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A esquerda hipster, o lulismo e o conservadorismo popular

por Paulo Roberto Silva (02/04/2015)

Os representantes das aspirações populares não têm identidade alguma com seus representados

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O esquerdismo se construiu historicamente sobre uma ilusão de ótica: a de que as organizações de inspiração marxista seriam representantes das classes trabalhadoras, não por seus vínculos orgânicos a esta, como eram os socialistas utópicos ou os socialdemocratas, mas por sua adesão a uma ideologia. Isto permitiu que grupos marginais de classe média se apresentassem como verdadeiros representantes do povo, ainda que este estivesse seguindo outros líderes.

Foi o caso do período mais duro do regime militar brasileiro. Enquanto as correntes guerrilheiras diziam representar os trabalhadores, estes seguiam o MDB, o sindicalismo pelego e a fração da Arena que viria a ser o malufismo. Tanto que a derrota do regime se deu por esses três grupos: o malufismo por dentro e MDB e sindicalismo pelego (de onde veio Lula) por fora.

Hoje a esquerda nacional se encontra em abismo semelhante. Nos últimos doze anos ela pode se expandir graças ao fenômeno do lulismo, ou seja, uma versão moderna de populismo construída a partir da experiência sindical do ABC e sua evolução no PT. O lulismo, dizem todos os que o analisam, foi essencialmente um pacto conservador: não alterou as bases da estrutura econômica, exceto pela contenção do liberalismo, mas ofereceu políticas compensatórias para elevar o consumo dos mais pobres. E, acima de tudo, foi um pacto conservador no âmbito dos costumes, para assegurar o apoio das frações populares.

Contudo, dois fenômenos paralelos empurraram a esquerda radical para fora deste pacto e, conseqüentemente, da “vanguarda popular revolucionária”. Um foi a crise do mensalão, que afastou o PT da classe média – embora não dos mais pobres. O outro foi o surgimento de frentes de mobilização novas, fora das estruturas controladas pelo lulismo – CUT, UNE, MST – e vinculadas à pauta comportamental: maconha, LGBT, ciclismo. Essas novas frentes surgiram no embalo do avanço de uma nova cultura de vanguarda, chamada de cultura hipster. Este movimento incluiu setores petistas, como os que expulsaram Luís Bassuma do partido por ser contra o aborto.

Para sobreviver diante do lulismo, as frações radicais da esquerda aderiram em maior ou menor grau ao hipster. O problema é que, diferentemente dos anos 1960, quando era cool ser maoísta, o hipster não é classista nem no discurso. Por isso, ao migrar do ABC ao Baixo Augusta, a esquerda rompeu seus laços com os pobres em um momento crítico. O esquerdismo se incorporava às marchas da maconha e das vadias no momento em que o conservadorismo religioso, católico e neopentecostal, ganhou mais força entre os mais pobres.

Assim, houve um processo de retroalimentação pernicioso para ambos os lados. A esquerda hipster do Baixo Augusta elegeu como inimigo do povo, não o burguês, mas o crente pobre da periferia. Isso era usado como argumento pelos setores conservadores religiosos para isolar seus pares mais comprometidos com causas populares. Assim, o hipster da PUC atacava o cardeal Scherer, e em retaliação os conservadores católicos isolavam o padre Júlio Lancelotti. E esse processo erodia o pacto lulista por baixo.

Hoje, quando o 15 de março reúne na mesma frente a classe média e os Malafaias, e a força do lulismo se esvai na Lava Jato, a esquerda ainda se pergunta por que ela não está liderando o processo. O curioso é que não consegue se olhar no espelho.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.