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James Bond, 60 anos de livros

por Carlos Orsi (23/12/2012)

Se os livros de Ian Fleming eram considerados fracos, de onde vinham as qualidades que seduzira o público?

Livros de Ian Flaming

As comemorações, em 2012, dos 50 anos da série cinematográfica de 007 parecem ter convencido muita gente de que o próprio personagem completava meio século de existência. Nada mais falso: o “verdadeiro” James Bond, criado por Ian Fleming para protagonizar o romance Cassino Royale, veio a público em 1953 – ou seja, completa 60 anos em 2013.

O imenso sucesso dos filmes de James Bond, além da proliferação quase infinta de paródias e citações na cultura popular pelas últimas décadas, obscureceu a figura original, que aparece em mais de uma dezena de livros publicados entre 1953 e 1966. Se até hoje os créditos iniciais dos filmes apresentam o protagonista como “Ian Fleming’s 007”, o conteúdo de verdade presente nessa atribuição é bem discutível – principalmente na era dos filmes quase-pastelão protagonizados por Roger Moore, mas não só.

É possível argumentar que, no cinema, as interpretações de Timothy Dalton e Daniel Craig estejam próximas, ao menos psicologicamente, do Bond original de Fleming, mas o leitor que se der ao trabalho de ler Cassino Royale provavelmente ficará surpreso ao ver como o herói do livro é uma figura passiva — Bond recebe a missão, sobrevive a um atentado, é enganado, sequestrado, torturado, resgatado — há sempre alguém fazendo alguma coisa com ele ou por ele. Praticamente não há nenhuma iniciativa decisiva que parta do protagonista: ele triunfa e sobrevive mais por sorte, e graças à ajuda dos amigos (como Felix Leiter, o agente da CIA que lhe empresta o dinheiro que precisa para continuar a jogar no cassino que dá nome ao romance) do que por qualquer mérito próprio, para além de uma capacidade quase sobre-humana de suportar castigo físico.

No livro seguinte, Viva e Deixe Morrer, Bond tem um papel menos passivo mas, outra vez, seu sucesso depende mais de lances de sorte, um incrível estoicismo e da ajuda dos amigos do que de uma análise racional profunda, à la Sherlock Holmes, ou de algum tipo de supercompetência, tão comum no Bond cinematográfico — que é sempre um exímio piloto de qualquer modalidade de veículo terrestre, aéreo ou aquático, capaz de falar qualquer língua e de manejar qualquer arma como um expert.

Esse trio de características — sorte, estoicismo, amizade — é a marca principal dos volumes da primeira fase da série, que vai de Cassino Royale a Chantagem Atômica.

Nela, os enredos também não são especialmente críveis ou bem urdidos — em boa parte dos filmes estrelados por Sean Connery, que seguem mais de perto a fonte literária, é visível o esforço dos roteiristas para dar consistência às tramas: mais de um crítico já notou que o plano do Goldfinger cinematográfico (desvalorizar as reservas de ouro nos EUA ao explodir uma bomba atômica em Fort Knox, tornando o metal radioativo) faz muito mais sentido do que o plano do Goldfinger literário, que era simplesmente roubar Fort Knox: afinal, quanto tempo seria necessário para carregar milhares de toneladas de barras de ouro em caminhões? E como esconder o produto de um roubo tão volumoso? Os livros dessa fase têm, em sua maioria, uma série de “estações” mais ou menos obrigatórias: Bond recebe uma missão de seu chefe, M; após iniciá-la, acaba capturado pelo vilão, que lhe explica seus planos antes de mandar torturá-lo e matá-lo; Bond escapa; o vilão é derrotado. A fórmula em si deve mais aos thrillers de Fu Manchu do que às variantes mais sofisticadas da literatura de suspense e espionagem.

De fato, o principal crítico de ficção de mistério e suspense americano do século passado, Anthony Boucher, jamais escreveu uma resenha francamente favorável para um livro de Ian Fleming. O sucesso de James Bond nos Estados Unidos só aconteceu depois que, num perfil do jovem político em ascensão John F. Kennedy, publicado na imprensa americana, um romance de Fleming apareceu como única obra literária na lista de dez livros favoritos do futuro presidente, de resto dominada por títulos de não-ficção.

O que nos traz à questão das qualidades de Ian Fleming como escritor. Se seus livros, analisados dentro dos critérios que haviam canonizado autores tão díspares quanto Conan Doyle, Dashiell Hammett, John Buchan e Georges Simenon, eram considerados fracos, de onde vinham as qualidades que haviam seduzido tanto o público leitor britânico quanto John Kennedy?

O primeiro estudo a se debruçar sobre as aventuras de 007 enquanto literatura, o volume The James Bond Dossier, de autoria de Kingsley Amis, destaca uma qualidade particular, “The Fleming Effect”. Escrito décadas mais tarde, outra análise da obra, The James Bond Bedside Companion”, de Raymond Benson, define outra, “The Fleming Sweep”. “Sweep”, que significa “arrebatamento” ou “pincelada”, refere-se à capacidade do autor de manter a narrativa em movimento, e de, sem esforço aparente, usá-la para arrebatar a atenção do leitor. É uma qualidade do texto, um poder que vem do estilo: da forma como a história é contada, mais que do conteúdo do que é narrado. O que não deixa de ser uma constatação irônica, nestes tempos em que a suposta linha divisória entre literatura “séria” e “de entretenimento” tantas vezes é traçada em termos da oposição entre forma e conteúdo. Em Fleming, autor de entretenimento por excelência, a forma domina o conteúdo, e ninguém parece se importar.

