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A Natividade, uma obra de ficção

por Carlos Orsi (17/12/2011)

A representação que leva os Três Reis à manjedoura está simplesmente errada

Aqui no prédio em que vivo há um morador profundamente cristão, que adora adornar o quadro de avisos do elevador social com mensagens edificantes sobre “nós, cristãos” ou sobre como podemos “praticar melhor o nosso cristianismo”. Aproveitando o impulso do artigo de Daniel Sottomaior dias atrás na Folha, fiquei imaginando como seria colocar, no mesmo quadro, uma pensata sobre o quanto é deselegante e presunçosa essa premissa de que todos os moradores do prédio são cristãos e, portanto, têm algum interesse nesse tipo de baboseira. Ou apenas rabiscar, “Nós quem, cara-pálida?” Mas, em nome da paz dos condomínios, me contenho, me contenho.

De qualquer modo: o cartaz mais recente é sobre o que o presépio revela sobre, adivinhe só, o melhor modo de viver uma vida cristã e, claro, prestar o devido respeito à figura de Jesus.

Pessoalmente, considero presépios criações bem interessantes. Não sei o bastante sobre história da arte para afirmar algo, mas talvez sejam os ancestrais mais remotos dos dioramas; e, claro, há variações extremamente criativas, indo do origami às apresentações com autômatos. Como todo motivo mitológico, se prestam a infinitas recriações e reinterpretações. Lembro-me de que no apartamento de meu avô materno havia um feito com peças de madeira entalhada, incluindo um burrico, uma vaquinha e os Três Reis Magos.

O que só pouca gente talvez saiba é que essa representação, que leva os Três Reis à manjedoura, está simplesmente errada. Explicando, com informações que aparecem no meu Livro dos Milagres:

Dos quatro Evangelhos canônicos, apenas dois – Mateus e Lucas – tratam do nascimento de Jesus, e o fazem com narrativas totalmente incompatíveis. De fato, um Evangelho muito literalmente desmente o outro, nesse aspecto. Em Mateus, Jesus nasce na casa de José, na cidade de Belém. Algum tempo depois, a Sagrada Família recebe a visita dos Reis Magos, que vinham seguindo a tal da Estrela de Belém.

Já de acordo com o autor de Lucas, a família era de Nazaré, mas Maria, ainda grávida, teve de acompanhar o marido a Belém, para que José respondesse a um censo ordenado pelos romanos. De acordo com esse evangelista, por algum motivo Roma queria contar os judeus não onde cada um deles vivia e trabalhava – o propósito básico de um censo –, mas na cidade onde seus ancestrais haviam vivido séculos antes. (O censo descrito no texto de Lucas é problemático também por outros motivos. Um deles, o fato de que, na época do nascimento de Jesus, a Galileia, região onde fica a cidade de Nazaré, era um protetorado, e não uma província, de Roma. O suposto decreto de César simplesmente não se aplicaria lá. Outro, é que o único evento histórico vagamente semelhante ao censo citado no Evangelho ocorreu mais de dez anos após a morte do rei Herodes Magno.)

Enfim, chegando a Belém, o Sagrado Casal não encontra lugar para se hospedar e vai passar a noite num estábulo, onde Jesus nasce. Mais tarde, mãe, pai e filho retornam para a carpintaria de José em Nazaré.

Repare que nessa versão não há estrela de Belém, nem Reis Magos.

Essa distinção entre as narrativas é, de fato, tão sobejamente desconhecida, que quando o Vaticano resolveu fazer um presépio à la Mateus — o cenário sendo uma casa, não num estábulo — a coisa virou notícia no mundo inteiro.

Os Evangelhos divergem ainda mais na hora de tratar do que se passou depois do nascimento: em Mateus, José é orientado por um anjo para que fuja imediatamente ao Egito, para escapar do massacre de bebês ordenado por Herodes (atrocidade que, aliás, não é confirmada por nenhum outro Evangelho, e nem mesmo por historiadores da época: Herodes não era nenhuma flor que se cheirasse, mas o “massacre dos inocentes” parece ser mais uma calúnia perpetuada na Escritura Sagrada do que qualquer outra coisa). José, Maria e Jesus retornam à Palestina apenas a morte de Herodes, e decidem então radicar-se em Nazaré, na Galileia.

Já em Lucas, a família fica numa boa em Belém ainda por pelo menos 40 dias – o prazo estabelecido na lei judaica para que os pais apresentassem o filho ao templo de Jerusalém – e, uma vez cumprida essa formalidade, retorna calmamente a Nazaré. Nenhum indício de perseguição pelo rei.

Tudo isso pode ser visto como mera implicância minha; olhaí o ateu pernóstico, reclamando de picuinhas. Afinal, um presépio que junte os reis e a estrela à manjedoura simplesmente reúne o que há de mais dramático e poético nas duas versões, meio que como os filmes do Christopher Nolan reúnem o que há de mais interessante nas várias versões do Batman.

A diferença, se é que preciso explicar, está em que, pelo menos no caso do Batman, todos reconhecem as histórias como peças de ficção.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.