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O desafio da relação entre Ocidente e Islã

por Paulo Roberto Silva (12/01/2015)

O Ocidente precisa evitar tanto a xenofobia quanto a ingenuidade do multiculturalismo

Reconquista espanhola

Durante seu primeiro período, o Islã foi uma
religião de guerreiros que queria mudar o mundo,
uma ordem cavalheiresca de cruzados disciplinados.
Max Weber

Vede o exemplo do Grão Turco: governa guebros,
banianos, cristãos gregos, nestorianos, romanos.
O primeiro que tentar provocar tumultos sofrerá
suplício de empalação, e assim todos vivem tranquilos.
Voltaire

O contraponto entre o Islã e o Ocidente está na pauta com os acontecimentos de 7 de janeiro na França, ou seja, o atentado à redação da revista satírica Charlie Hebdo. O debate está se distribuindo entre diversos matizes inseridos entre dois extremos: a xenofobia ocidental, que vê no Islã a personificação de todo mal, e o multiculturalismo relativista, para quem o problema está na má aceitação do Islã pelo Ocidente. No meio, tem de tudo: quem considere que o problema passa pela existência da religião, quem avalie que tudo não passa de fascismo, quem pratica lutas de simitarras etc.

O problema é que essas visões do assunto Islã pouco ajudam o Ocidente a lidar com o fenômeno. Se o polo xenófobo coloca em risco a tradição democrática por fechar as portas ao pluralismo, o polo multiculturalista tende a reduzir a importância dos valores reconhecidos como universais, por exemplo na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Portanto, é preciso que o Ocidente encontre uma interpretação dos fatos equidistante da intolerância dos xenófobos e da ingenuidade do multiculturalismo.

O objetivo deste texto é oferecer alguns tópicos provocativos sobre o tema, para forçar a pensar (sim, eu sei, isso não vai adiantar nada, as pessoas ultimamente não pensam, elas se posicionam e se defendem. Je suis desolé). Apenas a partir de um conhecimento mais profundo da História do Islã poderemos entender como e se seria possível sua integração ao Ocidente democrático.

Antes de seguir em frente, um aviso: deliberadamente estou ignorando a contribuição de Edward Said em seu Orientalismo. Não é por subestimar sua contribuição, pelo contrário. O objetivo de Said em seu trabalho é entender a construção de uma imagem do Oriente pelo Ocidente a partir do período de Napoleão, quando se inicia o esforço colonialista. Isso reduz as provocações que pretendo fazer, e que remontam aos contatos anteriores entre Ocidente e Islã.

Maomé: uma ascética da guerra

O primeiro desafio é entender essa figura controversa chamada Maomé. Em primeiro lugar, o Alcorão registra dois Maomés: um é o monge pobre e peregrino de Meca que prega a reforma dos costumes, enquanto outro é o líder político e militar de Medina. Isto torna o Alcorão uma peça cortada por uma contradição: enquanto o Maomé de Meca é mais místico e espiritual, o de Medina é mais político.

Evidentemente, esta não é uma regra geral, mas fica evidente a constatação de Weber, apontada pelo sociólogo Antônio Flávio Pierucci, de que houve uma “precoce mutação da ‘religião de Maomé’ em profecia político-militar, ou seja, em religião politicamente orientada em seu lastro e, mais especificamente, feudalmente orientada“. Assim, por exemplo, foi em Medina que Maomé redigiu a sura que diz:

O teu Senhor revelou aos anjos: Estou convosco; firmeza, pois, aos fiéis! Logo infundirei o terror nos corações dos incrédulos; decapitai-os e decepai-lhes os dedos! (8ª Surata “Os Espólios”)

Quem são os infiéis aqui descritos? São aqueles que não seguem as “religiões do Livro”, ou seja, todos os que acreditam nas religiões polieístas do Oriente. Quando às “religiões do Livro”, judaísmo e cristianismo, o Alcorão é ambíguo. Em alguns momentos, como na 2ª Surata, revelada em Medina, diz:

Os fiéis, os judeus, os cristãos, e os sabeus, enfim todos os que creem em Deus, no Dia do Juízo Final, e praticam o bem, receberão a sua recompensa do seu Senhor e não serão presas do temor, nem se atribuirão.

Já em outros, diz:

Ó fiéis, não tomeis por confidentes os judeus nem os cristãos; que sejam confidentes entre si. Porém, quem dentre vós os tomar por confidentes, certamente será um deles; e Deus não encaminha os iníquos. Verás aqueles que abrigam a morbidez em seus corações apressarem-se em Ter intimidades com eles, dizendo: Tememos que nos açoite uma vicissitude! Oxalá Deus te apresente a vitória ou algum outro desígnio Seu e, então, arrepender-se-ão de tudo quanto haviam maquinado.

