordo com a região. No Nordeste, é retumbante. Existem também cursos, como Filosofia, onde há um pouco mais de pluralismo e menos doutrinação, ou Economia, onde a direita liberal está presente. E até mesmo dentro de um consenso geral há também várias discussões internas e confrontos. Mas os caminhos são rochosos ou estão bloqueados para um dissenso real.

Um aluno da área de humanas dificilmente conseguirá seu diploma ou o ingresso na pós-graduação na maioria das universidades federais sem ter entrado em contato com Marx ou Foucault. Mas poderá fazer toda sua carreira, da graduação à aposentadoria, sem nunca ter passado sequer perto das ideias opostas aos autores que orbita, como Russell Kirk, Isaiah Berlin, Roger Scruton, Mises, entre outros. Cada vez mais jovens se identificam com ideias conservadoras ou liberais e não encontram senão deserto nestas instituições. Em nenhum país com normalidade democrática há uma diferença tão profunda entre os dois lados quanto aos meios de difusão de suas ideias.

A hegemonia na “elite pensante” vai para os bancos escolares, para as redações de jornais, para a construção da imagem pública de cada político. Quando um jornalista, político ou professor utiliza o termo “conservador” como adjetivo que por evidência deveria ser negativo, só está reproduzindo uma imagem que apreendeu como respeitável e moderada. É como se o outro lado fosse naturalmente ilegítimo e prejudicial para a democracia. Foi justamente esta hegemonia que criou a polarização PSDB-PT, e relegou a direita à função de satélite de ambos.

No entanto, nos últimos anos, a direita tem conseguido criar espaços com os cotovelos. O seu público cresceu e os espaços na mídia também. Mas este movimento, no seio de uma sociedade que condena aborto e clama pela diminuição da idade penal, ainda não foi vocacionado institucionalmente.

É a partir daí que passo para o outro ponto. No dia 1º de setembro, o site Reaçonaria publicou um texto onde puxava o novelo ideológico dos jornalistas que cobriram os protestos anti-Dilma em São Paulo. Um protesto com pautas difusas, coesas apenas na crítica aos mandatários do governo federal, foi apresentado pelos jornalistas da Folha e do Estadão como um protesto que pediria a intervenção militar. Uma clara desinformação, reproduzida a ponto de líderes da oposição serem inqueridos a respeito.

As reportagens eram equivocadas, não correspondiam à realidade dos fatos, e possuíam um viés ideológico e partidário. A maior prova disso é que foram modificadas posteriormente. Os membros da Reaçonaria resolveram então fazer jornalismo por conta própria, e foram investigar, afinal, quem eram os dois repórteres. Ao contrário de Veja e Carta Capital, que possuem posições definidas e reconhecidas por seus leitores, a Folha se apresenta, por exemplo, como um jornal isento, moderado, que abre espaço para os dois lados. O sabor pode até variar de acordo com o colunista, mas pousaria sobre sua redação de jornalistas a natureza amorfa, sem os pés de barro da condição humana.

Primeiramente, a Reaçonaria desconstrói estes mitos de isenção numa série de textos, intitulado “Imprensa Golpista”, uma alusão às reclamações de “barriga cheia” dos petistas. Em segundo lugar, o objetivo é claramente contextualizar a notícia dada por Folha e Estadão. Eles demonstram, por exemplo, que o jornalista da Folha que criou tal desinformação tinha feito uma série de reportagens jocosas para o jornal sobre os eleitores de Aécio. O mesmo jornalista é amigo de Delúbio Soares e gosta de utilizar termos de reconhecimento grupal em suas redes, como “coxinha”. Outro achado incrível é que ambos, mesmo trabalhando em empresas concorrentes, entrevistaram – no mínimo por duas vezes – o mesmo personagem, o que os permitiu tratar a oposição ao PT de maneira caricata.

Mal o texto da Reaçonaria foi publicado, e começaram as reações corporativas. Não há problema num jornalista ser de esquerda ou de direita, mas se deve evitar ao máximo a tentação de distorcer os fatos por questões pessoais. Igualmente, não há qualquer tipo de problema em apontar as preferências ideológicas e partidárias dos jornalistas. Ninguém perde a credibilidade por isto, mas somente se for desonesto. Nos Estados Unidos, todo mundo sabe que a Fox ou a The Weekly Standard e seus jornalistas são pró-Republicanos, e que os da NBC ou da Newsweek são pró-Democratas, mesmo quando trazem uma voz oposta. Apontar um viés ideológico numa reportagem é a coisa mais comum numa sociedade democrática. Os inimigos da democracia não são os que apontam os abusos do outro lado, mas os que querem impedir este livre exercício.

