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por Denny Yang * – Eu sou órfão, desde sempre, mas antes de mais nada, e sobretudo, me considero o Malabarista. Quando criança, fui adotado por um casal que, de tempos em tempos, e itinerantemente, apresentava-se num circo. De todas as figuras do circo, a que eu mais me identificava era a do Malabarista. E, […]

por Denny Yang * – Eu sou órfão, desde sempre, mas antes de mais nada, e sobretudo, me considero o Malabarista.

Quando criança, fui adotado por um casal que, de tempos em tempos, e itinerantemente, apresentava-se num circo. De todas as figuras do circo, a que eu mais me identificava era a do Malabarista. E, depois de tantos anos, dou graças de ter sido abençoado com essa dádiva de ter me tornado um Malabarista de verdade.

O tempo foi passando, assim como os anos, e o Circo de minha única família fechou. Não tínhamos como mais sustentar a leveza e a graça do espetáculo. Faltava-nos dinheiro. E, também, logo depois que meus segundos pais morreram num incêndio, eu tinha apenas os meus malabaris e apetrechos, alem de minha roupa, meu gorro pontudo com uma bola em cima, e minha tinta para o rosto. Minha segunda mãe sempre havia me ensinado que, quando você se pintava de palhaço, mesmo sendo um Malabarista, você protegia o seu rosto e seu espírito contra aqueles que queriam te atacar.

Eu ficava, então, sempre na estação de trem Central fazendo meus malabarismos e sobrevivendo como podia. Assim, além de comida, eu conseguia pagar meu albergue e também minha tinta e roupas, que de tempos em tempos eu renovava.

Um dia, uma criança parou e, segurando na mão de seus pais, ficou me olhando com muita felicidade. Logo depois, seus pais me deram um cartão, disseram para eu comparecer em sua casa, na noite de Natal. Era uma família muito rica.

O dia chegou, e fui até onde estava o endereço escrito no cartão. Era mesmo uma rica família.

Os convidados foram chegando, e eu fui me preparar. Coloquei minha roupa, limpei meus malabaris e apetrechos, e inclusive, levei um vaso para harmonizar – nós, malabaristas, falamos em harmonizar, e não equilibrar. Não utilizamos essa palavra.

Antes de sair da lavanderia onde eu me trocava, no entanto, lembrei de minha segunda mãe, e me pus a me pintar de palhaço e colocar um nariz vermelho.

Fui ate o salão principal, e me lembrei de toda a infância passada no circo, enquanto fazia meus malabarismos. Primeiro, joguei tudo para cima, e, em poucas frações de segundo, harmonizei todas as pecas com minhas pernas, meus bracos, minha costa, meu rosto, minhas mãos e meus pés. Os convidados pareciam não prestar atenção em mim, a não ser a criança que gostara de mim na estação Central de trem.

Mas, observando os convidados, que pareciam ser todos familiares e parentes da mesma família, fui lembrando das figuras de meu circo do coração: um, me lembrava o próprio palhaço; outro, um bobo da corte; outro, um domador de leões; outro, um trapezista; outro, um equilibrista de corda; outro, uma mulher barba; e, quando começaram a ceia e um se levantou para fazer um discurso, parecia o próprio apresentador daquele que é considerado o espetáculo mais maravilhoso da Terra.

Lembrando tudo isso, e acabado o discurso, fiquei realmente emocionado, e, após eles terem começado a cortar as carnes e a refeição, deu-me uma fome inimaginável… e toda a lembrança, com a dor da fome, me fazia querer chorar… joguei todas as peçaas para cima, novamente, e peguei tudo de uma vez, numa fração de segundo, mas quando fiz um movimento muito complicado, todas as pecas das minhas duas pernas caíram no chão, assim como o vaso que eu trouxera especialmente para a ocasião. Ao que se fez um enorme barulho, pois se espatifou no chão.

E, enfim, todos os parentes e familiares, que não davam a minima atenção a minha presença, finalmente pararam tudo e voltaram seus olhares a mim em uníssono.

Eu, só pude fazer o que todo verdadeiro Malabarista sabia fazer: harmonizar, e lentamente, com muito vagar, coloquei uma por uma peça no chão, e, depois de colocar todas as dezessete peças no chão, uma por uma, eu disse:

“Pois bem, obrigado pela atenção. Eu, que sou apenas um Malabarista, simples e honesto. E muito pobre. Chamei propositadamente a atenção de vocês para lhes dizer, do fundo do coração, e desejar-lhes, um feliz Natal a todos vocês.”

Continuei:

“Quebrei o vaso, que era de minha família, e de muito tempo atrás, antes mesmo de eu ter nascido ele já existia, pois estou muito emocionado.”

E comecei a chorar, e chorar verdadeiramente, e com sinceridade, por todos os sentimentos e emoções que a situação me trazia.

“Obrigado por terem me dado essa chance de me apresentar a vocês, e conseguir lembrar de toda a minha vida, e infância, e de lembrar e ter a certeza de quem eu sou. Eu, hoje, posso dizer que sou o Malabarista.”

A criança, que sempre sorria quando eu jogava para cima as peças em conjunto, veio nesse momento em minha direção, e chorando, me abraçou, sozinha, com sua mãe de longe observando-a com ar de preocupação.

“Obrigado, garota”, eu disse.

“Obrigado você, tio, por ter me dado esse presente de Natal tão bonito, o personagem que eu mais gosto do circo é o Malabarista”, ela disse.

“Eu agradeci todos os dias da minha vida a Deus por terem me achado, minha família do circo, desde que o circo acabou…”, e chorei novamente, incontrolavelmente.

O senhor que fez o discurso, que eu chamava de “o apresentador do espetáculo mais maravilhoso da Terra”, veio então em minha direção, e disse:

“Por favor, não chore. E que tal fazer uma pausa? Estamos, e digo em nome de toda a família, muito emocionados com você, e gostaríamos que se sentasse À mesa conosco, e participasse de nossa ceia de Natal”.

“Obrigado, senhor, obrigado”, eu disse baixinho e de cabeça baixa.

E a garota me deu um beijo na bochecha. Eu sabia, nesse momento, que minha segunda mãe estava certa, pintar o rosto de palhaço te protegia de qualquer situação, principalmente quando uma peça se quebrava e era preciso discursar para a platéia.

E eu sabia, nesse momento, que não apenas contente da vida eu estava, mas que eu conseguia exercer a dádiva e talento que Deus me dera, que era, justamente, a de harmonizar as peças de qualquer conjunto.

 
* Denny Yang, 30, é paulistano filho de imigrantes taiwaneses. Cursou História na USP, e também passou pela FAAP e Sorbonne. Escritor, publicou quatro romances, o mais recente New York, New York (Multifoco, 2008). Desde 2007 vive em Taipei.

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