Em linhas gerais, judeus e cristãos são tratados como fiéis a Alá, mas de forma deturpada. Por isso, a eles não caberia a violência reservada aos infiéis, mas uma posição de segunda categoria na sociedade islâmica: seriam protegidos mediante o pagamento de um tributo, mas não teriam acesso a posições de mando.

Esta diferença transparece na curiosa 30ª Surata, denominada “Os Bizantinos”:

Os bizantinos foram derrotados em terra muito próxima; porém, depois de sua derrota, vencerão dentro de alguns anos; porque é de Deus a decisão do passado e do futuro. E, nesse dia, os fiéis se regozijarão com o socorro de Deus. Ele socorre quem Lhe apraz e Ele é o Poderoso, o Misericordiosíssimo.

Ou seja, o Profeta torce pela vitória do Império Bizantino contra os persas. isto não impedirá seus sucessores de avançarem sobre o próprio Império Bizantino e o tomar para si, como fez o sultão otomano Mehmet no século XV. O ponto é: para o Alcorão, a terra está reservada ao Islã. Por isso, um governo islâmico é preferível a qualquer outro, mas um regime das “religiões do Livro” é preferível ao de qualquer infiel. Ou seja, há, na própria doutrina islâmica, um campo de tolerância limitada: apenas aos judeus e cristãos, e sob condição de inferioridade.

Há outro ponto importante de se destacar: como lembra Weber na epígrafe deste artigo, o Islã surge como uma religião de guerreiros. O mundo árabe à época de Maomé era formado por tribos guerreiras, e é para elas que prega o profeta. Por isso, Alá se apresenta como um Deus fatalista e de vontade onipotente. O perdão está condicionado a uma submissão total do pecador, e sua vontade deve ser questionada sem pestanejar. Como disse o sociólogo Antônio Flávio Pierucci:

“Todo aquele que crer que Alá é o único Deus e Maomé é seu profeta, e morrer nessa fé, entrará no paraíso” — reza um famoso hadith. Tendo “como única exigência dogmática a fé no único Deus e em seu Profeta”, o Islã se põe como “religião de fé”, vale dizer, uma religião logocêntrica, centrada na profissão ou confissão de fé [Bekenntnis], quer dizer, num enunciado de fé a ser proferido diuturnamente, cujo valor aumenta ainda mais se pronunciado na frente dos outros, se for ao mesmo tempo um “testemunho de fé” (Máquina de Guerra Religiosa: o Islã visto por Weber)

A expansão do mundo árabe e o Islã na prática dos califados

Quando alguém se refere à época em que “o Islã era mais liberal”, faz referência geralmente ao longo período que vai da morte de Maomé à expansão do Império Otomano, entre os séculos VII e XV. Ou, mais precisamente, ao califado Abássida, entre 721 e 1258. Podemos incluir nesta tendência também o califado Fatímida, xiita, no norte da África, e o califado em Al-Andaluz, atual Espanha.

De fato, trata-se de um dos períodos mais tolerantes do Islã. Em parte, essa tolerância se explica por motivos geopolíticos: a concessão de facilidades às populações judaicas e cristãs autóctones tornavam-na simpatizantes do regime muçulmano em um momento em que o Império Bizantino operava uma imensa pressão fiscal e sofria uma forte luta sectária interna. Foi o período em que o cristianismo oriental se fragmentou em diversas igrejas – algumas delas posteriormente se alinhariam ao Papa de Roma e se tornariam católicos de rito bizantino ou oriental.

Neste ambiente, abrir mão de relevância política era um preço baixo a pagar para se livrar do ambiente envenenado de Constantinopla. É o caso, por exemplo, de são João Damasceno. Patriarca de Jerusalém, pode fazer, de trás das fronteiras Omíadas, a defesa do uso de imagens nas igrejas, que sofria perseguição dos iconoclastas protegidos pelo Imperador.

No Califado Abássida, o ímpeto expansionista árabe dá lugar a uma pax islâmica no Oriente Médio. Os bizantinos se tornam parceiros comerciais, e comerciantes cristãos e judeus operam dentro do território do califado. Os peregrinos europeus que se dirigem à Terra Santa são mantidos em paz. É o período em que surge a filosofia aristotélica árabe, representada por Avicena e Averróis. Na Pérsia, Bagdá e na Espanha, florescia a filosofia a partir da tradução dos textos de Aristóteles e outros clássicos gregos, na chamada Era de Ouro do Islã.

Contudo, o caso de Averróis é significativo dos limites desta Era de Ouro: ao desafiar os limites da lógica religiosa a partir da filosofia aristotélica, foi questionado por um filósofo mais próximo do Islã ortodoxo, Al Ghazali, sobre os limites do neoplatonismo e do aristotelismo. Em resposta, desenvolveu a teoria das Duas Verdades, segundo a qual o que seria verdade para o Islã poderia não ser para a ciência, e tudo bem. Isto lhe valeu o desterro pelo califa Almançor.