Já o “Fleming Effect”, ou “Efeito Fleming”, é a capacidade do autor de inserir na narrativa detalhes aparentemente irrelevantes, como a marca de um cigarro, o ajuste do motor de um carro, o corte de um terno, o menu de um jantar, algumas afirmações tão gratuitas quanto peremptórias — “é impossível beber a sério em Paris ao entardecer”, por exemplo — que produzem um senso de realismo e de familiaridade. Possível fruto do treinamento de Fleming como jornalista, o “efeito” também é mais uma característica de estilo do que de conteúdo: não só muitas das descrições detalhadas oferecidas por Fleming são fantasiosas — o “filé à Brizzolla”, consumido por James Bond em uma das refeições descritas em detalhe no romance Viva e Deixe Morrer, simplesmente não existe — como também absurdas: de acordo com Andrew Lycett, autor de uma biografia do escritor, muitos produtos citados nos livros eram escolhidos não por suas características reais, mas pela fonética. Fleming gostava muito de nomes duplos: Walter PPK, Aston Martin, etc.

Em sua tradução para o cinema, o “Flaming Effect”, que nos livros se dilui na voz de vários personagens e na do narrador em terceira pessoa, acabou se transformando no esnobismo pedante do agente 007, que sempre parece saber tudo sobre tudo.

Bond, o personagem literário, evolui lentamente ao longo da série, vindo a adquirir algum senso de humor apenas no sétimo livro, Goldfinger. Ele já foi descrito como um psicopata misógino e, embora James Bond tenha pensamentos francamente machistas — ele acha que mulheres não deveriam dirigir, que a função da mulher no local de trabalho é apenas enfeitar o ambiente, que o voto feminino e a liberação sexual feminina provocaram um surto de lesbianismo no mundo — seu comportamento e suas palavras são, no geral, marcados por cortesia e consideração, quando não cavalheirismo. Ele se oferece para pagar a cirurgia plástica para consertar o nariz quebrado de Honey Rider, a “Bond girl” do romance Dr. No; e se põe em grande risco para resgatar Solitaire, a prisioneira de Mr. Big, o vilão de Viva e Deixe Morrer.

Críticos especulam se a misoginia que aparece, quando os pensamentos de Bond são revelados pelo narrador, não seria uma caricatura dos sentimentos do autor em relação às mulheres. Fleming tratava as namoradas com grande crueldade emocional, descartando-as de modo frio e até mesmo grosseiro, e mantinha um relacionamento sádico com a esposa, Anne — é famosa (ou infame) a carta em que ela diz sentir saudades das chibatadas que o marido lhe aplicava, e dos gritos e ofensas dele.

Depois de Chantagem Atômica, Fleming decidiu fazer experiências mais ousadas com seu protagonista, lançando a série em sua segunda fase. O livro seguinte, O Espião que Me Amava, é narrado em primeira pessoa pela “Bond girl”; em A Serviço Secreto de Sua Majestade, ele se casa, mas o matrimônio termina em tragédia; e no último livro que Fleming completou antes de morrer, Só Se Vive Duas Vezes, a atmosfera é de fantasia e pesadelo: o romance pode ser dividido em duas partes, onde a primeira funciona como uma interessante reportagem turística sobre o Japão, seu povo e seus costumes — com o “Fleming Effect” ligado no máximo — e a segunda é mais uma história de terror ou uma parábola moral do que uma história de aventura. Um último romance, O Homem da Pistola de Ouro, deixado inacabado por Fleming, foi publicado postumamente, mas é considerado o mais fraco da série.

Após a morte do autor, em 1964, Kingsley Amis — usando o pseudônimo “Robert Markham” — publicou um romance original de James Bond, Coronel Sun, que, ao mesmo tempo em que tentava recriar o “Fleming Effect”, buscava ir mais fundo da psicologia dos personagens e na relação entre Bond e seu chefe, M. Outras aventuras literárias do agente 007 só viriam a ser produzidas na década de 80, quando o autor de romances policiais John Gardner foi contratado para ressuscitar a série de livros, transplantando Bond para o mundo contemporâneo. Após a aposentadoria de Gardner, geralmente criticado por escrever livros mais inspirados na série cinematográfica do que nos romances originais, o bastão passou a Raymond Benson — que manteve Bond no mundo atual, mas tentou levar o espírito da série de volta às raízes na obra de Fleming — e Sebastian Faulks, cujo livro A Essência do Mal, é uma engenhosa tentativa de escrever um livro “à moda de Ian Fleming”, levando Bond de volta à década de 50, para enfrentar um vilão que parece ser um pout-pourri do que há de pior nos antagonistas clássicos da série.

O livro mais recente a ter James Bond como protagonista, Carte Blanche, do americano Jeffrey Deaver, mais uma vez situa a ação nos tempos atuais, fazendo de 007 um veterano da invasão da Otan no Afeganistão — e não mais da 2ª Guerra Mundial, como nos livros de Fleming — e um agente não do MI6, o serviço de espionagem britânico, mas de uma organização ainda mais secreta, a ODG.

Deaver, assim como Amis, Benson, Faulks — e, em menor escala, Gardner — tenta recapturar o “Fleming Effect” e o “Fleming Sweep”. O “efeito” é enganosamente fácil de emular. Enganosamente porque, como fica claro em muitos dos filmes, a linha que separa o charme e o realismo que ele pode produzir do mero pernosticismo (quando não de uma desagradável sensação de merchandising) é tênue e depende de um equilíbrio delicado. Já o “sweep” parece ser um caso perdido: assim como a pincelada de um Grande Mestre, o arrebatamento de Fleming parece ter morrido com o autor. Para conhecê-lo de fato, o único modo é mergulhar de volta nos textos originais, onde ele continua fresco, mesmo passados 60 anos.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.