A Reaçonaria chegou a ser acusada de “macarthista”, e recebeu até mesmo uma nota da Abraji que dizia: “grupos insatisfeitos com o resultado das eleições presidenciais acusam de partidarismo jornalistas que fazem seu trabalho e, com essa desculpa, expõem os perfis dos assediados em redes sociais”. Ora, se expor em rede social é uma opção própria, não de terceiros. Se você tem um perfil público, sabe que tudo dito será igualmente público. E outra coisa: foram os próprios que deixaram claro em suas redes seus posicionamentos políticos. A Reaçonaria não utilizou nenhuma informação que não fosse pública, tampouco incentivou atos de intolerância. Ela apenas trouxe mais informações para que pudéssemos ler tais notícias dentro de um contexto. Obviamente que a Abraji confunde jornalismo com teatrinho. De acordo com ela, suspeitar que Leandro Fortes ou Cynara Menezes fizeram uma reportagem de tal maneira por suas preferências políticas é atentar contra a liberdade de imprensa. Ao contrário, é esta nota da Abraji que atenta contra a verdade e contra o senso de medidas.

A esquerda denuncia jornalistas e colunistas como parciais e partidários o tempo inteiro há décadas. Quando alguém fez o inverso, logo veio uma forte reação de pessoas chocadas com tal ousadia. Um dos sintomas deste consenso é que quando um jornalista, como Rodrigo Bocardi, Otávio Cabral ou Diego Escosteguy, foi acusado de anti-petismo por reportagens denunciativas, não vimos uma nota da Abraji, uma reação histérica acusando os outros de perseguição. Quando a liberdade de imprensa esteve – de fato – intimidada por um ex-presidente incitando a militância de seu partido a partir para o ataque contra dois jornalistas, não vimos tal “eficiência” da entidade. Este caso demonstra bem a assimetria no confronto político.

Mas, foi numa estranha denúncia de um deputado tucano que este caso expôs em toda sua evidência o consenso das últimas décadas. Não foi um deputado petista ou do PSOL, mas um deputado estadual do PSDB, Carlos Bezerra Jr., que, através da Assembleia Legislativa de São Paulo, solicitou que a Polícia Federal e o MP investigassem e punissem os autores do site, dando aquele ar aparente de isenção partidária à questão.

O deputado foi elogiado por muitos que jamais votarão no PSDB, e criticado por aqueles que votaram nos tucanos na última eleição. Obviamente que o posicionamento de um deputado não define o do seu partido, mas nos traz uma questão acerca da composição política que temos.

Como já tratei aqui, os principais políticos tucanos são de centro-esquerda, da “terceira via”, que, por essência, se opõe ao PT, principalmente na área econômica. Não à toa é nessa área que sempre houve um dissenso substancial na discussão pública.

Assim ocorre não por falta de eleitor, já que a população brasileira é maciçamente conservadora em questões morais; mas porque, na esfera pública, os meios de difusão de ideias foram desequilibrados por uma série de fatores. Nas últimas décadas, não pegava bem se definir como conservador ou de direita. E, enquanto na maioria dos países democráticos, são os independentes que definem a vitória da direita ou da esquerda, aqui a população é conservadora, mas vota no PT, já que não há informação nem discussão mais visível na esfera pública acerca de uma diferenciação mais profunda das ideias. A única distinção apresentada (pelo menos, retoricamente) durante a cobertura das campanhas é na área econômica.

Há muitos políticos com princípios de direita no país, principalmente no Congresso, mas não há um projeto nacional, um partido grande que consiga polarizar com o PT ou PSDB. Sem participar de campanhas nacionais não há como aglutinar as demandas da sociedade e se tornar orgânico. Os políticos conservadores ou liberais estão dispersos por várias siglas. Se houvesse uma união programática para além de disputas regionais, formar-se-ia provavelmente o partido com maior bancada de deputados na Câmara Federal.

Nas democracias, enquanto o governo se desgasta, a oposição vai refazendo seus caminhos, e ganhando corpo na sociedade, até que consegue voltar novamente ao poder, reiniciando todo o ciclo. No Brasil, o principal partido de oposição é também de esquerda, embora bem moderada. Isto reflete o domínio obtido por esse campo ideológico na esfera pública, antes de ganhar os palanques. Com o crescimento ideológico da direita cria-se dois elementos no PSDB que se comunicam: a)uma distância histórica do partido em relação a seus eleitores, e b)uma mudança interna dentro do próprio partido, com cada vez mais militantes e políticos conservadores.

Ninguém sabe qual será o futuro do PSDB, nem se finalmente surgirá um partido de direita que consiga articular um discurso que penetre na sociedade. Mas, seja como for, ocorrerá muito antes na sociedade do que na política institucional. E talvez isto seja até bom, tendo em vista os vícios históricos de certa direita brasileira. Falarei mais a respeito em breve.

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Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.