O risco da ortodoxia esteve sempre presente sobre os califados. É célebre o caso da dinastia Almóada na Espanha, que obrigou a família do rabino Maimônides, considerado um dos maiores pensadores judaicos de todos os tempos, a apostatar do judaísmo e fugir para o Egito, onde ficou sob a proteção do sultão turco Saladino.

Os contatos do Islã com o Ocidente antes do colonialismo

Podemos afirmar que a cultura européia teve como uma de suas influências o contraponto ao Islã. Basicamente, podemos identificar quatro grandes conflitos:

Em todos esses casos, a cultura islâmica foi se sedimentando como um contraponto à europeia. Se, para os muçulmanos, tratava-se de conflitos contra os francos, denominação que em árabe cabiam todos os europeus cristãos, para a Europa tratava-se da defesa de seu depósito cultural como um todo.

Assim, foi após a Batalha de Poitiers que os francos abriram caminho para se tornarem os protetores da Igreja Latina sob Carlos Magno. A Reconquista moldou, sob o espírito das Cruzadas, a identidade nacional e as instituições de Espanha e Portugal. As Cruzadas sustentaram a unidade europeia no momento em que o Sacro Império Romano Germânico era ameaçado de fragmentação e perdia espaço para França e Inglaterra.

Mas foi o avanço otomano quem mais marcou o espírito europeu moderno. Por um lado, o Islã otomano estava já bem distante do ambiente tolerante que marcou a Era de Ouro. Por outro, a Europa estava dividida em conflitos religiosos e políticos que desembocariam na Guerra dos Trinta Anos. Foi quando os otomanos decidiram avançar sobre a Europa em pleno século XVI.

A Europa moderna foi moldada em conflitos como a Batalha de Lepanto, que a livraram da islamização. Desde então, na mentalidade europeia, o Islã tornou-se símbolo do grau máximo de uma tirania. Maquiavel já dizia que os súditos do sultão turco “são todos escravos e submetidos ao príncipe”.

Coisas semelhantes poderiam ser lidas dos grandes filósofos que lançaram as bases do liberalismo. Renato Janine Ribeiro lembra como Montesquieu via no sultão otomano o modelo do despotismo. Voltaire, por sua vez, não alivia a ironia: “Vede o exemplo do Grão Turco: governa guebros, banianos, cristãos gregos, nestorianos, romanos. O primeiro que tentar provocar tumultos sofrerá suplício de empalação, e assim todos vivem tranquilos.”

Ao denunciarem o despotismo turco, o que esses filósofos estão colocando é uma luz vermelha sobre o absolutismo europeu: se não for limitado, o poder absoluto pode transformar a Europa em um novo sultanato, e as conquistas de Lepanto serão inúteis. Miram no inimigo comum, o sultão muçulmano, para acertar o alvo mais próximo, o poder absoluto dos monarcas europeus.

Neste sentido, podemos afirmar que a noção ocidental moderna de liberdade e democracia foi construída em contraposição a um Islã, não o da Era de Ouro, mas o agressivo, conquistador e despótico do Império Otomano. Se depois, no século XIX, os otomanos serão aceitados ao concerto europeu, será pura geopolítica, como contraposição às pretensões da Rússia e do Império Austro Húngaro. O turco, o muçulmano, será sempre o contraponto ao europeu, e as dificuldades da Turquia moderna em ser aceita à União Europeia apenas demonstram isso.

* * *

De tudo o que colocamos acima, vemos dois problemas complementares:

  • De um lado, um Islã hegemonista. Ainda que o terrorismo seja realmente obra de uma minoria, o hegemonismo está no DNA do Islã, obtido a partir da interpretação do Alcorão;
  • De outro, uma Europa que se construiu em contraposição ao Islã, em confronto militar, político e cultural.

Construir a paz e isolar o fundamentalismo passa por duas tarefas. Uma delas cabe ao mundo islâmico: construir uma exegese que dê fundamento religioso à tolerância. Este seria um esforço não inédito, mas de certa forma único. Os muçulmanos não tiveram uma teologia liberal, como judeus e cristãos contaram no século XIX e XX, que se abriu ao mundo moderno. O equivalente islâmico seria o kemalismo, ou seja, o discurso modernizador e ocidentalizante de Kemal Ataturk na revolução turca. Mas o kemalismo e suas variações – o nasserismo e o Baathismo, por exemplo – são doutrinas políticas, não religiosas.

Por outro lado, há um esforço europeu. É preciso pensar em como construir um ambiente de incorporação dos imigrantes muçulmanos sem abrir mão do ser europeu. O que é possível ceder e o que é inaceitável negociar. Este processo parece estar em andamento, não sem dor nem desvios à xenofobia e ao multiculturalismo.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.