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per augusto & machina

por Amálgama (10/01/2009)

por Romério Rômulo 1. de quantas nuvens se faz uma loucura? é construída a mão que bate o prego? as estações do corpo só revelam o hábito eloqüente do delírio. que nos corroa a pedra, o visgo louco da agonia! desmonte do tamanho, o extirpado dente, gengiva em sangue são a mesma face do hábito […]

por Romério Rômulo

1.
de quantas nuvens se faz uma loucura?
é construída a mão que bate o prego?
as estações do corpo só revelam
o hábito eloqüente do delírio.
que nos corroa a pedra, o visgo louco
da agonia!
desmonte do tamanho, o extirpado dente,
gengiva em sangue são a mesma face
do hábito terrível de ser homem. 
quanta eloqüência travada no meu olho! 
(uma bravura regenera a noite)

 

  * * *

2.
eu tenho que arrancar da tua nuca
a vaga decisão de ser meu corpo
o elo de teu ventre com a terra. 
devo extirpar o gesto adquirido
num, por somenos, ato reticente
de ver distância de mim ser teu intento. 
quando as valas mostrarem nosso rumo
quando as formigas resvalarem atos
de um só ser em nós se validar 
vou te mostrar a minha mão candente
meu corpo todo ele enluarado
e o meu dente podre de manhã. 
há de sobrar de nós-o quê? –só torpes
rasgos de vento no olho do tufão. 
a pura pedra me diz: quando fui homem? 
     (arrancar da tua nuca)

* * *

3.
meu corpo traz uma equação de nuvem.
pobres resgatados, desmorados, osso e braço
rezam no ar de penitência suas águas.
proprietários do sobrado, pouco lhes resta. 
de tempo, arreganham dentes de uma fome sólida.
ralos de feijão, seus corpos sabem o horizonte da terra. 
escaldados, cândidos, um sopro. 
(cândidos, um sopro)

* * *

4.
o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante a noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos. 
quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente? 
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica. 
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares? 
sou vil filhote desta dor e medo. 
   (todo sertão é um caldo de tortura)

 

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* Romério Rômulo é professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto. Poeta, publicou em 2006 Matéria bruta (Altana). Os poemas deste post são do livro Per Augusto & Machina, que sairá em março pela mesma editora Altana.

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